Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2016

Luís Osório - A mulher da minha vida

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Soube da sua morte pelo telefone. Chorei como se as lágrimas pudessem durar para sempre; ao fim de um longo tempo julguei que elas nunca mais deixariam de me correr. Mas as lágrimas terminam como tudo o resto, como a vida dos que amamos e nos fizeram, para o bem e para o mal, ser estes. Que me fizeram ser este.

 

A avó Joaquina, mãe da minha mãe. Teria feito 100 anos no princípio desta semana. Teríamos celebrado com um bolo de chantilly e três velas se aquele telefonema não tivesse existido ou eu não o tivesse atendido – pergunto-me bastas vezes se fiz bem em fazê-lo, se porventura poderia ter evitado a sua morte se o preferisse ter ignorado, se não lhe tivesse dado importância. A partir daí mantive-o em silêncio. Na maior parte das vezes, quanto muito, vibra sem tocar.

 

Foi, num certo sentido, a mulher da minha vida.

 

Tinha a quarta classe mal tirada. Nascera nas Mouriscas, terra de Abrantes, e aprender a ler e contar era menos importante do que fazer-se à vida. Aprendeu a costurar numa máquina com um pedal, fazia soutiens que depois levava ao patrão. Recordo-me bem. Apanhávamos o 9 em Campo de Ourique, descíamos à Estrela, passávamos pelo Largo do Rato, descíamos ao Marquês de Pombal e atravessávamos a Avenida da Liberdade até alcançar os Restauradores. O patrão trabalhava aí, num prédio alto ao lado do Hotel Avenida, subíamos vários andares num elevador que imaginei num filme de Orson Welles. As meninas faziam-me uma festa enquanto o patrão recebia os soutiens e lhe dava notas em troca. A avó guardava-as no seu porta-moedas. Fazíamos o caminho de volta. Nunca mais haveria de ser tão feliz. Só que não o sabia.

 

O cheiro do pastelão de ovos ou do frango de fricassé. Tantas vezes ainda o sinto, como se ela tivesse regressado de uma longa viagem, estivesse na cozinha e me fosse outra vez chamar para vir para a mesa.

 

Chamava-me Miguel. Como toda a família que já existia antes de mim; assim me reconhecia. Após a sua partida, e da morte de minha mãe, passei a ser outro nome, o Miguel deixou de existir.

 

Levava-me um pão embrulhado num pano ao recreio da escola primária. E acordava-me nas manhãs com um pequeno-almoço que me pousava na cama. Aos fins-de-semana comprava-me o jornal desportivo e nunca se esquecia de me despertar com um beijinho. Quando comecei a sair era com o seu dinheiro – de três em três meses oferecia-me mil escudos que gastava religiosamente em livros e numas cervejas.

 

A primeira vez que me apaixonei foi ela quem me deu o dinheiro para o jantar. E no rescaldo da tragédia foi ela a tranquilizar-me. A menina achava-me graça mas não a suficiente. Convenceu-me então que os grandes amores ainda estavam para vir. Assim como os grandes projectos.

Morreu a 13 de Setembro de 2000. E o funeral celebrou-se no dia em que fiz 29 anos. Na semana anterior quis ver-me, tinha coisas para serem ditas, não desejava ir embora sem mas dizer. Ouvi-a. Informou-me que não ia durar muito, estava cansada e, mais do que nunca, a sua cabeça estava cheia de imagens de infância, como se sentisse que já não pertencia a este tempo, mas a outro que não entendia bem. Não mo disse nestas palavras, interpretei-as assim e quando as recordo é assim que as recordo.

 

Queria despedir-se. Dizer-me que guardara para mim o dinheiro que juntara na sua vida. Para mim, para a Zé e para o André que acabara de fazer dois anos. Deu-me o seu porta-moedas. Dentro dele estavam vinte contos: a maior fortuna que poderia ambicionar. Guardei-o como a mais preciosa das jóias. A única coisa que verdadeiramente me pertence, que sinto me pertence.

A avó faria 100 anos.

 

Não assistiu à morte dos seus dois filhos. Não viu nascer o irmão do André, o meu segundo a quem baptizámos de Miguel em homenagem ao amor incondicional que sentia por mim. Não me viu em divórcios, o que lhe teria sido pesado.

 

Uma mulher extraordinária. Que me ensinou o valor das coisas que não se têm de dizer. Que se sacrificou por mim como se a sua vida não fosse importante, só a minha. Por isso, cada coisa que faço, penso ou sinto é nela que esbarro – no que não comeu para que eu comesse, no que não viveu para que eu vivesse, no que não sentiu para que eu sentisse.

 

Um dia, num livro de pensamentos, escrevi: «Uma família empurrava um carro em plena avenida – já não lhes bastava a crise, as arrelias e o preço da gasolina, agora também o motor. Há alturas em que um pequeno problema, somado a um mundo de outras angústias, é capaz de desencadear uma tempestade perfeita. A imagem fez-me regressar a uma madrugada em que, numa esquina perigosa, empurrei um automóvel com a avó Joaquina lá dentro. É a ela que volto quando alguém empurra carros em pequenas ruas ou largas avenidas. Nunca perco a oportunidade de olhar lá para dentro – as pessoas não imaginam que procuro o sorriso de uma avó de quem tenho tantas saudades».

 

É isso, só isso. O resto é silêncio. Por vezes, ruidoso. Noutras, um mar calmo. 

 

Luís Osório no SOL


publicado por olhar para o mundo às 09:13
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62 comentários:
De Maria Moreira a 22 de Fevereiro de 2016 às 08:57
Parabéns lindo !..
De Anónimo a 26 de Fevereiro de 2017 às 19:06
Os meus sinceros sentimentos.
Como é bom ter tido uma Avó assim.
Parabéns pois ficará em sua memória!

Já eu não posso dizer o mesmo, quanto a esse carinho tão profundo. A minha foi dura e fria,...

Abraço cordial
De Anónimo a 22 de Fevereiro de 2016 às 09:04
Como eu o entendo fui criada com meus avôs, quando falou no café da manhã senti o cheirinho do café da brasileira do Porto que minha avó me levava à cama com um pão de Amarante e nozes que me sabia pela vida, as segunda feiras sempre faziam batata com todos fazia uma migas e dividia comigo e com a gatinha de pelo branco e preto !.. Saudades
De Sofia a 22 de Fevereiro de 2016 às 10:48
Já não lia textos seus há algum tempo. Em todos eles, consigo encontrar o encanto de um mundo bom. Neste, o acorde foi mais fundo.
Obrigada, Luís, pelo seu olhar interior.
De Rui a 22 de Fevereiro de 2016 às 23:59
Li tudo:sinal q gostei!
De Miguel a 23 de Fevereiro de 2016 às 15:08
Luís, muitos parabéns pelo seu texto sentido e por ter tido assim uma Avó.

Temos coisas em comum com as nossas Avós. A minha Avó tb me chamava Miguel pese embora ser o meu 2º nome, acordava-me todas as manhãs com um beijinho e o pequeno almoço na cama, comprava-me religiosamente todos os dias de manhã uma bola de Berlim para comer a meio de manhã no Colégio e ao fds comprava-me o jornal desportivo quando ia se aviar :)

Não sei o q irei sentir quando chegar o dia dela, mas será duro com certeza...

Um abraço Luís
De Anónimo a 23 de Fevereiro de 2016 às 16:51
Maravilha de texto, repassado de ternura.

Beijinhos, muitos.


São
De Anónimo a 24 de Fevereiro de 2016 às 07:48
Não conheci os meus avós, que morreram no Holocausto e eu vivia em Portugal. Mas os meus "avós" adoptivos, Jacinto Fernandes Moeno e Maria da Conceição Baptista, também eram das Mouriscas e viviam em Camarate.
Tratavam-me como um verdadeiro neto. Nunca os esquecerei.
De Cristina Cazal Ribeiro a 24 de Fevereiro de 2016 às 21:01
Lindo, quem me dera escrever assim. Hoje no dia em que o meu pai faz 8 anos que morreu, sei bem o que são estas palavras. Apetece escrever e escrever e escrever.
De Anónimo a 24 de Fevereiro de 2016 às 23:30
Só uma avó maravilhosa pode deixar estas marcas na vida de uma criança! Parabéns por ter sabido receber tanto amor que lhe foi dado!
Eu também ti e essa felicidade !
Bem haja pelo seu lindo texto.
De Anónimo a 25 de Fevereiro de 2016 às 13:28
Lindissimo,continue curtindo todas essas lembrancas,elas nos fazem bem.

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