Sábado, 17 de Janeiro de 2015

Miguel Esteves Cardoso - Como é que se esquece alguém que se ama

Miguel Esteves Cardoso

Como é que se esquece alguém que se ama? Como é que se esquece alguém que nos faz falta e que nos custa mais lembrar que viver? Quando alguém se vai embora de repente como é que se faz para ficar? Quando alguém morre, quando alguém se separa - como é que se faz quando a pessoa de quem se precisa já lá não está? 


As pessoas têm de morrer; os amores de acabar. As pessoas têm de partir, os sítios têm de ficar longe uns dos outros, os tempos têm de mudar Sim, mas como se faz? Como se esquece? Devagar. É preciso esquecer devagar. Se uma pessoa tenta esquecer-se de repente, a outra pode ficar-lhe para sempre. Podem pôr-se processos e acções de despejo a quem se tem no coração, fazer os maiores escarcéus, entrar nas maiores peixeiradas, mas não se podem despejar de repente. Elas não saem de lá. Estúpidas! É preciso aguentar. Já ninguém está para isso, mas é preciso aguentar. A primeira parte de qualquer cura é aceitar-se que se está doente. É preciso paciência. O pior é que vivemos tempos imediatos em que já ninguém aguenta nada. Ninguém aguenta a dor. De cabeça ou do coração. Ninguém aguenta estar triste. Ninguém aguenta estar sozinho. Tomam-se conselhos e comprimidos. Procuram-se escapes e alternativas. Mas a tristeza só há-de passar entristecendo-se. Não se pode esquecer alguem antes de terminar de lembrá-lo. Quem procura evitar o luto, prolonga-o no tempo e desonra-o na alma. A saudade é uma dor que pode passar depois de devidamente doída, devidamente honrada. É uma dor que é preciso aceitar, primeiro, aceitar. 


É preciso aceitar esta mágoa esta moinha, que nos despedaça o coração e que nos mói mesmo e que nos dá cabo do juízo. É preciso aceitar o amor e a morte, a separação e a tristeza, a falta de lógica, a falta de justiça, a falta de solução. Quantos problemas do mundo seriam menos pesados se tivessem apenas o peso que têm em si , isto é, se os livrássemos da carga que lhes damos, aceitando que não têm solução. 


Não adianta fugir com o rabo à seringa. Muitas vezes nem há seringa. Nem injecção. Nem remédio. Nem conhecimento certo da doença de que se padece. Muitas vezes só existe a agulha. 


Dizem-nos, para esquecer, para ocupar a cabeça, para trabalhar mais, para distrair a vista, para nos divertirmos mais, mas quanto mais conseguimos fugir, mais temos mais tarde de enfrentar. Fica tudo à nossa espera. Acumula-se-nos tudo na alma, fica tudo desarrumado. 


O esquecimento não tem arte. Os momentos de esquecimento, conseguidos com grande custo, com comprimidos e amigos e livros e copos, pagam-se depois em condoídas lembranças a dobrar. Para esquecer é preciso deixar correr o coração, de lembrança em lembrança, na esperança de ele se cansar. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'


publicado por olhar para o mundo às 21:14
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98 comentários:
De Anónimo a 13 de Agosto de 2017 às 21:50
Lindo tudo o que escreve Miguel Esteves Cardoso
De Maria do Carmo a 17 de Agosto de 2017 às 15:54
Tudo a seu tempo. E ele , ( o tempo ) , é o único " remédio " . Qdo morreu meu marido, muitas pessoas diziam, que eu precisava urgentemente me desfazer de tudo, que pertencia a ele ( roupas, calçados, enfim...) , porque se não fosse assim , eu estaria mantendo-o preso a mim. Fiz várias tentativas , deste desapego, mas todas, sem sucesso. Três anos depois, consegui. Doei tudo para um asilo. Sem dor! Mas , precisei deste tempo, para entender, que me desfazendo das coisas materiais que lhe pertenceram, eu não o tiraria do meu coração. Eu não apagaria da memória, a nossa história. Hoje, a saudade ainda é grande, mas não há dor, nem revolta. Somente ACEITAÇÃO, daquilo que não depende de nós. Um lindo dia, a todos!
De Anónimo a 18 de Agosto de 2017 às 03:43
Grande verdade. Só quem passa por tudo isto sabe a dor que é...Obrigada e um beijinho..
De Anónimo a 22 de Agosto de 2017 às 16:47
Que verdade!todo esse texto parece ter sido escrito para mim.Tudo nele retrata a minha dor,a minha perda,o meu sofrimento sem fim.Como se deixa de sofrer?Não há resposta,não há cura para o sofrimento profundo que me acompanha desde a morte do meu único filho,há bem pouco tempo.Mas que medicamentos?Eles não existem por muito que queiramos esquecer mais nos lembramos, mais sofremos.Todos os dias me pergunto porquê?No auge de sua juventude partiu sem avisar.Porquê? E todos os dias me faço a mesma pergunta.Recuperar?Esquecer?Nunca se esquece.Não é possível. E será que eu queria?Não,só quando a memória me falhar,pois cada vez tenho tudo mais presente.A única coisa que sei é que está num Mundo melhor que o meu.Meu grande amor da minha vida que se quiz juntar a seu pai que já partiu há anos.Amém.
De Anónimo a 29 de Agosto de 2017 às 01:27
Adorei, já fiz a minha análise no meu site, espetacular, vou refletir,obrigada

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Que verdade!todo esse texto parece ter sido escrit...
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Tudo a seu tempo. E ele , ( o tempo ) , é o único ...
Lindo tudo o que escreve Miguel Esteves Cardoso
Nunca se chega a esquecer.. fica sempre no coração...
Gosto muito do que escreve.tem alma.sentimento.
O Verdadeiro Sentido dos Afetos em extinção,que pe...
Relembro nas suas palavras o amor que sentia pela ...
Belo texto. Nem todos temos o privilégio de ter um...

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