Quinta-feira, 20 de Julho de 2017

Frases de Miguel Esteves Cardoso no Facebook - Quanto mais precisas para viver, mais tens que trabalhar e menos tempo tens para ti.

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Quanto mais precisas para viver, mais tens que trabalhar e menos tempo tens para ti. O maior dos luxos é o tempo. O tempo é o meu maior património.

 

Miguel Esteves Cardoso

 


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Terça-feira, 20 de Junho de 2017

Miguel Esteves Cardoso - Com este calor?

 

Com este calor?

Hoje vais à praia? Com este calor? Vais ficar em casa? Com este calor? Então o que é que vais fazer? Estás mesmo a perguntar-me isso? Com este calor?

"Vem almoçar comigo" é o convite. "Gostas de bacalhau?" é a pergunta. E a resposta é sempre a mesma: com este calor? Com este calor? És maluco ou quê?

O calor é a melhor das desculpas. Já acabaste o relatório? Com este calor? Posso contar contigo amanhã? Dás-me boleia até Fontanelas? Com este calor?

O que é que achaste do conselho que nos deu o nosso presidente, a pedir que não nos deslumbrássemos com o rating que a Fitch deu a Portugal? O rating que continua a dizer que somos lixo? Sim, esse mesmo! Estás a falar a sério? Com este calor?

Hoje vais à praia? Com este calor? Vais ficar em casa? Com este calor? Então o que é que vais fazer? Estás mesmo a perguntar-me isso? Com este calor?

Está um dia lindo, não está? Com este calor? Deixe-me já aqui, se não se importa. Com este calor? Fique sabendo que eu sou de esquerda. Com este calor? Estou a falar a sério! Com este calor? Não puxe por mim. Com este calor? Está a brincar comigo? Mas alguém brinca com alguém, com este calor?

Ai, que me dá uma coisa. Ah, sim? Com este calor? Faça favor de se ir embora! Com este calor?

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Segunda-feira, 15 de Maio de 2017

Miguel Esteves Cardoso - Muitos, muitos pontos de exclamação para Salvador Sobral!

Muitos, muitos pontos de exclamação para Salvador Sobral!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por ser bom sem se armar em bom e por mostrar que a arte e a alma andam juntas e que nada há nesta vida e neste mundo que seja mais forte!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por ter desenguiçado uma longa história de derrotas em que ganhar era não ficar em último e vencer era conseguir mais do que zero votos! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral pelo humor na hora da vitória, a dizer perante a Eurovisão inteira que "estava tudo comprado"! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral pela justiça e pela generosidade de ter imediatamente agradecido a Luís Figueiredo o bonito arranjo da canção de Luísa Sobral que ele cantou tão bem! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral pela inteligência de ter dito, no momento da consagração, que daqui a um mês tudo estaria esquecido - porque não estará nem deveria estar, mas é bonito ouvir! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por se ter marimbado na transmissão da canção vencedora - "Amar Pelos Dois" - para ir buscar Luísa Sobral, a compositora, intérprete e irmã, para cantar com ele, muito bem e cheia de amor! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Luísa Sobral por ter escolhido o irmão Salvador para cantar a canção que ela escreveu e a canção com que eles, irmã e irmão, ganharam a final da Eurovisão de 2017! Obrigados e parabéns! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral pela sensibilidade de ter dedicado a vitória dele não à família nem aos portugueses mas a uma comunidade muito mais importante e merecedora: a dos músicos! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por ter sido valente na cara de todas as contrariedades e de todas as cantilenas azaradas, derrotistas e miseráveis de sempre! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por ter pensado humildemente - e dito em público - que ninguém ia ligar à vitória dele porque o clube dele, o Benfica, tinha ganho, nesse mesmo dia, o campeonato nacional! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por ser bom sem se armar em bom e por mostrar que a arte e a alma andam juntas e que nada há nesta vida e neste mundo que seja mais forte! É assim mesmo!

E finalmente, por ser verdade e ser preciso, viva Salvador Sobral sozinho, sem a ajuda de ninguém, livre de todos nós porque, por muito que ele proteste e por muito que nós os portugueses nos colemos a ele, foi ele sozinho que ganhou em Kiev e é isso, sobretudo, que jamais será esquecido!

É mesmo assim.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Terça-feira, 14 de Março de 2017

No Amor Começa-se Sempre a Zero - Miguel Esteves Cardoso

No Amor Começa-se Sempre a Zero

Fazer um registo de propriedade é chato e difícil mas fazer uma declaração de amor ainda é pior. Ninguém sabe como. Não há minuta. Não há sequer um despachante ao qual o premente assunto se possa entregar. As declarações de amor têm de ser feitas pelo próprio. A experiência não serve de nada — por muitas declarações que já se tenham feito, cada uma é completamente diferente das anteriores. No amor, aliás, a experiência só demonstra uma coisa: que não tem nada que estar a demonstrar coisíssima nenhuma. É verdade — começa-se sempre do zero. Cada vez que uma pessoa se apaixona, regressa à suprema inocência, inépcia e barbárie da puberdade. Sobem-nos as bainhas das calças nas pernas e quando damos por nós estamos de calções. A experiência não serve de nada na luta contra o fogo do amor. Imaginem-se duas pessoas apanhadas no meio de um incêndio, sem poderem fugir, e veja-se o sentido que faria uma delas virar-se para a outra e dizer: «Ouve lá, tu que tens experiência de queimaduras do primeiro grau...»

Pode ter-se sessenta anos. Mas no dia em que o peito sacode com as aurículas a brincar aos carrinhos-de-choque com os ventrículos, Deus Nosso Senhor carrega no grande botão «CLEAR» que mandou pôr na consola consoladora dos nossos corações. Esquece-se tudo. Que garfo usar com o peixe. Que flores comprar. Que palavras dizer. Que gravata com que raio de casaco hei-de usar? Sabe-se nada. Nicles.

Olha-se para as mãos e parece uma cena de transformação dum filme de lobisomens — de onde outrora havia aqueles dedos tão ágeis e pianistas, brotam dez abortos de polegares. E o vinho entorna-se só de pensar nisso. E as solas dos sapatos passam a atrair magneticamente todos os excrementos caninos da cidade. E a voz que era toda FM Estéreo da Comercial quando vai para dizer «Gosto muito de ti» fica repentinamente Abelha Maia.

Tenha-se 17 ou 71 anos, regressa-se automaticamente aos 13 — à terrível idade do Clearasil e das sensações como que de absorção. Quem se apaixona dá mesmo saltos no ar e diz «Uau!» quando o Pai deixa usar a pasta de dentes dele. Qual «ternura dos quarenta», qual bota da tropa cheia de minhocas! O amor é sempre uma anormalidade que provoca graves atrasos mentais.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'
 
Retirado de Citador

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Quarta-feira, 8 de Março de 2017

Miguel Esteves Cardoso - Carta a Deus

 

Deus,

Bem avisaste que eras um Deus invejoso e vingativo. Também sei que Job era um caso-limite: uma ameaça do que eras capaz. Nem eu nem a Maria João temos um milésimo da obediência e da resignação de Job. E castigaste-nos menos. Mas foi de mais.

De certeza absoluta que nos amamos mais um ao outro do que te amamos a Ti. Sabemos que isto não está certo. Mas foste Tu que nos fizeste assim. Admite: deste-nos liberdade de mais. Foste presunçoso: pensaste que Te escolheríamos sempre primeiro. Enganaste-Te. Quando inventaste o amor, esqueceste-Te de que seria mais popular entre os seres humanos do que entre os seres humanos e Tu. Por uma questão de tangibilidade. E, desculpa lá, de feitio. Tu, Deus, tens o pior das arrogâncias feminina e masculina. Achas que só existes Tu. Como Deus, até é capaz de ser verdade. Mas, para quereres ser um Deus real e humanamente amado, tens de aprender a ser um amor secundário. Sabemos que és Tu que mandas e acreditamos que há uma razão para tudo o que fazes, mesmo quando toda a gente se lixa, porque não nos deste cabeça para Te compreender. Esta deficiência foi uma decisão tua: não quiseste dar-nos a inteligência necessária.

Mas deste-nos cabeça suficiente para Te dizer, cara a cara, que nos preocupamos mais com os entes amados do que contigo.

Ajuda a Maria João, se puderes. Se não puderes, não dificultes a vida a quem pode ajudar. Faz o que só um Deus pode fazer: reduz-te à tua significância. Que é tão grande.

 

Miguel Esteves Cardoso

 

Retirado do Público


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Frases de Miguel Esteves Cardoso no Facebook - Deus existe porque o homem sozinho não consegue existir

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Deus existe porque o homem sozinho não consegue existir. Morre. Vive um bocadinho, faz umas coisas e depois morre. Deus existe porque a Arte não é suficiente. Deus existe porque o Amor não chega. Deus existe porque o homem sozinho é pior. É mais mau. É mais triste. É mais só.

 

Miguel Esteves Cardoso

 


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Terça-feira, 7 de Março de 2017

Portugal: o melhor país do mundo para portugueses e estrangeiros - Miguel Esteves Cardoso

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Quer queiramos, quer não – tão poucas palavras, tanto verbo querer –, Portugal não é o pior país do mundo. Mas – porque querer é poder – até pode ser. Ser português é ser capaz de pensar como é que Portugal pode ser o pior país do mundo e nós, os que cá vivemos, os mais desgraçados habitantes.

 

Portugal pode ser o pior porque, atendendo aos muitos benefícios que Deus lhe deu – o clima, a beleza das paisagens, o sabor das azeitonas e das uvas, mais tudo aquilo que existe sem ser pelo mérito dos portugueses –, Portugal poderia ser muito melhor do que é.

 

Quando agradecemos o bom tempo, a luz e as praias, está implícito que só continuamos a dispor destas coisas boas porque os políticos não conseguiram até hoje arranjar maneira de vendê-las ou estragá-las de uma vez por todas.

 

Assim, o Portugal que temos é o que resta milagrosamente das piratarias dos nossos dirigentes através dos séculos. Não conseguimos elogiar pessoas como Gonçalo Ribeiro Telles por ter criado parques naturais. Preferimos aplaudi-lo por ter impedido os políticos corruptos de ter vendido tudo em lotes aos construtores civis.

 

Um português não consegue olhar para a paisagem mais bonita sem ter consciência de que não deve faltar muito para ir para o galheiro. “Por enquanto, é assim... sabe-se lá por quanto tempo...”

 

Assim se traz tristeza e desespero à contemplação. Da mesma maneira se olha para as paisagens arruinadas, sem qualquer impulso de esperança ou de activismo: “Aqui fizeram o que queriam e o resultado está à vista...”

 

Só um português sabe o difícil que é defender Portugal em Portugal ou os portugueses junto dos portugueses. A primeira objecção é logo a mais devastadora: “Mas quem é que está a atacar Portugal e os portugueses para tu estares aí todo empenhadinho em defendê-los?”

 

Só os estrangeiros podem atacar Portugal e os portugueses. Se o fazem, ninguém perdoa ou descansa enquanto não forem violentamente rebatidos. Os estrangeiros têm de amar Portugal ou levar a sua falta de amor para outro lugar.

 

Resultado: é tão difícil ser-se estrangeiro em Portugal como português. É uma coisa que se partilha, essa dificuldade, felizmente.

 

Para ouvir portugueses a elogiar Portugal, é preciso atacar Portugal para provocá-los. Nem é preciso ser um ataque desmesurado: basta um insultozinho qualquer.

 

Mesmo assim, não quis fazer uma edição do P2 em que se apresentasse Portugal como o pior país do mundo e os portugueses como os mais violentados cidadãos. Isso já acontece todos os dias.

 

Portugal pode não ser perfeito mas não é nada mau. É de longe o país com mais pessoas portuguesas e mais coisas portuguesas. Para quem gosta de pessoas e coisas portuguesas, Portugal é o melhor sítio onde perseguir esses gostos.

 

Não, não é um paraíso. É um país. Nem é por ser o nosso – a gente sabe lá de quem é. É apenas aquele em que, se não formos estrangeiros, nos podemos queixar à vontade de Portugal e dos portugueses sem que ninguém levante uma sobrancelha. 

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Quarta-feira, 15 de Fevereiro de 2017

Miguel Esteves Cardoso - Para a Maria João

Para a Maria João

Eu sou apenas a sorte de poder amar-te. Continua como tu és, Maria João, milagre da minha vida.

Para além do amor existes tu. Para além da pessoa que eu amo há o amor que é a tua pessoa a existir. E, por sorte, ao pé de mim.

Para além do amor estás tu. Como se o amor não bastasse, estás tu como tu és, a apaixonar-me. Para além do amor és tu a razão de viver de boca aberta de riso e de pasmo, nas palminhas das tuas mãos.

 

Para além do amor dás-me os dias de vida, cada um mais inteiro do que o anterior, ao ponto de limpar toda a saudade.
Para além do amor entregas-me o futuro, como a doçura de um momento seguinte que eu nem sinto chegar mas que à mesma me leva com ele. Para além do amor levas-me tu, para onde ninguém vai sozinho, pelo ar. As flores estão todas contigo, Maria João.


 

Deixas-me ser a tua pressa. Deixas-me ser o teu amigo. Deixas-me ser quem eu era quando nasci. Para além do amor existe a tua graça. Para além do amor há o teu prazer, a tua beleza, a nossa casa e o tempo a que fazemos os dois frente, para que não ouse passar sem ser por nós.

Deixa-me continuar até morrer. Contigo eu nunca hei-de morrer. Já adormecer ao teu lado é difícil, quanto mais deixar de viver. Deixa-me viver.

 

Para além do amor continuas tu. Continua. Tu és a pessoa verdadeira que eu amo. Tu és a verdade da minha alma.

 

Tu és o amor, Maria João. Eu sou apenas a sorte de poder amar-te. Continua como tu és, Maria João, milagre da minha vida.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Terça-feira, 14 de Fevereiro de 2017

Miguel Esteves Cardoso - Quando nos Apaixonamos

Quando nos Apaixonamos

Quando nos apaixonamos, ou estamos prestes a apaixonar-nos, qualquer coisinha que essa pessoa faz – se nos toca na mão ou diz que foi bom ver-nos, sem nós sabermos sequer se é verdade ou se quer dizer alguma coisa — ela levanta-nos pela alma e põe-nos a cabeça a voar, tonta de tão feliz e feliz de tão tonta. E, logo no momento seguinte, larga-nos a mão, vira a cara e espezinha-nos o coração, matando a vida e o mundo e o mundo e a vida que tínhamos imaginado para os dois. Lembro-me, quando comecei a apaixonar-me pela Maria João, da exaltação e do desespero que traziam essas importantíssimas banalidades. Lembro-me porque ainda agora as senti. Não faz sentido dizer que estou apaixonado por ela há quinze anos. Ou ontem. Ainda estou a apaixonar-me.

Gosto mais de estar com ela a fazer as coisas mais chatas do mundo do que estar sozinho ou com qualquer outra pessoa a fazer as coisas mais divertidas. As coisas continuam a ser chatas mas é estar com ela que é divertido. Não importa onde se está ou o que se está a fazer. O que importa é estar com ela. O amor nunca fica resolvido nem se alcança. Cada pormenor é dramático. De cada um tudo depende. Não é qualquer gesto que pode ser romântico ou trágico. Todos os gestos são. Sempre. É esse o medo. É essa a novidade. É assim o amor. Nunca podemos contar com ele. É por isso que nos apaixonamos por quem nos apaixonamos. Porque é uma grande, bendita distracção vivermos assim. Com tanta sorte.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (14 Fev 2012)'
 
retirado de Citador

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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2017

Miguel Esteves Cardoso - Pela nacionalidade

 

Pela nacionalidade

Trump não sabe o que está a fazer. Não é isso que o interessa. Ele faz o que faz para mostrar que é capaz de fazer. Trump não está só a ser um político: está a exercer o poder. E a divertir-se com as reacções.

Ele não pode continuar a ser tratado como uma ovelha negra. É o Presidente dos EUA. Não são as opiniões nem os tweets dele que interessam: são as acções. Reagir às acções executivas do Presidente dos EUA com protestos é música para os ouvidos dele. Às acções responde-se com acções.

Trump proibiu a entrada de pessoas nos EUA de acordo com a nacionalidade delas. Esta discriminação é inaceitável. Não adianta nada discutir as nacionalidades e as respectivas culpas no cartório terrorista: isso é aceitar o critério dele.

O que Trump pensa acerca dos muçulmanos não interessa. Interessa são as acções dele. Interessam, sobretudo, as acções dele que vão contra os direitos humanos de seres humanos, seja de que nacionalidade, crença religiosa ou raça formos. Os direitos humanos de todos os seres humanos são activamente canceladas pela decisão de Trump de discriminar conforme a nacionalidade.

As pessoas não têm de dizer que não têm culpa de serem portuguesas, paquistanesas ou americanas. Quando Trump atacou, de facto, exercendo o poder que tem, os direitos de pessoas de várias nacionalidades, o que temos de ouvir é "atacou a nacionalidade". A única resposta é proibir o livre movimento de cidadãos dos EUA enquanto Trump não levantar a proibição. Fogo com fogo se combate. É assim que a política se faz.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo - Miguel Esteves Cardoso

 

Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo

Era um revolucionário burguês. Os burgueses criticaram-no por ser revolucionário e os revolucionários criticaram-no por ser burguês. Era por isso que ele é tão refrescantemente moderno: ainda não nos aproximámos do que ele queria para nós.

Mário Soares não levou nada com ele. Deixou tudo connosco. É essa a maior generosidade que uma pessoa pode ter: querer tudo para os outros e dedicar a vida a lutar por isso — e por nós.

Mário Soares não se importava que não gostassem dele. Ia em frente, achassem o que achassem. É essa a coragem maravilhosa que deixou: serviu de exemplo da liberdade mais importante de todas, que é a liberdade de sermos como somos e acreditarmos no que acreditamos.

Até ao fim da vida, Mário Soares exerceu essa liberdade da maneira mais desobediente, imprevisível e desconcertante. Falava alto quando queríamos que se calasse. Quanto mais queríamos que se calasse, mais alto falava.


 

Mário Soares foi um rebelde e um inconveniente. Era um grande erro tratá-lo com condescendência ou passar-lhe a mão pelo pêlo. Ele reagia com arrogância não só à arrogância como aos excessos de humildade. Não era nenhum santo, graças a Deus. E nunca nos deixava esquecer isso.

No final de cada batalha — a grande maioria das quais perdeu descaradamente —, Mário Soares parava para dar lugar aos vencedores, saudando-os de igual para igual, como se também tivessem perdido.

Pouco importava na estima dele. Mário Soares era uma pessoa profundamente civilizada e humana. Revia-se nas fraquezas que todos herdamos mas poucos reconhecem. Era mimado mas recusava-se a mimar. Respeitava os outros não porque os outros tinham alguma coisa de especial — mas porque não tinham. Eram seres humanos, cidadãos, compatriotas. E isso chega. Isso deveria sempre chegar se todos nós tivéssemos a ideia generosa de democracia que Mário Soares tinha, pôs em prática e deixou para que nos habituássemos a ela e fôssemos, por nossa vez, libertados por ela.

Mário Soares deixou a pessoa dele nas gerações de camaradas e opositores que ele, directa ou indirectamente, inspirou. Podemos não reconhecer essa dívida — tanto faz. A liberdade de cada um de nós não cai nem cresce por causa do mal ou do bem que pensamos dela. É essa a única liberdade valiosa: a que não depende da nossa aceitação; a que é independente da nossa vontade de exercê-la ou reprimi-la.

Pode-se dizer mal de Mário Soares, o mal que se quiser. Não há nada que ele não tivesse ouvido em vida — e verdadeiramente tolerado, não com sobranceira indiferença, mas com o respeito democrático que vem dar ao mesmo. Encolher os ombros faz parte da liberdade. Foi Mário Soares que nos ensinou isso, tanto quando ergueu o punho como quando encolheu os ombros.

Mário Soares era o político que era uma pessoa. Recusou-se sempre a ser um salvador ou uma figura acima da multidão. Ele era o político que era de um partido — o Partido Socialista — e com muita honra. Ele era um laico convicto, capaz de dar tudo pela liberdade religiosa de todos aqueles que têm religiões diferentes da grande maioria. Ele era um republicano honrado que sabia falar com monárquicos, que os monárquicos respeitavam por ter sempre consciência de que tudo depende sempre do que sente cada um de nós e que as nossas crenças, nunca sólidas ou imutáveis, são tão nossas como a nossa humanidade.

É essa semelhança no que nos distingue que nos dá razão para acreditar na humanidade e em ideais tão antigos e modernos como a liberdade, a fraternidade, a justiça e o progresso económico, social e político.

Mário Soares era um revolucionário burguês. Os burgueses criticaram-no por ser revolucionário e os revolucionários criticaram-no por ser burguês. Era por isso que ele é tão refrescantemente moderno: ainda não nos aproximámos do que ele queria para nós.

Ele deu-nos o desconto, compreendeu a nossa volubilidade e a nossa desconfiança. Compreendeu a nossa tendência ora messiânica, ora depressiva. Nunca se iludiu acerca de nós. Aceitou-nos como nós somos, recusando sempre os papéis providenciais que alguns de nós quiseramos impor-lhe, de pai ou de profeta.

Mário Soares foi sempre intransigentemente humano. Ou seja: transigiu em tudo. Negociou, esperou para ver, mudou de opinião. Foi um político inteligentíssimo que nunca teve paciência para se armar em superior. Sempre soubemos quem ele era e ao que vinha. Paradoxalmente, acabou por se prejudicar mais do que estava disposto a fazer. Foi pena não ter estado mais tempo no poder. Mas o preço disso — fingir ser quem não era, achar-se melhor do que nós — era caro de mais para ele. E ele fez bem em não pagá-lo, por muito jeito que tivesse dado a Portugal.

No dia em que morreu Mário Soares saúdo a liberdade que nos deixou, que está connosco agora, ao ponto de eu poder escrever estas linhas sem sentir o mais pequeno constrangimento ou ter de ceder à mais sensata obrigação.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2016

Falsas boas festas - Miguel Esteves Cardoso

 

Porque é que tantas empresas que não me conhecem de lado nenhum me mandam mails automatizados a desejar-me falsas boas festas e feliz ano novo? Onde está escrito que isto me vai me dar vontade de comprar os produtos que me querem vender?

Quando faço anos é a mesma porcaria. As empresas - bancos, publicações, lojas, marcas - fazem questão de me mandar um mail a dizer-me que os computadores e o software que têm “não se esqueceram” do meu aniversário. Os mails custam zero e não envolvem a participação de um único dedo humano. Que pretenderão os autores destes golpes retrógrados, se é que ainda estão vivos? Que eu ache simpático que tenham incluido o meu endereço electrónico na lista super-exclusiva
que eles mantêm de potenciais clientes?

Haverá alguém no mundo - uma única pessoa - que discorde que estas falsas boas festas são contraproducentes? Duvido. Então porque é que continuam a mandá-las? Se calhar a programação foi feita nos anos 90 e as empresas esqueceram-se de desactivá-la. Se fosse esse o caso, bem que uma empresa pioneira poderia mandar-me um mail muito bem-vindo a
dizer-me que, pela primeira vez, não me vai mandar falsas boas festas porque reconhece que é um gesto automático e logo pior do que insincero.

Bem bastam a insinceridade humana e as falsas boas festas que pessoas verdadeiras desejam umas às outras. Já há, por esta época, automatismo que chegue nos nossos gestos e nas nossas palavras. Já estamos bem servidos de falsidade, muito obrigados. Já chega.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2016

Miguel Esteves Cardoso - O FUTURO, A FELICIDADE, O PRESENTE



O FUTURO, A FELICIDADE, O PRESENTE



 

O futuro contém a nossa morte e, depois dela, o infinito de nadas, chato como o ferro do cosmos, que antecedeu os nossos nascimentos.

 

A felicidade, se calhar, é desejar que as coisas não piorem muito, de dia para dia, para não se notarem tanto.

O presenteaquilo que ainda se tem, a começar por estar vivo e lembrarmo-nos de termos estado pior — é a felicidade maior, somada às memórias de felicidades que continuam vivas e que nos fazem sorrir, pertencer e desejar bem aos outros que ainda não as tiveram. Se não nos lembrarmos de termos estado pior ou não tivermos a esperança de ficarmos melhor, já não conta como felicidade; já não conta como presente. Não é só dizer “eu ainda consigo”: é preciso também haver a consciência de ter prazer, não em conseguir, mas nas coisas que se fazem.

 

Todos sabemos o que nos espera. Interessa apenas decidir não tanto o que fazer enquanto esperamos como descobrir as formas que ainda nos restam de nos distrairmos. A distracção é a forma mais exaltante da vida. Quem se pode distrair — amando, lendo, pintando, trabalhando, coleccionando, politicando — não pode ser inteiramente triste, não por não estar apenas simplesmente não-morto e vivo, mas por ter encontrado a maneira de fazer pouco do presente, em atenção ao passado ou ao futuro lembrado ou desejado, como momento e movimento em direcção a eles.

 

Restam as consolações.

 

Quando é ser momento ou movimento a única coisa, para se ser feliz, que se quer.

 

 

 Miguel Esteves Cardoso, Público, de 25/09/2012

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Terça-feira, 22 de Novembro de 2016

Miguel Esteves Cardoso - “Hugo, não consigo”

“Hugo, não consigo”

As lágrimas venceram: eram grandes e sentidas de mais para o próprio Cristiano Ronaldo acabar com elas.

 

Vale mesmo a pena ver o vídeo no PÚBLICO online. Minutos depois da vitória na final do Euro 2016, Cristiano Ronaldo discursou perante toda a equipa portuguesa: “Este é o momento mais feliz da minha vida. Já chorei três ou quatro vezes. O meu irmão até já me chamou: ‘Pá, já chega, já chega’. Eu disse: ‘Hugo, não consigo’”.

 

A dignidade de Cristiano Ronaldo comove-me sempre. É a maneira mais nobre de calar as pessoas que o tratam como um mero marcador de golos. Mas é a determinação dele que mais admiro. Precisamente nos jogos em que não marca golos é inspirador vê-lo tentar marcar, cada vez com maior teimosia e frustração. O homem não desiste. Às vezes as bolas entram mas a maior parte das vezes não entram. Todos os grandes jogadores de futebol sabem isto. Mas Cristiano Ronaldo é capaz de ser o único que não aceita que as bolas dele não entrem sempre. Às vezes ri-se, quando quase entram, como se percebesse, com a fé dele, que Deus também gosta de brincar com as pessoas - e que tem um terrível sentido de humor.

 

Quando ele diz que não consegue parar de chorar é a mesma determinação que está a mostrar: “Hugo, não consigo”. O irmão provavelmente tem razão – que já chega de choro – mas é escusado estar com fitas. Cristiano Ronaldo consegue muitas coisas (e algumas que mais ninguém consegue) mas sabe perfeitamente quais são as coisas que não consegue. As lágrimas de Cristiano Ronaldo venceram: eram grandes e sentidas de mais para o próprio Cristiano Ronaldo acabar com elas.

 

Miguel Esteves Cardoso 

Retirado do Público

 

 


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Quarta-feira, 2 de Novembro de 2016

Miguel Esteves Cardoso - A vingança certa

 

 

Quando apanharem os assassinos que entraram na redacção do Charlie Hebdo para assassinar aqueles que tinham feito desenhos satíricos sobre Maomé, consola-me saber que não passarão mais de 25 anos na cadeia.

 

Os fanáticos desprezarão o sistema francês que não só não mata os assassinos como lhes restitui a liberdade após vinte e poucos anos. Todos estarão cá fora antes de fazerem 60 anos, não obstante terem tirado as vidas a (pelo menos) doze pessoas.

 

Tal como fizeram os noruegueses com o assassino de massas que foi condenado a 21 anos de prisão preventiva os franceses serão igualmente indiferentes à lei de talião.

 

O "olho por olho, dente por dente" é um castigo estúpido. Não matar assassinos é um castigo inteligente. Os psicopatas assassinos que invocam o Islão para passarem por pessoas religiosas podem achar que a nossa misericórdia é um sinal de fraqueza.

 

Não é. É uma prova de força. Tal como já não se sacrificam animais, não se matam pessoas. Pelo menos na Europa que, por muitos problemas que tenha, está sempre à frente dos países mais antigos (como a China) ou mais novos (como os E.U.A) que continuam a tolerar as penas de morte.

 

Com o desprezo dos assassinos e dos intolerantes podemos nós bem. As pessoas que acham que está certo matar pessoas que matam já são desprezíveis. Mas não é preciso matá-las por causa disso.

 

A vingança certa é ser condescendente com os assassinos. É tirar-lhes a razão. É não termos pena deles. Nunca.

 

Miguel Esteves Cardoso Público 09/01/2015


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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2016

No meio da multidão que chora a morte de João Lobo Antunes - Miguel Esteves Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

No meio da multidão que chora a morte de João Lobo Antunes

Sou só uma pessoa da grande multidão de pessoas cujas vidas foram salvas por João Lobo Antunes. Somos muitos a chorar. Choramos por egoísmo. Choramos de medo. Choramos de raiva. Choramos pela injustiça. Mas também choramos por ele, João. E também choramos pelas pessoas que o amam.

Faço parte da grande multidão de pessoas que o João Lobo Antunes salvou, directa e indirectamente. Tal como quase todas elas, não tive a sorte de ter sido amigo dele. Mal o conheci. Mas vi-o, vi-o sempre de atalaia, rodeado pelos colaboradores, todos eles salvadores de vidas. Um desses neurocirurgiões, Alexandre Raínha Campos, removeu um tumor canceroso do cérebro da Maria João, salvando-lhe a vida e devolvendo-me a pessoa amada.

 

Estava lá o João Lobo Antunes. Logo de manhãzinha e depois da operação, a presença dele acalmava, garantia que tudo o que se pudesse fazer iria ser feito.

O João era um herói. É preciso estofo para se ser herói. O João tinha. Não é preciso paciência nem generosidade nem sabedoria nem cultura nem criatividade para se ser herói. Mas o João era um herói que tinha isso tudo. É preciso coragem para se ser um herói. O João tinha. Não é preciso ter uma visão ambiciosa e exacta de onde se pretende chegar. Mas o João tinha e chegou lá. Construiu o impossível contra a mesquinhez das possibilidades e, uma vez construído, tratou a construção com a maior das naturalidades, como se sempre tivesse sido assim. Partilhou o que sabia com a mesma alegria com que tinha aprendido.

O João era um investigador, um esteta, um dandy e um senhor. Deve ter tido defeitos mas juro, para quem não o conheceu, é como se não tivesse tido. Admito, no caso de João Lobo Antunes, que o homem era um deus.

É assim que todos nós que fazemos parte da multidão de pessoas cujas vidas ele salvou o víamos: como um deus. Dizem que fica mal aos médicos armarem-se em deuses. Pois sim. Digam isso às pessoas que ele salvou e às pessoas – muitas mais ainda - que amam essas pessoas. Os médicos não podem ser deuses mas, no caso de João Lobo Antunes, exigimos que se abra uma excepção.

Era um deus que, ao contrário do verdadeiro, tinha sentido de humor. Sabia que era um herói mas preferia ser tratado como se não fosse. Era impossível elogiá-lo. Aproveito agora que ele está morto mas isso só me enche – só nos enche – de tristeza.

Seria tão bom e justo e útil e feliz e merecido que João Lobo Antunes estivesse vivo e saudável e bem disposto, a piscar aqueles olhos azuis, a viver a vida que sabia viver.

Numa crónica, comovida e comovente, que António Lobo Antunes escreveu para a Visão, dedicada ao Professor Luís Costa com o título O último abraço que me dás a primeira frase é esta: “O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis”.

Foi assim, também, no Serviço de Neurocirurgia do mesmo hospital, dirigida pelo irmão, João Lobo Antunes, quando a Maria João foi lá operada por Alexandre Raínha Campos. Foi o “lugar onde, até hoje” ela e eu “sentimos mais orgulho em sermos pessoas”.

Cito outra passagem da mesma crónica, por ser tão verdadeira para a multidão que não conhecia o Professor Lobo Antunes e que ele salvou ou ajudou a salvar: “A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no mal-estar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida”.

É o mesmo Luís Costa que vem salvando a vida da Maria João. Foi João Lobo Antunes que a levou para ele. É verdade que “não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida”.

Mas há certas pessoas que, tal como os deuses, não deveriam morrer senão quando assim entendessem. São raras. Mas João Lobo Antunes era, certamente, uma delas.

Peço desculpa à família do João e a todos os amigos que tinha o muito tempo e o muito João que vos roubámos, eu e o resto da multidão das pessoas que ele salvou.

As tristezas injustas são as que mais doem e mais custam a passar. A perda de João Lobo Antunes, neste maldito dia de Outubro, só agora começa a fazer-se sentir. Vai levar muito tempo a passar. Sofrer e sentirmo-nos indignos é o mínimo que podemos fazer.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Segunda-feira, 24 de Outubro de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Ser Português, Ainda

Miguel Esteves Cardoso

Ser Português, Ainda

Para ser português, ainda, vive-se entre letras de poemas e esperanças, cantigas e promessas, de passados esquecidos e futuros desejados, sem presente, sem pensamento, sem Portugal. Para ser português, ainda, aprende-se a existir no gume da tristeza, como um equilibrista num andaime de navalhas levantadas, numa obra que se vai construindo sob uma arquitectura de demolição. Tínhamos direito a um Portugal inteiro, com povo e com a terra, mas o povo enlouqueceu e a terra foi arrasada e tudo o que era pátria, doce e atrevida, se afasta à medida que olhamos para ela, tal é a ânsia de apagamento e de perdição. Restam-nos sons e riscos. Portugal encolheu-se. Escondeu-se nos poetas e cantores. Recolheu-se nas vozes fundas de onde nasceu. Portugal abrigou-se em portugueses e portuguesas nos quais uma ideia de Portugal nunca se perdeu.

Para se ser português, ainda, é preciso estreitar os olhos e molhar a garganta com vinho tinto para poder gritar que isto assim não é Portugal, não é país, não é nada. Torna-se cada vez mais difícil que o povo e a terra e a ideia se possam alguma vez reunir.
É preciso defender violentamente as instituições: a Universidade, o Parlamento, a Fundação Gulbenkian, o sistema judicial, a Igreja, as Forças Armadas e tudo o mais que segura Portugal. O povo em grande parte enlouqueceu. Tremo só de pensar no que diria se fosse consultado sobre o Código Penal, o Tratado de Maastricht, a política de imigração ou qualquer outra grande questão nacional. O que mais me assusta é o povo em armas, egoísta, xenófobo e prepotente. E maior é o susto quando há intelectuais que vão atrás dele. Ao pé do povo, os políticos são anjos. Ao pé do público, os artistas são modelos de bom gosto. Ao pé dos estudantes, os professores são todos sábios. Ao pé dos governados, até o Governo é bom.

Não se está a defender as elites. Está-se a defender a autoridade. Alguém que tenha coragem de ter mão em nós. A democracia liberal é obviamente o único sistema político que é aceitável, tem inúmeras qualidades, mas também são inumeráveis os defeitos. É, na verdade, a expressão institucional do ser humano. O pior é que os seres humanos, fora algumas excepções, são fracos, volúveis, egoístas, vaidosos, influenciáveis e maus. A única razão por que a liberdade tem de ser tão plena quanto é praticamente possível, é porque as alternativas, em vez de se limitarem a reflectir a humanidade, vão contra ela.
Se Portugal se perdeu, a culpa é nossa, mais do que quem manda em nós. Nos casos mais flagrantes de destruição, o poder político não tomou a iniciativa — fechou os olhos e, por subserviência ou suborno, tornou-se impotente, foi conivente —, deixou.

Para se ser português, ainda, temos de esquecer as facilidades abstractas, do povo, da governação, e fazer o esforço de localizar e escolher as «pessoas», aquelas que têm uma noção dos outros, das suas limitações e finitude, capazes de pensar e agir comunitariamente. São geralmente pessoas insatisfeitas e prejudicadas, perseguidas e ridicularizadas, admiradas por poucos e desprezadas ou desconhecidas da multidão, que se refugiam nas rochas duras das suas convicções, que não se cansam de exprimi-las, seja pela arte ou pela simples conversa. O povo tolera-os, mas dá-lhes um grande desconto, tornando-os inúteis, chamando-lhes líricos. Do que o povo gosta é de bajuladores. De quem diga que os portugueses são um grande povo e Portugal uma grande pátria e que, fora alguns ajustes, tudo há-de melhorar dentro de momentos. E, quando digo povo, incluo obviamente todos os portugueses.

Para se ser português é preciso, ainda, é preciso escolher, dizer, ouvir e fazer. Alguém há-de perceber. Não é fácil. Mas tem de se fazer um esforço. Tem de se ter consciência de que cada um teve uma parte na destruição, por indiferença ou ignorância, tanto faz.
Para se ser português, ainda, é preciso querer ser português outra vez. No meio de tantos males, só resta concluir e dizer, em voz alta: Ainda bem.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português'
 
Retirado de Citador

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Quinta-feira, 13 de Outubro de 2016

Bob Nobel, nem menos - MIGUEL ESTEVES CARDOSO

Bob Nobel, nem menos

Dylan inventou um mundo cheio de personagens, histórias e encantamentos, denúncias, crenças e fantasmas.

 

Bob Dylan merece o prémio Nobel da literatura. Bob Dylan escreve ensaios, ficção e poesia há mais de meio século. Inventou um mundo cheio de personagens, histórias e encantamentos, denúncias, crenças e fantasmas.

Desde que Christopher Ricks defendeu Dylan como um grande autor da literatura mundial que há outros críticos académicos que se divertem a fazer pouco de Ricks. Mas a verdade é que Ricks foi o primeiro a ter a coragem de reconhecer o génio de Bob Dylan.

Dantes toda a literatura se dividia em categoriazinhas de merda – canções, contos, ensaios, reportagens, ficções, peças teatrais, poesia. O júri do Nobel tem feito o enorme favor de voltar a confundir tudo. No ano passado deu o prémio à jornalista Svetlana Alexievich, uma grande escritora que utiliza as entrevistas como matéria-prima para construir textos empolgantes sobre a condição humana.

Está fora de moda falar na eternidade mas tanto Alexievich como Dylan serão imortais. Escrever é escrever. Um mau poeta será sempre pior do que um bom jornalista. Dylan é inegavelmente um grande escritor. A Academia sueca está a usar o Prémio Nobel para restaurar a literatura. Tomara que regresse à literatura oral. As histórias que não são escritas também podem ser grandes e imortais.

A obra de Dylan – que é caoticamente desigual, havendo coisas terríveis ao lado de obras-primas – é uma gloriosa colecção de todas as tradições literárias da humanidade, desde os trovadores aos cantores de blues, desde os contos de fada às orações.

Finalmente temos um Nobel à altura de Dylan.

 

Miguel Esteves Cardoso no Público


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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Ser Português é Difícil

 

 

Ser Português é Difícil

 

Os Portugueses têm algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso país e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou «culpa de sermos portugueses». Não queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta miséria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses têm o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor país do mundo. Se lhes perguntarmos “Qual é actualmente o melhor e o maior país do mundo?”, não arranjam resposta. Nem dizem que é a União Soviética nem os Estados Unidos nem o Japão nem a França nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem só, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: «Podia ter sido Portugal...» E isto que vai salvando os Portugueses: têm vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas «também não vão ao ponto de quererem ser outra coisa».

Revela-se aqui o que nós temos de mais insuportável e de comovente: só nos custa sermos portugueses por não sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo não é aquele de quem diz “Portugal é o melhor país do mundo” (esse é simplesmente parvo ou parvamente simples), mas, sim, de quem acredita, inocentemente, que Portugal «podia ser» (ou ter sido) o melhor país do mundo e (eis a parte fundamental, que separa os insectos dos cicofantas) «tem pena que não seja», uma pena daquelas que ardem para toda a vida nos peitos profundos das pessoas boas.

Ser português não é nem a sorte com que sonhamos (não queriam mais nada — nascer logo uma coisa boa!) nem o azar com que vamos azedando. Ser português é um «jeito que se aprende». Não é coisa que vá à bruta ou à má fila. Não é bem que vá a bem (precisa de ser ajudado), mas também não é mal que vá à bruxa. Ser português não é tanto ser feito à imagem de Deus, como os outros povos (todos eles felizes), como estar, à partida, «feito». Cada vez que nasce um ser humano e olha para o bilhete de identidade e verifica que calharam os pedregulhos e os pêsames da portugalidade, diz logo “Pronto — estou feito — sou português”. Devia ter juízo. A única coisa que o absolve é ter, também, razão.

Ser português é «difícil». O resto do mundo não compreende que os Portugueses são especiais, diferentes, bastante giros, bem-educados, antigos, espertos, casos sérios. O resto do mundo acredita sinceramente que o mundo seria exactamente o mesmo sem os Portugueses. Para a grande maioria da população da Terra, a própria «existência» de Portugal é uma surpresa. E não se julgue automaticamente que se trata de uma grande surpresa ou, sequer, de uma surpresa «boa». É mais uma surpresa do género “Ah, sim?”. Como quem aprende que o «baseball» teve origem nos «rounders ingleses». Ah, sim? Que giro! Agora sai da frente do televisor que eu quero ver se este Babe Ruth era tão bom como diziam. Para o resto do mundo, os feitos dos Portugueses não pertencem à história fundamental do Universo. Pertencem, quando muito, à secção dos passatempos, do “Não me digas!” e do “Acredite se quiser”. Ser português é um ser delicado. Ser português não é «ser humano». É ser que tem muito para fazer só para ser «vivo».

Os políticos dizem que é preciso andar para a frente, modernizar, desenvolver, «mudar» Portugal, presumivelmente para melhor, porque este (nisto estão todos de acordo) não presta. Os poetas sonham com países que nunca existiram ou existirão, ou que já existiram e jamais existirão outra vez. Ninguém está contente com o que é, ou com onde está, ou com o que tem. Os Portugueses, o povo, a nação, os ditos, os implicados, envolvidos e lixados, esses nem ideia têm ou fazem — para eles a própria noção de Portugal foi um raio de ideia para começar. Mas o que é preciso não é nem tão drástico nem tão espectacular. O que é preciso é «continuar» Portugal.

Continuar Portugal não é uma acção delicada, ou uma campanha urgente, ou uma tarefa que exija o sacrifício de todos os cidadãos. É simplesmente continuar a perguntar, a barafustar, a amaldiçoar o dia em que se nasceu desta cor, nesta pele, com este coração mole e fácil de apertar e espremer. Continuar Portugal é acreditar que a vida seria pior sem ele, pior se a Europa começasse pela Espanha, pior se fôssemos suíços ou belgas ou finlandeses. Continuar Portugal é ser português e dizer “Pronto, que se lixe, o que é que eu hei-de fazer?”. E acreditar na diferença que faz a nossa maneira de ser, e de sermos portugueses, como um cardiologista acredita que o coração foi feito para continuar a bater.
E foi. E, o que é mais engraçado, continua!

Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'

 

Retirado de Citador


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Sexta-feira, 9 de Setembro de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Miguel Esteves Cardoso

 

 

Eis um elogio da realidade humana: não há nenhum livro ou filme que nos faça rir tanto – até magoar o estômago e doer-nos, torcendo-nos os intestinos, as cordas vocais da garganta e os aparelhos de captação de oxigénio dos pulmões – como as brincadeiras que fazemos e dizemos entre nós.

 

O nosso riso dá-nos pontadas; corta-nos a respiração; desmancha-nos as caras. Tapamo-las com uma mão para não rebentar. É um dos prazeres de ser humano.

 

Já para chorar não há nada como os livros e os filmes. Os filmes – que são obras de arte mais fáceis e inferiores do que as obras escritas – fazem-nos chorar mais, quando são bem feitos, do que as obras-primas da literatura.

 

O riso é a coisa mais difícil que há entre estranhos (escritor e leitor; comediante e espectador) e a mais fácil entre familiares. Conclui-se, logo à partida, que o riso público é uma conquista épica. É David, depois de ter ganho a Golias, conseguir fazer rir a família e o público faccioso de Golias.

 

O choro, como o bocejo, é contagiante. O riso, como a batata doce, é uma partilha de cumplicidades. Chorar é público. Rir é particular. E por isso que conseguir que se ria pública e colectivamente é um feito glorioso e irrelevante.

 

Cada novo livro de Ricardo Araújo Pereira é disputado, lido e relido na nossa casa. Como escritor, comediante, actor e pensador, o Ricardo Araújo Pereira é o contrário de um estraga-prazeres: é um espalha-prazeres do melhor que há.

 

Miguel Esteves Cardoso

 

Retirado do Público


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Quinta-feira, 7 de Julho de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Viva o país dos galos!

Miguel Esteves CArdoso

Viva o país dos galos!

Os galeses foram valentes. Deram tudo. Mas não basta

 

Que Portugal só sabia empatar. Tome lá 2 golos em 3 minutos, um para abrir o apetite, outro para encher a barriga.

 

Que Cristiano Ronaldo não estava a marcar golos. Tome lá 1 de cabeça, se fizer favor e outro, para variar, pelo chão, para o Nani.

 

Disseram mal do Fernando Santos. Ele foi explicando como era e como iria ser. E assim foi.

 

Disseram mal da selecção, que estava a jogar mal. Ou que estava a jogar assim-assim mas não marcava golos e que não jogava para ganhar. Ora tome lá dois golinhos bem servidos aos minutos 50 e 53 para ficarem 40 minutos para o sofrimento de que não abdicamos.

 

Os galeses foram valentes. Deram tudo. Mas não basta. Bale à parte, não são excelentes futebolistas. Que me desculpem: é mesmo uma questão de talento.

 

Os galeses mostraram ter um grande espírito de equipa. Parabéns. Estiveram sempre muito unidos. Suponho que tenha sido bonito de se ver, caso fôssemos galeses. Mas, como não somos, não foi. O maior elogio que podemos fazer é dizer-vos que houve momentos em que nos meteram medo. Sobretudo antes do jogo começar.

 

Foi uma vitória da selecção portuguesa e do treinador português contra Portugal e os portugueses. Nós os portugueses pensávamos que Portugal ia ficar mal neste Euro 2016 mas queríamos que ficasse bem. Esperávamos o pior mas exigíamos o que nos parecia impossível. É um raio de uma atitude, diga-se já.

 

Já ouço o que nos amaldiçoam por ter perdido na final contra a França ou a Alemanha. Ó que porra: tenham calma.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Quinta-feira, 12 de Maio de 2016

Miguel Esteves Cardoso - A Vida é uma Eternidade

Miguel Esteves CArdoso

A Vida é uma Eternidade

Sabemos que vamos morrer e que estaremos mortos tanto tempo como não estivemos à espera para nascer. É banal dizer-se que a vida é um intervalo ou uma passagem ou um instante. Não é. A vida é uma excepção generosamente comprida à regra nem triste nem alegre da inexistência.
A vida está para o nada como o planeta Terra está para o sistema solar a que pertence. Sim, pode haver vida noutros planetas. Mas será uma vida que vale a pena viver? Ou que apenas vale a pena estudar?

Sabemos que temos muito tempo de vida: muito mais do que precisamos. O direito à preguiça e à procrastinação está consagrado na nossa vida e faz logo, à partida, parte dela.
Sabemos que somos obrigados a pensar, errada e repetidamente, que o tempo em que estamos vivos é importante. E que as nossas noções de declínio ("dantes é que era bom; os jovens de hoje não sabem o que perdem") são lugares-comuns de todas as gerações antes de nós.

Sabemos que não há ninguém que não envelheça, desde o bebé que nasceu neste segundo até ao velho que, por ter morrido agora mesmo, deixou de envelhecer.
A vida é uma eternidade, por muito que seja bonito fingir o contrário. Chega e sobra para o que queremos fazer. A oportunidade de existir é-nos oferecida. O resto é merda ou ouro.

Sabemos que estamos cá para cá estar. E que não haverá segunda oportunidade. O luxo é saber que podemos enganar-nos. É saber que podemos perder tempo. O tempo é o luxo que a nossa vida não só desrespeita como desmerece.

Miguel Esteves , in 'Jornal Público' (17 Jan 2014), "O que sabemos"
 
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Segunda-feira, 18 de Abril de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Calem-se

Miguel Esteves CArdoso

 

Calem-se

 

Cada vez que alguém, prestes a dirigir-se à população, arranca com "portuguesas e portugueses" dou comigo a gritar um grito fininho que me dá cabo dos ouvidos.

Cerro os punhos e rosno quando são machos com aquela condescendência oiticentista de dizer "portugueses e portuguesas" com a entoação de quem se orgulha em mostrar que se é moderno ao ponto de não se esquecer das mulheres. Diz aquele sorriso meio-engatatão, meio-paternal: "Ah pois! Eu faço questão de incluir o mulherio!"

Vamos lá por partes. Somos todos portugueses. Todos nós, seja de que sexo ou de que sexualidade formos, somos portugueses. Somos o povo português ou a população ou a nação portuguesa.

Como somos todos portugueses quando alguém fala em "portugueses e portuguesas" está a falar duas vezes das mulheres portuguesas. As mulheres estão obviamente incluidas nos portugueses. Mas, ao falar singularmente das portuguesas, está-se propositadamente a excluir os homens, como se as mulheres fossem portugueses de primeiro (ou de segundo, tanto faz) grau.

Somos todos seres humanos. As mulheres não são seres humanas. Quando se fala na língua portuguesa não se está a pensar apenas na língua que falam as portuguesas. É a língua dos portugueses e doutros povos menos idiotas.

"Portuguesas e portugueses" não é apenas um erro e um pleonasmo: é uma estupidez, uma piroseira e uma redundância que fede a um machismo ignorante e desconfortavelmente satisfeitinho.

Somos todos portugueses e basta.

 

Miguel Esteves Cardoso

 

Retirado do Público


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Sexta-feira, 15 de Abril de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Temos de Ser Mais Humanos

Miguel Esteves CArdoso

Temos de Ser Mais Humanos

Abram os olhos. Somos umas bestas. No mau sentido. Somos primitivos. Somos primários. Por nossa causa corre um oceano de sangue todos os dias. Não é auscultando todos os nossos instintos ou encorajando a nossa natureza biológica a manifestar-se que conseguiremos afastar-nos da crueza da nossa condição. É lendo Platão. E construindo pontes suspensas. É tendo insónias. É desenvolvendo paranóias, conceitos filosóficos, poemas, desequilíbrios neuroquímicos insanáveis, frisos de portas, birras de amor, grafismos, sistemas políticos, receitas de bacalhau, pormenores.

É engraçado como cada época se foi considerando «de charneira» ao longo da história. A pretensão de se ser definitivo, a arrogância de ser «o último», a vaidade de se ser futuro é, há milénios, a mesmíssima cantiga.
Temos de ser mais humanos. Reconhecer que somos as bestas que somos e arrependermo-nos disso. Temos de nos reduzir à nossa miserável insensibilidade, à pobreza dos nossos meios de entendimento e explicação, à brutalidade imperdoável dos nossos actos. O nosso pé foge-nos para o chinelo porque ainda não se acostumou a prender-se aos troncos das árvores, quanto mais habituar-se a usar sapato.

A única atitude verdadeiramente civilizada é a fraqueza, a curiosidade, o desespero, a experiência, o amor desinteressado, a ansiedade artística, a sensação de vazio, a fé em Deus, o sentimento de impotência, o sentir-mo-nos pequeninos, a confissão da ignorância, o susto da solidão, a esperança nos outros, o respeito pelo tempo e a bênção que é uma pessoa sentir-se perdida e poder andar às aranhas, à procura daquela ideia, daquela casa, daquela pessoa que já sabe de antemão que nunca há-de encontrar.
O progresso é uma parvoíce. Pelo menos enquanto continuarmos a ser os animais que somos.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português'
 
Retirado de Ciatdor

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Sábado, 2 de Abril de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Viva o velho e venha o novo

Miguel Esteves CArdoso

 

Primeiro perdemos. Depois empatámos. E agora ganhámos. Estávamos no bom caminho e vieram com o raio das regras arcaicas e corruptas da FIFA para impedir a continuação de Portugal no Mundial. Não há direito!

 

Tivemos o mesmo número de pontos do que os Estados Unidos mas, ao contrário dos EUA, que foram piorando com cada jogo, Portugal foi melhorando. Quem é que merecia mais passar aos oitavos-de-final? Parece-me que é injusto premiar quem foi piorando e mandar embora quem tanto melhorou.

 

Lá para o fim do jogo contra o Gana, Portugal tinha finalmente arranjado o balanço para fazer um belo Mundial. No fundo, o que nos lixou foi só um pequeno atraso na sincronização conjuntural, como diziam nos anos 70.

 

Foi só por causa daquela maldita cabazada da Alemanha que fomos imoralmente eliminados. À Alemanha pedia-se apenas que ganhasse por 3-0 aos EUA: coisa que poderia ter feito, se tivess jogado com metade do gás com que jogou contra Portugal.

 

A certa altura, quando o Gana e Portugal estavam empatados e já não havia tempo para Portugal marcar os golos todos de que precisava, eu já estava a torcer pelos valentes ganenses. Se tivessem ganho por 2-1 já os EUA não seriam apurados.

 

Estão de parabéns os jogadores da selecção portuguesa que deram tudo o que tinham, a começar pelo grande Cristiano Ronaldo, que nos levou ao Brasil.

 

Não só poderia ter sido muito pior - veja-se a Inglaterra - como até poderíamos ter sido apurados com um bocadinho mais de sorte. Mas pronto, está bem, ficamos assim, continuamos amigos, a malta depois combina qualquer coisa.

 

Passarei a torcer incondicionalmente pela selecção brasileira e espero que os jogadores e técnicos portugueses gozem um merecido descanso, seguindo o belo exemplo de Carles Puyol, fotografado, felicíssimo, numa praia espanhola a beber uma boa cerveja mexicana pelo gargalo.

 

O Velho Mundo que se lixe (mais a Alemanha também): venha o Novo que foi para isso que o descobrimos. Força, Brasil!

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Quinta-feira, 31 de Março de 2016

Amar alguém - Miguel Esteves Cardoso

Miguel Esteves Cardoso

 

Amar alguém

 

Amar é como o prazer de conseguir estar sozinho - mas melhor. Amar é o prazer de descobrir continuamente que há alguém com quem se quer passar o tempo todo, incluindo o tempo que se quer passar juntos e o tempo que se quer passar sozinho.

 

Amar é um casamento de solidões que, gozando o prazer da juntidão, mesmo assim não prescinde dos prazeres de duas solidões juntas, estejam momentaneamente separadas ou reunidas.

 

Amar alguém é uma coisa egoísta que só nos faz bem. Mas só se a pessoa amada nos contra-ama também. Ser amado alivia muito a loucura de amar e de ser obrigatoriamente infeliz por causa disso.

 

Amar e ser amado é a melhor sorte que se pode ter. Não são milagres que aconteçam por acaso. É preciso trabalhar com leviandade - por muito cheio de amor que o coração esteja - para que esses milagres, facílimos, comecem a habituar-se a acontecer regularmente.

 

Amar alguém é um alívio: é poder deixar de pensar que cada um de nós é marginalmente mais importante do que qualquer outra pessoa que nasceu nesta vida e neste planeta.

 

Amar alguém é um baluarte contra o mundo, um salvo-conduto, uma casa aonde não só se pode regressar como ficar fechado dentro dela, sem precisar de sair.

 

Amar alguém é a única, verdadeira distracção. Os que não amam - muitos porque têm medo de se entregarem - chamam obsessão ao amor sem saber que o amor é o grande apagador de insignificâncias e a única maneira de fazer coincidir a alma e a atenção em duas vidas.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público

 


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Terça-feira, 15 de Março de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Estaremos feitos. Não?

Miguel Esteves Cardoso

 

1-0: começa a merda. 2-0: A merda continua. 3-0: a merda adensa-se. 4-0: acaba a merda.

 

Mas quem é que não estava à espera desta merda? É normal Portugal perder com a Alemanha. É sempre a mesma merda. Qual é a novidade?

 

É por isso que vamos desanimar? Por ter acontecido o que já se esperava? Claro que não. O jogo com a Alemanha era uma merda que tínhamos sempre de despachar. Pronto, está despachada. Ainda bem. Estamos prontos. Não estamos feitos.

 

De resto, que bem se estreou a Península Ibérica neste Mundial. Reflectiu-se a longa experiência que Espanha e Portugal têm na América do Sul. Fomos amplamente recompensados por todos os jogadores que roubámos ao Brasil, à Argentina e a outros países sul-americanos.

 

Foram nove golos que levámos: a Espanha de um país mais pequeno e Portugal de um país bastante maior. Por outro lado, a Espanha marcou um golo e nós nem um marcámos. Em contrapartida, eles levaram 5 e nós só levámos 4. Mas ambos sofremos 4 golos de diferença. 8 no total. Nada mau, hein?

 

Estaremos feitos? Não.

 

Agora cabe-nos apoiar a selecção mais do que sempre. É o nosso apoio que será decisivo. É portuguesíssimo mas perigosíssimo pensar que está tudo perdido, que já não vale a pena. Nunca iríamos ganhar à Alemanha. Se tivéssemos ganho ficaríamos com um excesso mortífero de confiança. Assim levámos o banho de água fria de que precisávamos: quatro baldes foi a medida perfeita.

 

Quanto aos alemães, parabéns e obrigado pela lição.

 

Miguel Esteves Cardoso

 

retirado do Público


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Quinta-feira, 3 de Março de 2016

Miguel Esteves Cardoso - O Amor é um Exagerador

Miguel Esteves Cardoso

O Amor é um Exagerador

As coisas boas, como o amor e a sabedoria, não trazem a felicidade pela simples razão que as coisas boas têm, para ser boas, de ser «boas por si mesmas». Não podem ser boas por aquilo que trazem. Pelo contrário, têm um preço. O mais das vezes, o preço do amor e da sabedoria, ambos artigos finos, artigos de luxo, coisas boas, é a infelicidade. Quando se ama, ou quando se estuda muito, fica-se sujeito às vontades e às verdades mais alheias. Nada depende quase nada de nós. E sofre-se. Irritam as pessoas que esperam que o amor traga a felicidade. É como esperar que os morangos tragam as natas. O amor não é um meio para atingir um fim — não é através do amor que se chega à felicidade. O amor é um exagerador — exagera os êxtases e as agonias, torna tudo o que não lhe diz respeito (o mundo inteiro) numa coisa pequenina. Assim como a arte tem de ser pela arte e a ciência pela ciência (seria um horror ouvir alguém dizer «Eu quero ser pintor ou biólogo para ganhar muito dinheiro e ir a muitas festas e ter duas carrinhas Volvo com galgos do Afeganistão lá dentro»), o amor tem de ser só pelo amor. Custe o que custar. Ora, o amor é uma coisa rara.

Para se ser feliz, é preciso ser-se um pouco cegueta. Entre as coisas que as pessoas miseráveis, normais, estão sempre a chamar às pessoas felizes, há: ingénua, lírica, naif, boazinha. Aquela de que gosto mais é «Vives noutro mundo!». Haverá coisa melhor que viver noutro mundo, para quem conheça minimamente este? Não acreditar que alguém nos queira fazer mal é um sinal seguro de felicidade. Quem é mesmo feliz é a pessoa que pensa «No fundo, até os meus inimigos gostam um bocadinho de mim...». É por isso que as pessoas felizes são sempre bastante convencidas.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'
 
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Sexta-feira, 26 de Fevereiro de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Raios os partam!

Miguel Esteves Cardoso

 

Raios os partam!

 

Quero matar os comentadores da SIC, esses grandes sábios e futebolistas que disseram de todos os jogadores do Benfica que "tinham a obrigação" de jogar assado em vez de assim.

 

Perto do fim da primeira parte - durante a qual o Benfica conseguiu alcançar um benéfico empate a zero golos - os palreiros da SIC juraram mastigadamente que nunca tinham visto um Benfica tão reles.

 

O fim da primeira parte pertenceu ao Benfica mas eles fizeram questão de comentar que quem tivesse chegado naquele momento a casa, com o rádio avariado (isto porque os relatos radiofónicos são sempre superiores aos televisivos), ficaria com uma impressão errada do Benfica estar a jogar bem.

 

Os comentadores vão sempre atrás dos últimos dois minutos de jogo. Se o Benfica joga bem até nem se importam de passar por benfiquistas. Mas odefault é sempre indolentemente palerma: "está a errar muito o Benfica" dizem, quando faltavam 15 minutos para o desejado zero-a-zero.

 

A verdade é que o Benfica foi a Turim para empatar a zero. Essas eram a verdade e a vontade benfiquistas. Assim bastaria ganhar no prolongamento.

 

Nos últimos dez minutos o Benfica mostrou sobreviver, magnificamente, à mesma prosaica presença dos sevilhanos.

 

O zero-a-zero poupou a vida dos comentadores da SIC: que parvos!

 

Não há maior tristeza do que uma alegria negada até ao último momento. Ora mal. Fica: raios os partam, mais o Sevilha! 

 

Miguel Esteves Cardoso

Público  15.05.2014


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Terça-feira, 16 de Fevereiro de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Os Dias Zangados São Dias de Amor

Miguel Esteves Cardoso

 

Os Dias Zangados São Dias de Amor

 

Raios partam os dias zangados. Nada há que se possa fazer para fugir deles. Esperam por nós, como credores ajudados por juros injustificáveis, para nos cortarem a fatia do nosso coração que lhes cabe. 


Não são como os dias tristes, que não conseguem habituar-se a uma realidade qualquer, que se revelou, sem querer, desiludindo-nos de uma ilusão que nós próprios inventámos, para mais facilmente podermos acreditar, falsamente, nela. Mas assemelham-se para mais bem nos poderem magoar. Depois. Quase ao mesmo tempo. Bem. 


Quem não tem um dia zangado, em que ninguém ou nada corresponde ao que esperávamos? A felicidade é a excepção e o engano. Resulta mais de um esquecimento do que de uma lembrança. 


Pouco há de certo neste mundo. São muitos os pobres, mas não são poucos os ricos. As pessoas do sexo masculino não se entendem nem com as pessoas do sexo masculino, nem com as do sexo feminino. As pessoas, sejam de que sexo e sexualidade forem, compreendem-se mal. Dão-se mal, por muito bem que se dêem. As mais apaixonadas umas pelas outras são as que menos bem aceitam as diferenças, as incompreensões, os dias zangados e as noites zangadas que apenas servem para nos relembrar que todos nós nascemos e morremos sozinhos. E que viver é um enorme entretanto, de que devemos tirar partido, sobretudo quando há a sorte de amar e ser amado ou amada. 


Os dias zangados são dias de amor. Ninguém se zanga por desamor. O amor sobrevive e continua, como vingança. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Jornal Público (23 Dez 2011)'


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