Sexta-feira, 23 de Junho de 2017

Incentivo ao incentivo à leitura - Ricardo Araújo Pereira

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Incentivo ao incentivo à leitura

 

Os textos que escrevo aqui na VISÃO são frequentemente incluídos em livros da disciplina de português do ensino secundário. É uma maneira excelente de pôr os alunos em contacto com escrita requintada e raciocínios sofisticados (1). Talvez um dia este mesmo texto venha a figurar num desses livros. Seria curioso: pela primeira vez, um texto incluído numa selecta escolar reflectiria acerca da circunstância de ser um texto incluído numa selecta escolar.


É uma espécie de mise en abyme (2) capaz de aborrecer alunos durante uns bons dez minutos de aula, ou até de lhes azucrinar a paciência num teste.

De vez em quando recebo chamadas telefónicas de jovens, filhos de amigos meus, que se encontram nesse momento a proceder à “análise e interpretação” de qualquer coisa escrita por mim. Costumam estar bastante indignados. Dizem que, se eu quero ser correctamente interpretado, deveria deixar-me de brincadeiras e escrever logo o que pretendo dizer, em vez de me pôr com figuras de estilo. Que começar frases com a palavra “que” excita nos professores a vontade de pedir uma análise sintáctica, e depois quem se lixa são eles. E que estão estafados de estudar estas estúpidas aliterações, por exemplo (3).

Ora, a culpa não é minha. Como calculam, eu nunca imaginei ser um TPC. Lamento profundamente que a vida se tenha desenrolado desta forma. É deplorável que milhares de estudantes tenham de me conhecer assim, entre uma estrofe d’Os Lusíadas e um excerto do Auto da Barca do Inferno – e que os seus professores os obriguem a dar-me a mesma atenção que eles dedicaram a Camões e Gil Vicente. Foi isso que me levou a escrever esta crónica cheia de anotações explicativas, para facilitar o trabalho dos alunos (4). Há um aspecto da minha obra que tanto alunos como professores devem manter presente: na maior parte das vezes eu escrevo estes textos em pijama. Todas as respostas de um teste ou trabalho de casa sobre mim devem incluir essa referência: “Nesta frase – que, muito provavelmente, o autor escreveu em pijama –, encontramos uma epanadiplose. (5)” 
E sempre que um professor perguntar, a propósito de um texto meu, o que pretende realmente o autor, o aluno fica desde já credenciado para responder: 
“O autor pretende que este aluno tenha 5 a português. É a sua única ambição na vida.”(6) A sério.(7)

__________________________________

(1) Atenção: isto é bem capaz de ser ironia.
(2) Eis uma interessante expressão em estrangeiro cujo significado está disponível na Wikipedia.
(3) Prometo parar prontamente com este tipo de proposição.
(4) Cá está mais uma anotação bastante explicativa.
(5) É difícil encontrar uma epanadiplose numa frase minha, porque eu não sei bem o que uma epanadiplose é.
(6) Não há aqui qualquer ironia.
(7) A sério.

 

Ricardo Araújo Pereira

Retirado da Visão


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Terça-feira, 21 de Março de 2017

Ricardo Araújo Pereira - Caro desempregado

 

Caro desempregado,

Em nome de Portugal, gostaria de agradecer o teu contributo para o sucesso económico do nosso país. Portugal tem tido um desempenho exemplar, e o ajustamento está a ser muito bem-sucedido, o que não seria possível sem a tua presença permanente na fila para o centro de emprego. Está a ser feito um enorme esforço para que Portugal recupere a confiança dos mercados e, pelos vistos, os mercados só confiam em Portugal se tu não puderes trabalhar. O teu desemprego, embora possa ser ligeiramente desagradável para ti, é medicinal para a nossa economia. Os investidores não apostam no nosso país se souberem que tu arranjaste emprego. Preferem emprestar dinheiro a pessoas desempregadas.

Antigamente, estávamos todos a viver acima das nossas possibilidades. Agora estamos só a viver, o que aparentemente continua a estar acima das nossas possibilidades. Começamos a perceber que as nossas necessidades estão acima das nossas possibilidades. A tua necessidade de arranjar um emprego está muito acima das tuas possibilidades. É possível que a tua necessidade de comer também esteja. Tens de pagar impostos acima das tuas possibilidades para poderes viver abaixo das tuas necessidades. Viver mal é caríssimo.

Não estás sozinho. O governo prepara-se para propor rescisões amigáveis a milhares de funcionários públicos. Vais ter companhia. Segundo o primeiro-ministro, as rescisões não são despedimentos, são janelas de oportunidade. O melhor é agasalhares-te bem, porque o governo tem aberto tantas janelas de oportunidade que se torna difícil evitar as correntes de ar de oportunidade. Há quem sinta a tentação de se abeirar de uma destas janelas de oportunidade e de se atirar cá para baixo. É mal pensado. Temos uma dívida enorme para pagar, e a melhor maneira de conseguir pagá-la é impedir que um quinto dos trabalhadores possa produzir. Aceita a tua função neste processo e não esperneies.

Tem calma. E não te preocupes. O teu desemprego está dentro das previsões do governo. Que diabo, isso tem de te tranquilizar de algum modo. Felizmente, a tua miséria não apanhou ninguém de surpresa, o que é excelente. A miséria previsível é a preferida de toda a gente. Repara como o governo te preparou para a crise. Se acontecer a Portugal o mesmo que ao Chipre, é deixá-los ir à tua conta bancária confiscar uma parcela dos teus depósitos. Já não tens lá nada para ser confiscado. Podes ficar tranquilo. E não tens nada que agradecer.

 

Ricardo Araújo Pereira

 

Retirado da Visão


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Sexta-feira, 16 de Dezembro de 2016

Conto de natal - Ricardo Araújo Pereira

Ricardo Araújo Pereira

 

"Era noite de Natal. Quase sempre, nos contos de Natal, é noite de Natal. Neste, curiosamente, também. Uma chuva fria teimava em cair, como que a dizer a quem passava na rua: "Então esta pluviosidade, hem? A natureza tem fenómenos giros".

...

A cidade estava já quase deserta, e era impossível que qualquer pessoa, por mais insensível que fosse, olhasse para as ruas vazias, com as iluminações a piscar e as montras enfeitadas, e não pensasse para si: "que rica altura para fazer assaltos!!". Pensando bem, não se compreende como é que os nossos meliantes não aproveitam melhor a noite de 24 de Dezembro para furtar viaturas e domicílios. É uma dica de Natal que deixo aqui.

...

Na rua, havia apenas algumas pessoas que se apressavam, felizes, para chegar a suas casas a tempo da consoada, e outras que pareciam não ter para onde ir, pois tinham todo o aspecto de ser indivíduos desagradáveis, de quem ninguém gosta. Devia haver um sítio em que todas as pessoas que não são convidadas pelas suas famílias para a ceia de Natal pudessem passar a consoada. Um grande pavilhão com mesas corridas, em que as pessoas desagradáveis se pudessem reunir e fazer comentários acintosos umas sobre as outras. Haveria um porteiro que perguntaria a quem chegasse:

- É uma pessoa desagradável?

- Sou, sim.

- Então pode entrar.

- Obrigado. Mas olhe que a temperatura da sala podia estar mais quente e digo-lhe já que as postas de bacalhau me parecem muito fininhas.

...

Indiferente a tudo isto, Carlos dirigia-se para casa com alguns sacos de compras na mão. Foi quando dobrou a esquina que viu um vagabundo sentado num vão de escada. Carlos pensou: "Diacho, um vagabundo a pedir esmola na noite de 24 de Dezembro. Estarei metido num conto de Natal? Não me dava jeito nenhum, porque estou com pressa."

- Uma esmola para um pobre velho - pediu o vagabundo quando Carlos se aproximou. Carlos levou a mão ao bolso e estendeu-lhe uma nota de 20 euros.

- O dinheiro é uma oferta simpática - disse o vagabundo. Mas... e o calor humano, jovem?

- Não vou querer, obrigado. Sabe, eu tenho namorada.

- Não é isso. Podes convidar-me para cear em tua casa?

...

Carlos olhou para o velho e teve pena. Pena de não ir mais vezes ao ginásio porque, se estivesse em melhor forma física, já teria largado a correr dali para fora. Ainda assim, achou que corria mais que o vagabundo e aceitou convidá-lo para cear em sua casa. Assim que dobrasse a esquina, desataria a correr e, se não tropeçasse nos seus sacos, o velho nunca mais o apanharia.

No entanto, assim que Carlos o convidou para a consoada, o vagabundo ergueu-se, retirou a túnica e, flutuando no ar, disse:

- Ops... Tive uma tontura. Deve ter sido de me levantar tão depressa. Alguma quebra de tensão, ou assim.

E depois disse:

- Já estou melhor. Sou o teu Salvador. Aquele a quem tu ajudaste é, na verdade, o Messias.

- Ah, está boa. Bom, então muito prazer. Boa noite.

- Calma, bom homem. Não vás embora. Vou recompensar-te. Pede-me qualquer coisa. Terás tudo o que quiseres. Que desejas?

- Hum... Não estou a ver. Comprei na semana passada uns ténis e agora não há assim nada que eu queira. Adeus, boa noite.

- Espera aí bom homem. Chega de modéstia. O que é que vai ser? Hum? Jóias? Carros de luxo? Um palácio? O novo DVD dos Gato Fedorento? Vamos, pede o que quiseres. Fizeste uma boa acção na noite de Natal e mereces tudo o que pedires ao teu Senhor.

- Ah. Bom. Sabe, é que eu sou ateu. Ou seja, não leve a mal, mas... como é que eu hei-de dizer isto?... a verdade é que não acredito, digamos, em si. Pronto, boa noite.

- Mau, mas o que é isto? Não acreditas em mim? Então apareço-te na noite de Natal, faço o truque de me passar por vagabundo, flutuo no ar... o que é que queres mais, pá?

- Não, isso está bonito. Eu é que nunca gostei muito de magia. São feitios.

...

E foi então que Jesus perdeu a paciência e deu uma carga de pancada bíblica em Carlos. Primeiro, o Messias deu-lhe um chuto nos rins e, depois, assentou-lhe dois bons socos no queixo. A seguir, praguejou umas coisas em hebraico e foi-se embora. Carlos caiu e, por momentos, o fiozinho que lhe escorria da boca, a caminho da sarjeta, tomou a forma de uma estrela que, sobre a calçada, ficou a brilhar.

...

Era noite de Natal!"

 

Ricardo Araújo Pereira

 

Retirado de Mundo da Verdade

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Terça-feira, 20 de Setembro de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Rouba e não faz

 

Rouba e não faz

 

Se José Sócrates for culpado do que o acusam é o maior génio do crime desde o professor Moriarty. Aquilo a que se costuma chamar um mestre da dissimulação. Eu já vi vários advogados de indivíduos que possuem 25 milhões de euros e não se parecem em nada com o patusco causídico que o antigo primeiro-ministro contratou. Estamos perante um nível de patusquicidade mesmo muito elevado. É o advogado ideal para milionários que desejam esconder a fortuna.

 

As outras aplicações do alegado dinheiro alegadamente obtido através de alegada corrupção também são desconcertantes. Gostava de propor um teste aos leitores. Coloquem-se no alegado lugar de José Sócrates e completem a seguinte frase: "Bom, agora que tenho 50 anos, vou aproveitar os vários milhões de euros que obtive ilegalmente para..." Quantos preencheram o espaço vazio com a expressão "... escrever uma aborrecida tese de 200 páginas sobre a prática da tortura no âmbito das sociedades democráticas"? Que repugnante corrupção é esta que desperdiça o dinheiro sujo na academia? Onde estão as jovens bailarinas de clubes nocturnos, o barco, o champanhe, os charutos acendidos com notas de banco? Que diabo, eu ganhei muito menos dinheiro muito mais honradamente e mesmo assim levo uma vida bastante mais dissoluta. Hoje em dia, com o acesso que temos ao que se passa pelo mundo, não há razão nenhuma para não se praticar uma corrupção bonita, moderna, com um investimento consistente em devassidão e álcool. Esbanjar dinheiro ilícito no desenvolvimento pessoal é francamente decepcionante.

 

O próprio alegado esquema é triste, na medida em que envolve um motorista que funciona como multibanco, um amigo que funciona como offshore e uma mãe que funciona como agente imobiliária.

 

Se é para continuarmos a precisar de pedir dinheiro à mãe e aos amigos, mais vale não entrar no mundo do crime. A criminalidade costuma ter a virtude de garantir ao criminoso uma certa independência financeira, que sempre enobrece.

 

Não é o caso, aqui.

 

Tudo isto faz com que, se o ex-primeiro-ministro for culpado, o regime não esteja em perigo, ao contrário do que se tem dito. A confirmar-se a acusação, José Sócrates tem 25 milhões de euros e, no entanto, vive da caridade dos amigos e viaja em económica. Afinal sempre há um português que vive abaixo das suas possibilidades. Um exemplo a seguir, portanto.


Retirado da Visão

 


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Sexta-feira, 9 de Setembro de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Miguel Esteves Cardoso

 

 

Eis um elogio da realidade humana: não há nenhum livro ou filme que nos faça rir tanto – até magoar o estômago e doer-nos, torcendo-nos os intestinos, as cordas vocais da garganta e os aparelhos de captação de oxigénio dos pulmões – como as brincadeiras que fazemos e dizemos entre nós.

 

O nosso riso dá-nos pontadas; corta-nos a respiração; desmancha-nos as caras. Tapamo-las com uma mão para não rebentar. É um dos prazeres de ser humano.

 

Já para chorar não há nada como os livros e os filmes. Os filmes – que são obras de arte mais fáceis e inferiores do que as obras escritas – fazem-nos chorar mais, quando são bem feitos, do que as obras-primas da literatura.

 

O riso é a coisa mais difícil que há entre estranhos (escritor e leitor; comediante e espectador) e a mais fácil entre familiares. Conclui-se, logo à partida, que o riso público é uma conquista épica. É David, depois de ter ganho a Golias, conseguir fazer rir a família e o público faccioso de Golias.

 

O choro, como o bocejo, é contagiante. O riso, como a batata doce, é uma partilha de cumplicidades. Chorar é público. Rir é particular. E por isso que conseguir que se ria pública e colectivamente é um feito glorioso e irrelevante.

 

Cada novo livro de Ricardo Araújo Pereira é disputado, lido e relido na nossa casa. Como escritor, comediante, actor e pensador, o Ricardo Araújo Pereira é o contrário de um estraga-prazeres: é um espalha-prazeres do melhor que há.

 

Miguel Esteves Cardoso

 

Retirado do Público


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Sexta-feira, 2 de Setembro de 2016

A sorte de Carlos do Carmo - Ricardo Araújo pereira

 

A comoção que provocou o facto de Cavaco Silva não ter endereçado votos de parabéns a Carlos do Carmo é injustificada. Que se lixe Carlos do Carmo, esse sortudo. Na mesma semana, o cantor teve duas alegrias: recebeu um prémio internacional pela sua carreira e não recebeu os parabéns do Presidente da República. Isto, para mim, é a definição de prestígio. Desconfiamos que alguma coisa está mal na nossa vida quando Cavaco Silva nos distingue. Recordo que Cavaco distinguiu Dias Loureiro com a sua amizade e Oliveira e Costa com o lugar de secretário de Estado dos Assuntos Fiscais. A recusa de fazer chegar um parabém a Carlos do Carmo acrescenta honra à semana já honrosa do fadista. Foi dos mais belos ultrajes que já vi, uma das mais dignificantes desconsiderações que o Presidente já concedeu.

 

Há um poema de Bertolt Brecht (que também nunca foi felicitado por Cavaco Silva) em que um escritor descobre, horrorizado, que as suas obras não constam da lista de livros que os nazis pretendem queimar em público, e escreve uma carta indignada ao governo a exigir que o queimem também. Suponho que haja, neste momento, várias pessoas condecoradas ou parabenteadas por Cavaco a passar por uma indignação semelhante. Porque é que Carlos do Carmo e José Saramago merecem o menosprezo do Presidente e elas não? Que mal fizeram elas ao País para terem caído nas boas graças de Cavaco?

 

O que nos leva a uma reflexão mais profunda sobre o mérito de Carlos do Carmo. Sim, é um excelente cantor e um nome cimeiro do fado. Mas fez assim tanto para ser abominado por Cavaco? Cristiano Ronaldo e o ciclista Rui Costa também parecem ser pessoas decentes, e no entanto foram felicitados pelo Presidente, quando ganharam, respectivamente, uma Bola de Ouro e uma Volta à Suíça. Há filhos e enteados, nisto dos desdéns que enobrecem?

 

Talvez Cavaco não tenha agraciado Carlos do Carmo com o seu desprezo propositadamente. Há outros factores que podem ter levado o Presidente a distinguir o fadista com esta ausência de congratulações. Uma chamada local custa 0,0861€ no primeiro minuto e 0,0391€ por minuto nos minutos seguintes, já com o IVA incluído. A factura de um telefonema de felicitações a Carlos do Carmo poderia ascender a cerca de um euro, porque todos sabemos como são estes fadistas quando a gente os saúda pelo telefone: nunca mais se calam. É isto, e aquilo, e os tempos da Severa, e quando damos por ela estamos ao telefone há mais de cinco minutos. Um telegrama tem a vantagem de não fazer falar o fadista, mas custa à volta de três euros. Ora, Cavaco já disse que o dinheiro não lhe chega para as despesas, e no fim do ano passado já felicitou o tenista João Sousa pela vitória no torneio de Kuala Lumpur: "Não posso deixar de dirigir uma felicitação muito, muito sincera e com um grande sublinhado porque projecta o nome de Portugal para o 'top' daqueles que se destacam na prática do ténis". Deve ter sido uma felicitação dispendiosa, porque era muito, muito sincera e incluía um grande sublinhado. Até 2015, não deve ter orçamento para mais parabéns. 


Ricardo Arújo Pereira

 

Retirado da Visão


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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Crianças ultracongeladas

 

Empresas como o Facebook estão a oferecer-se para pagar a congelação de óvulos às funcionárias, para que elas possam dedicar-se à carreira, adiando a maternidade. O Facebook tem 1,32 mil milhões de utilizadores, e muitos deles querem fazer like em frases inspiradoras ilustradas por fotos do pôr-do-sol, projecto que não conseguirão levar a cabo se as funcionárias da empresa desatarem a ter uma vida normal. Assim, quando elas quiserem ter filhos, já depois de terem desenvolvido algoritmos suficientes - ou lá o que se faz no Facebook - terão o óvulo fresquinho à sua espera. No entanto, uma vez que, do ponto de vista das empresas, nenhuma altura é oportuna para ter filhos, talvez o melhor seja guardar os óvulos no congelador até à reforma. Aos 65 anos, a funcionária poderá, então, incubar o filho sem prejuízo para o seu empregador, e com óbvias vantagens para si: tem tempo para dedicar à criança, sabedoria acumulada para lhe transmitir, e talvez não viva o suficiente para a ver chegar à adolescência, que é uma idade tão parva.

 

Há outra hipótese. Gostaria de sugeri-la. As funcionárias engravidam quando lhes apetecer (peço a vossa tolerância para uma ideia tão lunática). Mas, para que a empresa não fique prejudicada pela sua ausência, entregam o óvulo fecundado a uma barriga de aluguer. Esta ideia não é original. O Facebook também se oferece para financiar barrigas de aluguer. Onde eu inovo é neste ponto: proponho que essa barriga seja a do próprio Mark Zuckerberg. Desse modo, a funcionária não abdica da carreira e ainda pode acompanhar o crescimento do seu bebé todos os dias. Basta-lhe bater à porta do gabinete do presidente da empresa. Em 2009, uma americana deu à luz oito gémeos. Creio que Zuckerberg também tem condições para fazer germinar oito crianças no seu bandulho, e assim produzir até 32 crianças a cada 3 anos. Assim, mostraria que a sua empresa está realmente empenhada em impedir que a maternidade prejudique a carreira das suas funcionárias. Seria também uma mudança refrescante no mundo do trabalho: há, por essas empresas, tantos patrões que engravidam as funcionárias, que acaba por ser apenas justo que, ao menos uma vez, haja funcionárias que engravidam o patrão.


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Sexta-feira, 19 de Agosto de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Sobre cães e gatos

 

O lado A tem aquela canção chamada Portugal Ressuscitado. Toca o refrão e eu choro, é certinho. "Agora o povo unido nunca mais será vencido." A crença em ideias tão obviamente falsas sempre me emocionou muito. No lado B está a Canção Combate, sobre a coragem do povo português. A própria canção é poeticamente corajosa, uma vez que rima "A PIDE agora já não nos persegue" com "E já cá canta o Manuel Alegre". Antes da música, Ary dos Santos declama um soneto dedicado a todos os antifascistas mortos pela PIDE. Primeiro, os agentes da polícia política aparecem designados como feras, mas depois o poeta corrige: "Feras é demais. Apenas hienas. Tão pútridas, tão fétidas, tão cães." Alto. Tão cães? Cão é adjectivo? E dos que ofendem? Os cães são um bocadinho porcos e razoavelmente burros (eu sei, porque tenho quatro), mas ainda assim não merecem ser comparados a agentes da PIDE. De onde vem a má reputação dos cães? Nos livros, aparecem quase só para morrer. A Baleia do Graciliano Ramos leva um tiro. O Argos de Ulisses espera pelo dono durante 20 anos e morre assim que satisfaz o desejo de o ver. Os gatos, por outro lado, têm um prestígio literário impecável. Mário-Henrique Leiria dedica um livro "ao gato Benevides" que, diz ele, lhe deu "tremendas lições de dignidade". Nem o Cheshire Cat da Alice nem o gatarrão amigo do diabo em Margarita e o Mestre levam um tiro. Anda por aí um famoso espectáculo musical sobre gatos. Os gatos são protagonistas sofisticados, os cães são palermas sem classe.

 

Quando, há pouco tempo, passei a ter um gato, comecei a perceber a razão do fascínio. De facto, é um bicho que nos despreza de uma forma muito elegante.

 

Está evidentemente convencido da sua superioridade em relação a nós e é capaz de ter razão. Mas continuo firme no meu entusiasmo em relação aos cães.

 

Os gatos sabem qualquer coisa; os cães são tão estúpidos como eu o que lhes dá um encanto muito especial. Os gatos parecem ter uma informação importante acerca do que é isto de estar vivo; os cães não fazem ideia do que andam aqui a fazer.

 

Acham quase tudo espantoso e não têm vergonha desse maravilhamento constante, apesar de ser tão parecido com estupidez.

 

Os cães são crianças, os gatos são filhos adolescentes: também nos amam, embora com alguma relutância, acham mesmo que são independentes, e às vezes estão escondidos num armário. É a adolescência sem tirar nem pôr.


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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2016

Ricardo Araújo Pereira - No tempo em que os animais sorriam

 

No tempo em que os animais sorriam

 

Há apenas uma diferença entre as fábulas clássicas e as do Presidente da República: as clássicas costumam acabar com uma moral; as de Cavaco, por se debruçarem sobre a nossa economia, terminam quase sempre com uma imoral

 

Quando, cerca de duas semanas antes de as acções do BES passarem a valer zero, o Presidente da República disse que os portugueses podiam confiar no BES, toda a gente ficou mais ou menos convencida de que Cavaco Silva não ganharia o Nobel da Economia deste ano. Confirmou-se: o prémio foi atribuído a um francês que tem optado por fazer declarações relativamente sensatas. Enfim, são estratégias. Neste momento, creio que Cavaco já percebeu que a economia não o merece. E parece-me que começou a preparar a candidatura ao Nobel da Literatura. Está com uma capacidade de efabulação prodigiosa e com um estilo muito fresco. Há, em Cavaco Silva, uma disposição para o maravilhamento, um impulso para observar o mundo, para aquela operação poética a que Alberto Caeiro chamava "ver como um danado". O que é curioso na mundivisão de Cavaco Silva é que somos nós que ficamos danados com aquilo que ele vê.

 

Esta semana, o Presidente quis esclarecer "uma coisa completamente errada": "Os contribuintes não vão suportar os custos do BES." É uma declaração do domínio da fábula, que é o mundo no qual Cavaco costuma viver. Para o Presidente que vê vacas a sorrir e segreda palavras meigas ao ouvido de cagarras, o tempo em que os animais falavam é hoje. Ora, vigorando na nossa economia a lei da selva, que perspectiva pode ser mais acertada que a de La Fontaine? Que modo de observar a realidade pode produzir melhores efeitos que o da narrativa alegórica repleta de imaginação, fantasia e animais com características humanas? Se Cavaco diz que não vamos pagar os custos do BES, eu acredito assim como acreditei em Esopo.

 

A história da cigarra e da formiga mostra-nos que é importante precaver o futuro. A história da tartaruga e da lebre avisa-nos para os perigos da sobranceria. E a história de Cavaco ensina-nos que os contribuintes não vão pagar o BES.

 

Há apenas uma diferença entre as fábulas clássicas e as do Presidente da República: as clássicas costumam acabar com uma moral; as de Cavaco, por se debruçarem sobre a nossa economia, terminam quase sempre com uma imoral. Também ensinam uma lição, mas é uma lição um pouco mais dolorosa.

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Quinta-feira, 21 de Julho de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Quando o ministério não tem juízo, o corpo docente é que paga

Ricardo Araújo Pereira

 

Quando o ministério não tem juízo, o corpo docente é que paga

 

O professor A é do Algarve e vai dar aulas para Trás-os-Montes. O professor B é de Lisboa e vai dar aulas para Braga. Após consultarem a internet, descobrem no mesmo dia que foram colocados por engano. Sabendo que ambos tomam o comboio das 8h20, qual chega primeiro ao centro de emprego?

 

Eu tinha 14 anos e considerava que se estava a perder demasiado tempo com a influência da continentalidade nas amplitudes térmicas. Portanto, fiz o que tinha a fazer.
 

Fui à horta que havia por trás dos campos de futebol e apanhei um gafanhoto. Antes de o professor de geografia chegar, coloquei o gafanhoto debaixo da sua secretária.

 

Não resultou. Assim que o professor se sentou, o gafanhoto saltou para a janela e saiu da sala. O professor nem chegou a vê-lo. E passou mais 50 minutos a falar impunemente sobre o facto de as zonas costeiras serem mais amenas que as áreas do interior.

 

Aos 14 anos ninguém sabe imaginar estratagemas que transtornem verdadeiramente a vida dos professores.

 

Aos 62, Nuno Crato, o ministro da Educação, tem a maturidade que me faltava para inventar as melhores partidas.

 

Primeiro, colocou professores de Coimbra, por exemplo, em Faro. Esperou que alugassem casa, que instalassem a família, que adaptassem a vida à nova realidade.

 

Depois, anunciou que tinha havido um engano e que a colocação havia sido anulada. Isto é que é uma partida. Não sei se o ministro aceita sugestões, mas talvez fosse engraçado que, quando o professor se dirigisse ao ministério para se informar sobre as suas alternativas, lhe entregassem um envelope com um gafanhoto lá dentro.

 

Como sempre, os professores não têm sentido de humor suficiente para entrar na brincadeira. Levam a mal, protestam, queixam-se. Resistem a ver esta balbúrdia como uma oportunidade. Eu, sendo professor, aproveitava o estilo de vida que o ministério proporciona e adquiria imediatamente 20 ovelhas. O nomadismo é ideal para a pastorícia, e as constantes mudanças na colocação contribuiriam para que eu ficasse com um rebanho forte e lucrativo. Quanto menos aulas desse, mais tempo teria para vender lã, queijo e borregos.

 

Há quem oferença o corpo à ciência. Neste momento, os professores podem oferecer o corpo à educação, na medida em que as suas vidas parecem um daqueles problemas matemáticos: "o professor A é do Algarve e vai dar aulas para Trás-os-Montes. O professor B é de Lisboa e vai dar aulas para Braga. Após consultarem a internet, descobrem no mesmo dia que foram colocados por engano. Sabendo que ambos tomam o comboio das 8h20, qual chega primeiro ao centro de emprego?".

 

Nem todos temos a honra de poder dar um contributo tão grande para o bem da Humanidade. Os professores têm e ainda reclamam.

 

Retirado da Visão


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Terça-feira, 5 de Julho de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Querido Portugal

Ricardo Araújo Pereira

 

Querido Portugal

 

Temos de falar. Como sabes, o meu amor por ti tem resistido a tudo. Tu és pobre, sujo em vários sítios e estúpido muitas vezes. Mas há em ti uma certa ingenuidade que faz com que até os teus defeitos - e são tantos - me seduzam. Na maior parte das vezes não és mau, és só malandro. E tens três qualidades que compensam tudo o resto: a comida, a língua e o clima. Era precisamente sobre isto que te queria falar. Andas a desleixar-te. A comida já foi melhor. Bem sei que a culpa não é só tua. A União Europeia proíbe umas coisas, os nutricionistas desaconselham outras. Mas já não se encontram jaquinzinhos, os restaurantes receiam fazer cabidela e a medicina parece ter arranjado um método infalível para determinar o que é prejudicial à saúde: se sabe bem, faz mal.

 

A língua também já não é o que era. Não me entendas mal: continua a ser a tua maior virtude. Não sei como é possível uma pessoa exprimir-se numa dessas línguas bárbaras que não distinguem o ser do estar. Embora os franceses e os ingleses, aparentemente, não o saibam, ser bêbado é muito diferente de estar bêbado. Mas, quando eu era pequeno, setores era o nome que se dava aos professores. Hoje, setores é a versão actualizada da palavra sectores. Na escola, os setores explicam o que os setores são. No meu tempo, o sector primário era a área de actividade que compreendia a agricultura e outras formas de produção de matérias-primas, e um setor primário era um professor do ensino básico. Agora, é tudo a mesma coisa, assim como "être" e "to be" significam tanto ser como estar.

 

Outra coisa: isto do clima não pode continuar. Este verão foi muito fraco. Houve pouco sol e a água estava fria. Não se admite. A gente tolera a corrupção, a injustiça, a inveja, o subdesenvolvimento e tudo o mais que tu conseguires gerar. Mas tem de estar sol. Se é para não haver verão, nem subtilezas linguísticas, nem papas de sarrabulho, mais vale irmos para a Finlândia, onde as coisas funcionam. ?E a moral sexual das moças nórdicas é muito mais relaxada. Tens de escolher: ou há regular funcionamento das instituições, ou há céu pouco nublado ou limpo. Vê lá isso, por favor.

Um grande beijo,

Ricardo

Retirado da Visão


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Sábado, 25 de Junho de 2016

Ricardo Araújo Pereira - A obra perdida de Samuel Beckett

Ricardo Araújo Pereira

 

(Sobe o pano. Dois vagabundos estão enterrados num monte de areia. Só lhes vemos as cabeças, de modo a que pareçam ter o mesmo corpo, sob a areia. O facto de ambos se chamarem António reforça essa ideia.)

 

- Boa noite.

 

- Isso fica-te mal, António.

 

- Foi só uma saudação.

 

- É a saudação típica dos doutores de Lisboa. No país real, as pessoas cumprimentam-se de outra forma. Devias ter dito: "Está bom, ti Manel?"

 

- Tu chamas-te António.

 

- Não interessa.

 

- Bom, vamos ao essencial: eu sou mais fotogénico do que tu, António. ?E tenho a voz mais grossa.

 

- Isso fica-te mal, António. O que tu estás a fazer ao PS não se faz. O meu vídeo demonstra isso muito bem.

 

- Aquele vídeo é da tua campanha? Pensei que fosse da minha.

 

- Não, vê-se bem que é da minha. Estou lá eu, a colocar terra num balde, simbolizando o terreno que preparei...

 

- Pensei que isso simbolizava o tempo que passaste a enterrar o PS.

 

- Isso fica-te mal, António. Depois começo a regar...

 

- Aquilo é regar? Eu achei que simbolizava o balde de água fria que foram os resultados das europeias.

 

- ... e depois tu apareces e colhes o cravo que eu fiz crescer.

 

- Bom, mas nesse caso o vídeo é muito ofensivo para mim.

 

- Não te admito, António. A rábula do ofendido é minha. Escolhe outra estratégia. Porque é que o vídeo te ofende?

 

- Porque eu apareço a colher o cravo. Tu sabes que eu sou de origem goesa. É uma referência muito rasteira ao facto de os indianos andarem sempre com flores.

 

- Que disparate. Estou ofendido com o facto de te sentires ofendido, António.

 

- Estas ofensas pessoais são consequência da tua falta de ideias. Só tens seis propostas e meia.

 

- Sempre são seis propostas e meia a mais do que tu tens.

 

- É falso. Sei exactamente o que é necessário fazer. O País precisa de fisioterapia. E eu preciso de metáforas melhores.

 

- O que tu estás a fazer é uma grande deslealdade, António. Eu ando a esgravatar desde o tempo da JS. Ali, caladinho, a trabalhar o partido para finalmente tomar o poder. E agora apareces tu, de repente, para receber os louros.

 

- Por falar em aparecer de repente: como é que tu conseguiste ser o primeiro a aparecer na entrada do Altis quando o Sócrates perdeu as eleições? Foste pelo elevador de serviço?

 

- Não compares. A tua deslealdade é maior que a minha, António. Eu passei os últimos três anos a percorrer o País, em almoços com militantes. Eu já não posso ver carne assada, António. E agora tu, que nem tens posição acerca do défice e da dívida, queres apropriar-te do meu trabalho.

 

- Eu tenho coisas maravilhosas para dizer sobre o défice e a dívida, mas este não é o momento indicado. Há demasiadas variáveis. Temos de esperar até as variáveis pararem de variar. Enquanto o mundo não parar quieto, não vale a pena falar sobre o défice e a dívida.

 

- Isso fica-te mal, António.

 

- Eu nem percebo porque é que tu fazes tanto finca-pé em disputares as legislativas se já prometeste que te vais demitir quando fores primeiro-ministro.

 

- Só me demito se tiver de aumentar os impostos.

 

- Nos últimos 40 anos, conheces algum primeiro-ministro que não tenha aumentado os impostos?

 

- Isso é verdade. Mas fica-te mal, António.

 

- O que é que achas do vestido de lantejoulas que eu estou a usar hoje?

 

- Fica-te mal, António.

 

(Cai o pano)



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Sexta-feira, 17 de Junho de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Clube dos socialistas mortos

Ricardo Araújo Pereira

 

Exmo. Sr. Presidente da Federação do PS de Braga,

 

Na qualidade de socialista falecido em 2005, venho felicitar a sua federação por possibilitar a participação de mortos no processo eleitoral. Durante demasiado tempo, só pessoas vivas eram chamadas a votar, pelo que se saúda o alargamento do espectro eleitoral a espectros eleitores. A iniciativa de V. Exa. produz efeitos ideológicos que, tenho a certeza, hão-de marcar a história do socialismo. A velha divisa cubana "Socialismo ou morte" terá de merecer actualização, na medida em que a federação socialista de Braga demonstra que socialismo e morte não são conceitos que se excluam. Talvez em Cuba os cidadãos sejam obrigados a escolher "socialismo ou morte", mas em Braga podemos ter "socialismo e morte", tudo ao mesmo tempo. É, literalmente, o melhor de dois mundos: este e o outro.

 

Note que não falo em nome dos mortos-vivos, mas sim dos muito mais prosaicos mortos. Os mortos-vivos, pese embora a fama de que vêm gozando, não merecem direito de voto. As criaturas lendárias já estão muito bem representadas na vida política pelos vampiros. Acrescentar os mortos-vivos seria redundante. Os mortos, em contrapartida, nunca obtiveram representação política. O falecimento, ocorrência tantas vezes alheia à vontade do cidadão, retira-lhe o direito de voto, sem que seja apresentada uma justificação válida. A ausência de actividade cerebral não serve de desculpa, uma vez que também se verifica, quer em outros eleitores, quer em boa parte dos eleitos.

 

Como é evidente, coloca-se a questão de saber de que modo pode o morto participar no processo eleitoral, dadas as suas limitações. Neste ponto, permita-me que lhe apresente o meu sobrinho Nelson, que é bruxo em Esposende. É a ele que estou a ditar estas palavras. Por uma verba simbólica, o Nelson está disponível para colaborar com a concelhia do PS, transmitindo aos seus dirigentes a posição política de um vasto leque de defuntos. Todos os dias, o Nelson recebe a visita de inúmeras almas de antigos socialistas, ansiosos por participar na vida partidária. O morto, hoje em dia, já não se satisfaz com as tradicionais aparições fantasmagóricas em casa dos familiares para bater com portas e abrir torneiras. O defunto moderno quer continuar a ter uma palavra a dizer na vida cívica. O meu sobrinho Nelson pode ajudar a concelhia a registar as opiniões de antigos socialistas, por apenas dois euros por alma. No entanto, o Nelson está preparado para lhe oferecer um preço especial por atacado, a saber: 15 euros por cada palete de 10 defuntos.

 

Creia que somos muitos, neste lado, a querer participar. E está aqui um senhor chamado Engels que quer dar uma palavrinha a V. Exa. acerca do que é, na verdade, um partido socialista.

Com os melhores cumprimentos,

 

Fernando Manuel T. Guedes

Defunto



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Segunda-feira, 14 de Março de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Caros cidadãos de Portugal

Ricardo Araújo Pereira

 

Caros cidadãos de Portugal,

 

Portugal é, sinceramente, a minha parte favorita de Angola, e tive o privilégio de poder confidenciar isto mesmo a Nelson Mandela, quando ele ainda jogava no Benfica

 

Estive há dias no vosso país (acho eu) e parece que cometi um erro. Disse que Cristóvão Colombo era vosso compatriota quando, ao que parece, ele nasceu em Génova. O que significa que era grego, ou assim. Enfim, os povos do sul da Europa acabam por ser todos muito parecidos. Também tenho dificuldade em distinguir africanos e chineses. Sendo oriundo de uma potência como o Luxemburgo, estive muito ocupado a estudar a longa história do meu país, e a conhecer a sua vasta geografia. Por isso, faltou-me disponibilidade para me dedicar à história de países mais pequenos, como o vosso. Além disso, no Luxemburgo temos pouquíssimo contacto com portugueses, pelo que a minha ignorância está desculpada, creio eu.

 

            Vamos ao essencial. O meu objectivo era comparar o socialismo com um período negro da história mundial. Por isso, escolhi inteligentemente uma época que os portugueses abominam: os Descobrimentos. Cristóvão Colombo era, na verdade, um socialista: ia sem saber para onde à custa dos contribuintes - e com que resultados? Nenhuns. Não admira que tenha sido esquecido pela história e que, hoje, alguns altos dignitários europeus nem saibam exactamente quem ele foi e onde nasceu. Diz-se que Cristóvão Colombo descobriu a América. Pois bem, eu já estive na América, e é enorme. Imaginem as vossas cidades de Málaga e Bordéus juntas. A América é ainda maior. Não é nada difícil de descobrir. Vê-se do espaço. Perguntem ao vosso compatriota Neil Armstrong. Ele foi a Júpiter, e sabe do que fala.

 

            Portugal é, sinceramente, a minha parte favorita de Angola, e tive o privilégio de poder confidenciar isto mesmo a Nelson Mandela, quando ele ainda jogava no Benfica. Nessa medida, e como diz Passos Coelho, o vosso país tem em mim um amigo. Creio que o desconhecimento mútuo é o melhor aliado da amizade. Quanto mais se conhece o outro, mais características desagradáveis lhe descobrimos. E eu já demonstrei que não faço a mínima ideia de quem vocês são e do que fizeram. Terei todo o prazer em defender, na Comissão Europeia, os vossos interesses, mal descubra quais são.

 

Como dizia o vosso Cervantes: "Ser ou não ser, eis a questão." Portugal tem de optar entre ser socialista, como Cristóvão Colombo, ou ser sábio e ajuizado, como eu. Avaliem a dimensão de ambas as figuras na história da Europa e do Mundo e decidam em conformidade. Gracias e hasta luego, como se diz aí.

 

            Cordialmente,

            Jean-Claude Juncker



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Terça-feira, 8 de Dezembro de 2015

Ricardo Araújo Pereira - Corrupção não entra aqui

Ricardo Araújo Pereira

 

O corrupto português é o inverso do Pai Natal: uma entidade imaginária que, em lugar de oferecer presentes, recebe-os. Segundo a lenda, em vez de um saco vermelho, dizem que transporta um saco azul. Há quem acredite que existe, mas ninguém tem provas. É uma questão de fé pueril

Era uma vez uma empresa alemã que vendeu dois submarinos a Portugal. Uso esta formulação porque, tendo em conta que os factos ocorreram há sete anos, tudo parece pertencer já ao domínio da fábula. Na Alemanha, houve um julgamento no qual certos intervenientes no processo foram condenados pelo crime de corrupção. Em Portugal, houve um julgamento no qual certos intervenientes no processo foram ilibados do crime de corrupção. Mais uma vez, a superioridade alemã ficou clara: os alemães conseguem ser corruptos mesmo quando não há ninguém para corromper. É a celebrada eficácia germânica. Neste aspecto, Portugal ficou atrás da própria Grécia, que também comprou submarinos alemães. Um ex-ministro grego envolvido no processo está preso desde o ano passado. Quando os corrompem, os gregos colaboram deixando-se corromper. Só em Portugal as pessoas não têm a decência de participar na dança da corrupção quando são convidadas para isso.

 

Na verdade, não é uma questão de má vontade, mas de feitio. Os mesmos administradores da empresa que corrompeu o ministro grego confessaram, no tribunal alemão, ter corrompido responsáveis políticos portugueses. Ingenuamente, terão pensado que bastava corromper um português para que se pudesse falar em corrupção. Desconhecem a fibra de que são feitos os lusitanos, cujo material genético é à prova de falcatruas. A História demonstra que não há um único corrupto em Portugal. A corrupção, no nosso país, é como o Pai Natal: só os ingénuos acreditam na sua existência. Para ser mais rigoroso, o corrupto português é o inverso do Pai Natal: uma entidade imaginária que, em lugar de oferecer presentes, recebe-os. Segundo a lenda, em vez de um saco vermelho, dizem que transporta um saco azul. Há quem acredite que existe, mas ninguém tem provas. É uma questão de fé pueril.

 

Os tribunais continuarão a perder tempo e dinheiro a julgar portugueses suspeitos de corrupção perante a passividade de todos. Ninguém toleraria que a polícia gastasse recursos a perseguir e a prender todos os velhos gordos de barba branca em busca do Pai Natal. E, no entanto, todos se calam perante o escândalo que ocorre nos tribunais, que teimam em tentar encontrar um português corrupto quando é mais do que evidente que não existe nenhum.

 

Ricardo Araújo Pereira


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Sábado, 28 de Novembro de 2015

Ricardo Araújo Pereira - Assassinos sanguinários que se melindram facilmente

 

 

Quando o ayatollah Khomeini ordenou que Salman Rushdie fosse assassinado por ter escrito um livro, a ordem foi recebida com alguma compreensão. O escritor John Le Carré disse: "Não creio que possamos ser impertinentes em relação às grandes religiões impunemente." O arcebispo da Cantuária acrescentou: "Compreendo bem a reacção dos devotos muçulmanos, feridos naquilo que consideram mais sagrado, e pelo qual estariam dispostos a morrer." Quando Theo van Gogh foi assassinado por ter realizado um filme, aconteceu mais ou menos o mesmo. Um jornalista inglês, por exemplo, escreveu que o realizador tinha "abusado do seu direito à liberdade de expressão". Quando a violência deflagrou em vários sítios do mundo e cerca de 200 pessoas perderam a vida porque um jornal dinamarquês publicou uns desenhos, houve mais reacções parecidas. O Vaticano emitiu um comunicado que dizia: "O direito à liberdade de expressão (...) não pode implicar o direito a ofender o sentimento religioso dos crentes." O governo inglês considerou que a publicação dos desenhos foi "desnecessária", "insensível", "desrespeitadora" e "errada". O ministro português Freitas do Amaral afirmou que os desenhos ofendiam "as crenças ou sensibilidade religiosa dos povos muçulmanos" e acrescentou que a liberdade de expressão devia respeitar a liberdade de religião, concluindo: "liberdade sem limites não é liberdade, é licenciosidade". Quando vários cartunistas do Charlie Hebdo foram abatidos a tiro por terem desenhado uns bonecos, a culpa das vítimas voltou a ser referida. O Papa Francisco disse: "Não se pode provocar. Não se pode insultar a fé dos outros. Não se pode fazer troça da fé dos outros." Tony Barber, do Financial Times, escreveu: "seria útil que houvesse algum bom senso em publicações como o Charlie Hebdo (...) que reclamam estar a infligir um golpe pela liberdade quando provocam muçulmanos, mas estão apenas a ser estúpidos."

 

Esta semana, depois de mais de uma centena de pessoas ter sido assassinada por estar a ouvir música, a jantar num restaurante ou a ver um jogo de futebol, ainda ninguém veio chamar a atenção para o modo como o comportamento das vítimas ofendeu os fundamentalistas islâmicos. Permitam-me que seja o primeiro. A mesma sensibilidade com que algumas pessoas foram, ao longo do tempo, condenando certas provocações inaceitáveis aos assassinos, sempre tão susceptíveis, devia agora servir-lhes para detectar e repreender mais esta ofensa. Aquilo que as vítimas da passada sexta-feira estavam a fazer era tão afrontoso para os assassinos como escrever um livro, realizar um filme ou fazer um desenho: estavam a viver em liberdade. O comunicado no qual o estado islâmico reivindicou o atentado dizia que Paris tinha sido escolhida por ser "a capital do vício", que o Bataclan era um alvo por ser o sítio onde estavam reunidos "centenas de pagãos", que os terroristas tinham aberto fogo sobre "um ajuntamento de incréus" e que os ataques continuarão "enquanto continuarem a ofender o nosso profeta".

 

Felizmente, eu vivo num mundo em que temos a liberdade de nos ofendermos uns aos outros. Essa liberdade é fundamental, uma vez que as pessoas se ofendem com muitas coisas diferentes. Os bárbaros, por exemplo, ofendem-se primeiro com um livro, depois com um filme, depois com um desenho. E depois acabam por ofender-se com o facto de respirarmos. Talvez John Le Carré, Freitas do Amaral e o Papa considerem que devemos passar a respirar com mais respeito. Eu acho que isso é tão absurdo como escrever, filmar ou desenhar com o cuidado de não ferir a sensibilidade de assassinos.

 

Ricardo Araújo Pereira na Visão


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Segunda-feira, 16 de Novembro de 2015

Ricardo Araújo Pereira - Tenha a bondade de me amesquinhar, por favor

Ricardo Araújo Pereira

Quero poder ir a um talho e ouvir, da boca do talhante: 'O sr. da senha 28 nunca cá veio, pois não? Então tire as calças porque vai simular que está a fazer amor com este lombo de vitela, enquanto o resto dos clientes o insultam'

 

Quando entrei na universidade era um jovem assustado. Não conhecia a casa, nem os métodos de trabalho, nem os colegas. Havia muitas diferenças em relação ao liceu. Não havia campo de futebol no pátio. Não havia pátio. Eu precisava, como é evidente, de me integrar. Mas os meus colegas, com uma crueldade que ainda hoje, passados tantos anos, não esqueço, tinham outros planos. Tudo começou nos primeiros dias. Abordei um estudante mais velho e perguntei-lhe: "Podes dizer-me onde fica a biblioteca, por favor?" Espero que ele esteja a ler este texto e se envergonhe do sofrimento que me infligiu. Respondeu-me: "É ali em frente, à direita." Fui ver e era mesmo. Em vez de me esfregar com excrementos de animais ou de me obrigar a rastejar, aquele idiota tinha-me fornecido uma informação correcta, como se eu fosse uma pessoa igual a ele. Eu estava disposto a tolerar que ele não quisesse escrever-me na testa a palavra "Besta", até pelo que isso teria de pleonástico, mas não podia admitir que me privasse de uma enriquecedora experiência de vida, tratando-me como se eu fosse mesmo um ser humano.

 

Fui atrás dele e não me contive. Sempre foi muito difícil para mim lidar com a maldade e a injustiça. Disse-lhe que a conduta dele era vergonhosa. Que, se eu não fosse humilhado em público, teria muito menos hipóteses de me sentir parte daquela comunidade. Que precisava de conviver, para facilitar a minha integração, e que nenhum convívio saudável e pleno dispensa a aplicação de ovos e farinha no cabelo. Ele fugiu e passou o resto do curso a evitar-me. Mas eu ainda hoje o reconheceria, se o visse.

 

Sonho com uma sociedade de tal modo solidária e ansiosa por integrar toda a gente que este tipo de prática se torna comum, não apenas na primeira vez que se vai à universidade, mas na primeira vez que se vai a qualquer lado. Quero poder ir a um talho e ouvir, da boca do talhante: "O sr. da senha 28 nunca cá veio, pois não? Então tire as calças porque vai simular que está a fazer amor com este lombo de vitela, enquanto o resto dos clientes o insultam."

 

Este é um tema ao qual sou especialmente sensível, e sempre que reflicto sobre ele preciso mesmo de relaxar e de me sentir mais à vontade. É o caso, agora. Vou pedir a alguém que me obrigue a andar na rua vestido apenas com uma fralda e todo besuntado em graxa, a ver se descontraio.


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Sábado, 7 de Novembro de 2015

Ricardo Araújo Pereira - Aviso por causa da moral

Ricardo Araújo Pereira

 

Sou mais exigente do que o Estado português no que toca a confiar a guarda de crianças a outras pessoas: interessa-me muito menos o que fazem no quarto do que se são gente decente

 

O meu tio Alfredo era, para sermos rigorosos, um energúmeno. Embebedava-se, batia na minha tia e maltratava os filhos. Só não comentava notícias nas caixas de comentários dos jornais online porque, felizmente, era analfabeto. Mas de resto, em termos de primarismo e de estupidez, era muito completo. No entanto, praticava o tipo de sexualidade que Deus recomenda na Bíblia, pelo que, aos olhos da lei, tinha todas as condições para educar uma criança. Não educaria as minhas, porque eu sou mais exigente do que o Estado português no que toca a confiar a guarda de crianças a outras pessoas: interessa-me muito menos o que fazem no quarto do que se são gente decente. Sou esquisito, bem sei, mas não consigo evitá-lo.

 

Há uns cinco ou seis anos, uma jornalista do Jornal de Notícias perguntou-me se eu preferia que as minhas filhas fossem lésbicas ou sportinguistas. Confesso que já não recordo o contexto histórico em que a questão foi colocada, mas tenho a certeza de que ia ao encontro das inquietações que perturbavam mais profundamente o público leitor daquela altura. Lembro-me, isso sim, de achar que a pergunta era, digamos, parva: pressupunha que aquelas alternativas constituíam os dois destinos mais horrorosos que os nossos filhos podem ter quando, na verdade, são apenas uma característica pessoal normalíssima (no caso do lesbianismo) e uma opção irreflectida (no caso do sportinguismo). Portanto, respondi que preferia que as miúdas fossem lésbicas, uma vez que a homossexualidade não é defeito. Como pai, preocupo-me sobretudo com a felicidade das minhas filhas, e sei que a orientação sexual não impede ninguém de ter uma vida feliz. Já quanto ao sportinguismo, não tenho a certeza.

 

Esta semana, segundo me disseram, outro jornal resolveu recuperar essas minhas declarações, mas omitindo o facto de terem sido proferidas em resposta a uma pergunta. Ao que parece, o jornal titulava apenas: "Preferia que as minhas filhas fossem lésbicas do que sportinguistas". Ora, posta assim, a frase é extremamente ofensiva. Para as lésbicas. Parece que eu, por minha iniciativa, escolhi o lesbianismo como um mal menor. Na verdade, não considero que a homossexualidade seja sequer um mal, quanto mais um mal menor. Mesmo quanto ao sportinguismo, devo dizer que tenho muitos amigos sportinguistas, e estou firmemente convencido de que eles devem poder casar entre si e até adoptar crianças. Fica o esclarecimento.

 

Dito isto, talvez surpreenda o leitor que eu seja a favor do referendo à coadopção por casais do mesmo sexo. De facto, creio que devia haver um referendo à coadopção por casais de todos os tipos. Se, apesar do que diz a ciência, as preferências sexuais dos pais interferem na educação de uma criança, creio que uma sociedade responsável deve esforçar-se por saber mais sobre o assunto. Os cidadãos não devem ficar só pela rama, e descobrir apenas se os pais apreciam manter relações sexuais com elementos do mesmo sexo, ou de sexos diferentes. Precisamos de saber exactamente de que tipo de sexo estamos a falar, com que frequência ocorre, em que locais, quanto tempo dura, e que género de expressões os membros do casal gritam um ao outro. A minha vizinha de cima diz ao marido certas coisas que nenhuma criança devia ouvir.

 

Ricardo Araújo Pereira


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Sábado, 24 de Outubro de 2015

Ricardo Araújo Pereira - A palavra do ano é mas

 

 

Cavaco exige dar posse a um governo maioritário, mas não se a maioria incluir os partidos à esquerda do PS. Jerónimo de Sousa viabiliza um governo do PS para que haja uma política alternativa à coligação, mas disse que o PS e a coligação eram farinha do mesmo saco. António Costa perdeu as eleições, mas pode ser primeiro-ministro. A coligação passou quatro anos a dizer que não havia alternativa, mas quer negociar com o PS políticas alternativas. O Bloco manifesta abertura para apoiar o PS, mas disse que o PS tinha sido a desilusão da campanha eleitoral. Durão Barroso diz que os eleitores socialistas não votaram no PS para um governo com o PCP e o BE, mas é igualmente improvável que tenham votado no PS para um governo com o PSD e o CDS.

 

A bolsa perde agora milhões por causa da hipótese de um governo de esquerda, mas perdeu 2,3 mil milhões quando Paulo Portas revogou a irrevogabilidade. A composição da Assembleia da República indica que o povo português votou maioritariamente contra a coligação, mas também indica que votou maioritariamente a favor do respeito pelo tratado orçamental. A direita diz que um eventual governo de esquerda não respeitaria a Constituição, mas passou quatro anos a desrespeitar a Constituição.

 

António Costa substituiu o anterior líder do PS por ele ter ganho por poucochinho, mas não quer sair depois de ter perdido por bastantezinho. Cavaco defende a estabilidade, mas pode patrocinar a turbulência. Tudo isto é bastante confuso, mas tem graça.

 

Bem vistas as coisas, «mas» significa política. Cavaco não gosta de mas. Isto de as pessoas se oporem umas às outras, de as circunstâncias mudarem, de ser necessário fazer escolhas, nunca lhe agradou. O que é bonito é o consenso.

 

Acontece que Cavaco é sonso quando pede consenso. Na verdade, Cavaco é um consonso: deseja o consenso desde que seja em torno da sua opinião. O povo português deu duas maiorias absolutas a Cavaco Silva e elegeu-o Presidente por duas vezes à primeira volta. Mas lá está, desta vez não lhe fez a vontade. Portugal pode estar menos estável, mas está mais interessante.

 

Ricardo Araújo Pereira

 

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Segunda-feira, 12 de Outubro de 2015

Ricardo Araújo Pereira - Resumo de Os Maias

 

“Os Maias” de Eça de Queirós para quem não gosta de ler ou não tem tempo

Era uma vez um gajo chamado Carlos, que vivia numa casa tão grande que levava p’raí umas vinte páginas a dizer como é que era. Quem gosta de imobiliário, tem aqui um petisco, porque aquilo tem assoalhadas grandes e boas e, pronto, mas p’ra mim não serve, que eu imóveis só com a fotografia, que às vezes um gajo é artista a escrever e depois uma pessoa vai a ver a casa e não tem nada a ver com o que imaginou.

 

Portanto, o gajo chama-se Carlos e o pai matou-se quando ele era pequeno, porque a mulher fugiu com um italiano e levou a filha que eles também tinham e… e ele matou-se, não faz sentido, porque o que não falta p’raí são gajas. Ora o puto fica com o avô e tal, vai crescendo e torna-se um gajo fino, bem vestido e que vai a boas festas.

 

Às tantas vê uma gaja e pensa: “Ui, que gaja tão boa!” e p’raí na página 400 começam a ir para a cama os dois e andam aí umas boas 200 páginas, pim, pim, troca e vira e agora nesta casa e agora naquela e pumba e… só que às tantas vem um gajo e diz: “-Eh pá, olha que a moça é tua irmã!” e o Carlos fica “eh pá, isso não pode ser, que nojo!” de maneiras que dá-lhe só mais duas ou três trolitadas e vai dar uma volta ao mundo, para espairecer, e acaba tudo em bem porque, ao menos, não tiveram filhos. Porque se tivessem eram, de certeza, meio tantans, babavam-se, como o meu primo Zé Luís, que os pais também eram parentes.

 

ENSINAMENTOS DA OBRA

1 – Tu nunca sabes o que é que os teus pais andaram a fazer, porque eles, em princípio, nasceram primeiro do que tu, de maneiras que, quando conheces uma gaja o melhor é dizer: “Oh menina, o seu passaporte se faz favor, nunca fiando, que eu gosto de fazer tudo certinho!”

2 – Outra coisa que o Eça de Queirós ensina é que às vezes mais vale um gajo ser cão, porque eu tive um cão, que era o Patusco e o gajo não respeitava nada, nem ninguém, era irmãs, era a mãe, era tudo a eito e não era nada com ele.

 

Ricardo Araújo Pereira


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Quinta-feira, 24 de Setembro de 2015

Ricardo Araújo Pereira - sobre o voto e a abstenção

 

Obrigado, cidadão, obrigado

"O problema é este: os cidadãos têm pouca vontade de votar. Quando a democracia era nova ainda acorriam às urnas em bom número, mas agora as eleições tornaram-se rotineiras e já não os atraem como antigamente. Uma das soluções, acho eu, era apimentar a relação com uma novidade qualquer. Por exemplo, mudar de posição política. A maior parte dos eleitores vota sempre da mesma maneira. É natural que o acto eleitoral se torne aborrecido. Por outro lado, os candidatos podiam tornar-se um pouco mais sedutores e atenciosos. Normalmente, pretendem apenas atrair-nos à cabina de voto, e depois passam quatro ou cinco anos sem nos dizer nada. Nem um postal, nem um telefonema, nada. O eleitor sente-se sujo, e não volta a cair na esparrela.

 

Para evitar a abstinência dos eleitores, há quem proponha o voto obrigatório. Os cidadãos portugueses precisam de um estímulo para cumprir os seus deveres. O problema das facturas com número de contribuinte ficou resolvido por meio da atribuição de prémios; o problema da abstenção pode resolver-se por meio da aplicação de castigos. Faz sentido que os métodos sejam diferentes. Atribuir prémios a quem vota seria estranho, uma vez que estamos muito habituados a não ganhar nada com o voto. O choque seria demasiado grande. No entanto, a aplicação de castigos também acarreta problemas: a multa por não ir votar tem de ser muito avultada, na medida em que os portugueses costumam pagar um preço bastante elevado por ir votar. Pagámos quando elegemos as pessoas que criaram o problema do BPN, pagámos quando elegemos as pessoas que criaram o problema da dívida, pagámos quando elegemos as pessoas que criaram o problema do desemprego. A multa tem de ser mesmo muito elevada para que não ir votar nos saia mais caro do que ir às urnas. Caso contrário, a abstenção continua a ser mais atraente.


Pessoalmente, admito a multa para quem não vota desde que se institua igualmente uma multa para quem vota, penalizando o sentido do voto. O cidadão votou duas vezes no Sócrates? Paga uma multa. Votou quatro ou cinco vezes no Cavaco? Paga outra multa. Votou no Passos Coelho? Paga uma multa e faz trabalho comunitário. A ver se estes eleitores aprendem."

 

Ricardo Araújo Pereira

 

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Sexta-feira, 14 de Agosto de 2015

Ricardo Araújo Pereira - Juramentos em tempo de crise

 

Ricardo Araújo Pereira - Juramentos em tempo de crise

Juro por minha honra desempenhar fielmente as funções em que fico investido e defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa, a menos que o FMI não aprecie a nossa lei fundamental e, por isso, seja melhor fingir que ela não existe. Nesse caso, optarei por engonhar em vez de pedir a fiscalização preventiva de orçamentos obviamente inconstitucionais, para não arreliar os senhores da troika e o próprio Durão Barroso.

 

Creio em um só Deus, os Mercados todo-poderosos, criadores do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis, e também das incompreensíveis, como a flutuação das taxas de juro da dívida pública e o rating do País. Creio em um só Senhor, o Capital, filho unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, cujos caminhos são misteriosos, uma vez que há operações financeiras que ninguém percebe exactamente como funcionam, como os swaps e os contratos das PPP. Por Ele todas as coisas foram privatizadas. E por nós, devedores, e para nossa salvação desceu dos Céus para nos levar 20% do salário e da reforma, o subsídio de férias e a pensão de sobrevivência. Ámen.

 

Juro, como português e como militar, guardar e fazer guardar a Constituição e as leis da República, servir as Forças Armadas e cumprir os deveres militares, contanto que o funcionamento dos nossos órgãos de soberania não irrite o Presidente José Eduardo dos Santos. Juro defender a minha Pátria e estar sempre pronto a lutar pela sua liberdade e independência, mesmo com o sacrifício da própria vida, excepto quando o regime angolano se incomodar com a extensão da nossa liberdade e independência, altura em que pedirei desculpa por existir.

 

Prometo solenemente consagrar a minha vida ao serviço da Humanidade, se o ministro da Saúde assim mo permitir. Exercerei a minha arte com consciência e dignidade nos poucos serviços de urgência que se mantiverem abertos. A Saúde do meu Doente será a minha primeira preocupação, desde que os tratamentos não sejam demasiado onerosos. Manterei por todos os meios ao meu alcance, a honra e as nobres tradições da profissão médica, junto de enfermeiros sub-contratados e pagos a menos de 4 euros à hora. Não permitirei que considerações de religião, nacionalidade, raça, partido político ou posição social se interponham entre o meu dever e o meu Doente. Já bastam as horas extraordinárias motivadas pela escassez de pessoal a perturbarem-me o raciocínio. Guardarei respeito absoluto pela Vida Humana, desde que o titular dessa Vida Humana tenha dinheiro para suportar o aumento das taxas moderadoras e a diminuição da comparticipação de medicamentos e exames de diagnóstico.


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Sexta-feira, 12 de Junho de 2015

Ricardo Araújo Pereira - Somos Felizes e não sabemos

 

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A confirmar-se que estamos felizes, talvez os portugueses queiram experimentar um pouco de sofrimento, para desenjoar de tanto nirvana

 

Quando Pedro Passos Coelho disse, esta semana, que a história dos últimos anos tinha tido um final feliz, muita gente discordou por considerar que isto que vivemos não é felicidade. Eu discordo porque acho que isto não é um final. O que é infeliz.

 

 

Cada um terá a sua noção de felicidade, mas é mais difícil divergir naquilo que é ou não um final. Podemos discutir se o copo está meio cheio ou menos vazio (embora, no que me diz respeito, seja raro ter inquietações filosóficas deste tipo, na medida em que bebo quase sempre pela garrafa), mas creio que ninguém hesita acerca do momento em que o copo está completamente vazio. Um final não costuma deixar dúvidas. Mas o FMI continua a vir cá periodicamente, o que parece indicar que isto ainda não acabou. Além de que costuma vir com propostas que não trazem grande felicidade.

 

No entanto, como já tive oportunidade de observar, com muita perspicácia, o conceito de felicidade muda de pessoa para pessoa. Os fetichistas de pés ficam felizes com a mera contemplação de pés. Talvez o primeiro-ministro seja um fetichista de desemprego. Ou de dívida. Ou de pobreza. Por outro lado, a felicidade do final de uma história depende de quem a conta. Uma história em que o Drácula consegue ferrar o dente no pescoço de um desgraçado não tem, em princípio, um final feliz. A menos que seja o Drácula a contá-la. Para nós, o governo de Durão Barroso não teve um final feliz. Até porque redundou em Santana Lopes. Mas, para Durão Barroso, foi das mais lindas histórias que já se escreveram.

 

Talvez o problema esteja no próprio conceito de felicidade. É possível que Passos Coelho se satisfaça com pouco (recordo que ele apreciava a companhia de Miguel Relvas). Mas, para o resto do País, creio que a notícia de que isto é felicidade foi recebida com desilusão. De duas, uma: ou a felicidade não é isto ou tem sido muito sobrevalorizada. A confirmar-se que estamos felizes, talvez os portugueses queiram experimentar um pouco de sofrimento, para desenjoar de tanto nirvana.

 

Há ainda outro problema no conceito de final feliz de Passos Coelho (tão diferente do de certas casas de massagem): para o primeiro-ministro, temos sido todos muito virtuosos. Temos feito sacrifícios, pago dívidas, trabalhado a dobrar (os que têm trabalho). Ora, de acordo com a minha experiência, não é possível ser virtuoso e feliz ao mesmo tempo. A maior parte das coisas que me fazem feliz não são virtuosas, e vice-versa. Ou bem que se é virtuoso, ou bem que se é feliz. Temos de optar. E Passos Coelho também.

 

Ricardo Araújo Pereira

Ilustração: João Fazenda

Retirado da Visão

 


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Sexta-feira, 22 de Maio de 2015

Ricardo Araújo Pereira - Porque é que todos os motoristas de táxi são de direita?

 

 

Porque é que todos os motoristas de táxi são de direita?

Deve ser difícil e até opressivo viver num país sem humoristas de direita. Imagino que o facto de o governo ser de direita, a maioria parlamentar ser de direita e o presidente da república ser de direita seja um muito magro consolo

 

Na abertura da sua História do Riso e do Escárnio, o historiador Georges Minois escreve: "O riso é um assunto demasiadamente sério para ser deixado aos cómicos." É possível. Mas talvez também não seja sensato deixá-lo aos historiadores. No jornal em linha Observador, o historiador Rui Ramos (RR) escreveu um texto intitulado: "Porque é que todos os humoristas da rádio e da televisão são de esquerda?" Faltam-me instrumentos para saber se essa particularidade sócio-profissional se verifica na realidade. Sei apenas que Herman José, o maior humorista português, nunca revelou se era de esquerda ou de direita - o que, aliás, tem todo o direito de fazer. Mas admito que o problema, a existir, intrigue cientistas sociais em geral e irrite pessoas de direita em particular: deve ser difícil e até opressivo viver num país sem humoristas de direita. Imagino que o facto de o governo ser de direita, a maioria parlamentar ser de direita e o Presidente da República ser de direita seja um muito magro consolo.

 

RR descobriu o esquerdismo dos humoristas portugueses assim: "Quando o Observador teve o atrevimento de debater a Constituição, ficou mais uma vez à mostra a regulamentação política do piadismo rádio-televisivo." E apontou 1 (um) exemplo de crítica humorística à iniciativa do jornal: um texto de Bruno Nogueira e João Quadros na TSF. Na verdade, o que o Observador fez foi um pouco mais do que isso: avançou com uma proposta de revisão constitucional. RR lamenta: para os humoristas portugueses, "a Constituição não é para rir". É uma conclusão difícil de tirar, uma vez que o Observador não está a rir da constituição e Bruno Nogueira e João Quadros estão a rir da proposta de revisão constitucional levada a cabo por um sítio da internet: "Há jornais que oferecem serviços de jantar (...), o Observador está a dar uma revisão constitucional (...)", dizem eles. Isto tem graça (uma observação que escapou a RR).

 

De acordo com RR, este esquerdismo enviesa os temas escolhidos pelos humoristas: "Pode-se gozar com Cavaco Silva, mas não com Francisco Louçã". Surpreendentemente, a divisão ideológica, em Portugal, faz-se entre Cavaco e Louçã. RR não diz: "Pode-se gozar com Cavaco Silva, mas não com José Sócrates", porque a realidade não o permitiria, e não se deve deixar que a realidade estrague um bom argumento. Não, a direita é Cavaco e o seu contraponto, a esquerda, é Louçã. Na qualidade de humorista de esquerda, devo confessar, com muita vergonha, que, de facto, já fiz muito mais piadas acerca de Cavaco do que sobre Louçã. A minha desculpa é, evidentemente, esfarrapada: eu pensava que era mais interessante fazer humor sobre um homem que esteve no poder 20 anos, dez como primeiro-ministro e outros dez como Presidente da República, do que sobre um que, durante sete anos, foi coordenador de um partido que nunca chegou a atingir 10% dos votos.

 

Para RR, há duas razões para o esquerdismo unânime dos humoristas. Uma são "as vantagens que uma máscara de esquerdismo tem para um humorista". RR dá o exemplo de Justine Sacco, que foi despedida depois de ter posto uma piada no Twitter. Um homem chamado Sam Biddle chamou a atenção para a piada e incentivou ao enxovalho público global da autora na internet, e desse clamor resultou o despedimento. RR identifica os protagonistas da história como "a directora de relações públicas de uma das maiores empresas americanas da internet" e "um activista das redes sociais". Na verdade, Biddle era um jornalista de outra das maiores empresas americanas da internet, a Gawker Media (lema: "Today's gossip is tomorrow's news", ou "Os mexericos de hoje não as notícias de amanhã"), um conglomerado multimilionário de empresas de comunicação sediado nas ilhas Caimão. O episódio não teve rigorosamente nada de ideológico. Foi apenas mais um caso de concorrência entre gigantes da internet que beneficiou do facto de as pessoas que frequentam as redes sociais terem uma famosa incapacidade para reconhecer a ironia.

 

A segunda razão é esta: "À esquerda, parece dar-se uma tremenda importância a este tipo de profissões." RR avança com outro exemplo: durante a campanha das eleições inglesas, o trabalhista Miliband foi falar com o humorista Russell Brand "como a uma espécie de velho guru". Na verdade, Miliband foi ser entrevistado por Brand. A resposta à primeira pergunta começa com a frase "Você está totalmente errado", o tipo de comentário reverente que se faz a velhos gurus. RR acrescenta: "Ninguém imagina um episódio análogo à direita. (...) David Cameron não tem um humorista com dezenas de milhares de seguidores nas redes sociais para falar com ele, mas mesmo que tivesse, talvez não estivesse no topo da sua agenda de campanha". Cameron disse o mesmo. E, talvez por ninguém conseguir imaginar um episódio análogo à direita, a imprensa inglesa entreteve-se a publicar fotografias de encontros de Cameron com os conhecidos humoristas David Walliams (do programa Little Britain) e John Bishop, por exemplo, para que as pessoas conseguissem imaginar melhor.

 

Allison Silverman, guionista do programa The Daily Show, escreveu uma vez um artigo para a revista Slate em que identificava os cinco tipos de piadas que não entravam no programa de Jon Stewart. Um deles era este: piadas que recebem um aplauso em vez de uma gargalhada. Qualquer pessoa recebe palmas se subir a um palco e disser: "Isto é tudo uma cambada de bandidos." Fazer rir é mais difícil.

 

Em 2007, a Fox News exibiu um programa de sátira política inclinado ideologicamente para a direita, para combater o The Daily Show. Chamava-se The 1/2 Hour News Hour. Durou apenas 17 episódios, por uma razão bastante prosaica: não tinha graça. É o que costuma acontecer quando quem pretende fazer sátira política dá mais atenção à política do que à sátira. O negócio dos humoristas é o riso.

 

Pessoalmente, rio-me com P. J. O'Rourke ou José Diogo Quintela, mesmo quando eles estão a fazer pouco do que eu penso. Também acho graça a Stephen Colbert ou Jon Stewart, independentemente de muitas vezes concordar com eles. Serei um rústico, mas estou-me borrifando para a orientação política de um humorista (assim como para a orientação sexual, religiosa, ou o facto de preferir peixe grelhado a chanfana). A única coisa que me interessa na comédia é: tem graça? Logo por azar, é a única questão que não interessa a Rui Ramos.


Ricardo Araújo Pereira

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Sexta-feira, 3 de Abril de 2015

Ricardo Araújo Pereira - Rouba e não faz

 

Rouba e não faz

 

Se José Sócrates for culpado do que o acusam é o maior génio do crime desde o professor Moriarty. Aquilo a que se costuma chamar um mestre da dissimulação. Eu já vi vários advogados de indivíduos que possuem 25 milhões de euros e não se parecem em nada com o patusco causídico que o antigo primeiro-ministro contratou. Estamos perante um nível de patusquicidade mesmo muito elevado. É o advogado ideal para milionários que desejam esconder a fortuna.

 

As outras aplicações do alegado dinheiro alegadamente obtido através de alegada corrupção também são desconcertantes. Gostava de propor um teste aos leitores. Coloquem-se no alegado lugar de José Sócrates e completem a seguinte frase: "Bom, agora que tenho 50 anos, vou aproveitar os vários milhões de euros que obtive ilegalmente para..." Quantos preencheram o espaço vazio com a expressão "... escrever uma aborrecida tese de 200 páginas sobre a prática da tortura no âmbito das sociedades democráticas"? Que repugnante corrupção é esta que desperdiça o dinheiro sujo na academia? Onde estão as jovens bailarinas de clubes nocturnos, o barco, o champanhe, os charutos acendidos com notas de banco? Que diabo, eu ganhei muito menos dinheiro muito mais honradamente e mesmo assim levo uma vida bastante mais dissoluta. Hoje em dia, com o acesso que temos ao que se passa pelo mundo, não há razão nenhuma para não se praticar uma corrupção bonita, moderna, com um investimento consistente em devassidão e álcool. Esbanjar dinheiro ilícito no desenvolvimento pessoal é francamente decepcionante.

 

O próprio alegado esquema é triste, na medida em que envolve um motorista que funciona como multibanco, um amigo que funciona como offshore e uma mãe que funciona como agente imobiliária.

 

Se é para continuarmos a precisar de pedir dinheiro à mãe e aos amigos, mais vale não entrar no mundo do crime. A criminalidade costuma ter a virtude de garantir ao criminoso uma certa independência financeira, que sempre enobrece.

 

Não é o caso, aqui.

 

Tudo isto faz com que, se o ex-primeiro-ministro for culpado, o regime não esteja em perigo, ao contrário do que se tem dito. A confirmar-se a acusação, José Sócrates tem 25 milhões de euros e, no entanto, vive da caridade dos amigos e viaja em económica. Afinal sempre há um português que vive abaixo das suas possibilidades. Um exemplo a seguir, portanto.

 

Ricardo Araújo Pereira


Retirado da Visão


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Sexta-feira, 27 de Fevereiro de 2015

Ricardo Araújo Pereira no Facebook - O pior político Português é Cavaco Silva

O pior Político português é Cavaco Silva

 

O pior político Português é Cavaco Silva é o que está há mais tempo no poder e age como se não soubesse porque o país está assim


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Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2015

Mixórdia de Temáticas – Histórias trágicas de carnaval

 

 

Mixórdia de Temáticas - Série Lobato. Episódio 25: "Histórias trágicas de carnaval"

 


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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2015

Ricardo Araújo Pereira - Sou totalmente a favor do casamento gay, mas só entre políticos.

Casamento gay

 

Sou totalmente a favor do casamento gay, mas só entre políticos. Tudo o que venha a contribuir para que eles não se reproduzam é bom para todos!!!!


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Sábado, 7 de Fevereiro de 2015

Mixórdia de Temáticas - Preparação para o Dia dos Namorados

 


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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2015

Miguel Esteves Cardoso - Ricardo Araújo Pereira

 

Eis um elogio da realidade humana: não há nenhum livro ou filme que nos faça rir tanto – até magoar o estômago e doer-nos, torcendo-nos os intestinos, as cordas vocais da garganta e os aparelhos de captação de oxigénio dos pulmões – como as brincadeiras que fazemos e dizemos entre nós.

 

O nosso riso dá-nos pontadas; corta-nos a respiração; desmancha-nos as caras. Tapamo-las com uma mão para não rebentar. É um dos prazeres de ser humano.

 

Já para chorar não há nada como os livros e os filmes. Os filmes – que são obras de arte mais fáceis e inferiores do que as obras escritas – fazem-nos chorar mais, quando são bem feitos, do que as obras-primas da literatura.

 

O riso é a coisa mais difícil que há entre estranhos (escritor e leitor; comediante e espectador) e a mais fácil entre familiares. Conclui-se, logo à partida, que o riso público é uma conquista épica. É David, depois de ter ganho a Golias, conseguir fazer rir a família e o público faccioso de Golias.

 

O choro, como o bocejo, é contagiante. O riso, como a batata doce, é uma partilha de cumplicidades. Chorar é público. Rir é particular. E por isso que conseguir que se ria pública e colectivamente é um feito glorioso e irrelevante.

 

Cada novo livro de Ricardo Araújo Pereira é disputado, lido e relido na nossa casa. Como escritor, comediante, actor e pensador, o Ricardo Araújo Pereira é o contrário de um estraga-prazeres: é um espalha-prazeres do melhor que há.

 

Miguel Esteves Cardoso

 

Retirado do Público


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