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Pontos de Vista

Porque tudo na vida tem um ponto de vista

Pontos de Vista

Porque tudo na vida tem um ponto de vista

27
Jul15

Pablo Neruda - Os Deuses Reclinados

olhar para o mundo

Os Deuses Reclinados

... Por todos os lados as estátuas de Buda, de Lorde Buda... As severas, verticais, carcomidas estátuas, com um dourado de resplendor animal, com uma dissolução como se o ar as desgastasse... Crescem-lhes nas faces, nas pregas das túnicas, nos cotovelos, nos umbigos, na boca e no sorriso pequenas máculas: fungos, porosidades, vestígios excrementícios da selva... Ou então as jacentes, as imensas jacentes, as estátuas de quarenta metros de pedra, de granito areento, pálidas, estendidas entre as sussurrantes frondes, inesperadas, surgindo de qualquer canto da selva, de qualquer plataforma circundante... Adormecidas ou não adormecidas, estão ali há cem anos, mil anos, mil vezes mil anos... Mas são suaves, com uma conhecida ambiguidade ultraterrena, aspirando a ficar e a ir-se embora... E aquele sorriso de suavíssima pedra, aquela majestade imponderável, mas feita de pedra dura, perpétua, para quem sorriem, para quem, sobre a terra sangrenta?... Passaram as camponesas que fugiam, os homens do incêndio, os guerreiros mascarados, os falsos sacerdotes, os turistas devoradores...

E manteve-se no seu lugar a estátua, a imensa pedra com joelhos, com pregas na túnica de pedra, com o olhar perdido e não obstante existente, inteiramente inumana e de alguma forma também humana, de alguma forma ou de alguma contradição estatuária, sendo e não sendo deus, sendo e não sendo pedra, sob o grasnar das aves negras, entre os esvoaçar das aves vermelhas, das aves da selva... Pensamos, de algum modo, nos terríveis Cristos espanhóis que herdámos com chagas e tudo, com pústulas e tudo, com cicatrizes e tudo, com aquele odor a vela, a humidade, a quarto fechado que têm as igrejas... Aqueles Cristos também duvidaram entre ser homens e deuses... Para os fazer homens, para os aproximar mais dos que sofrem, das parturientes e dos decapitados, dos paralíticos e dos avaros, da gente de igrejas e da que rodeia as igrejas, para os tornar humanos, os estatuários dotaram-nos com horripilantes chagas, até que tudo aquilo se transformou na religião do suplício, no peca e padece, no não pecas e padeces, no vive e sofre, sem que nenhuma escapatória te livrasse...

Aqui não, aqui a paz chegou à pedra... Os estatuários revoltaram-se contra os cânones da dor e estes Budas colossais, com pés de deuses gigantescos, têm no rosto um sorriso de pedra que é tranquilamente humano, sem tamanho sofrimento... E deles evola-se um odor não a aposento morto, não a sacristia e teias de aranha, mas a espaço vegetal, a brisas que de súbito ficam ciclónicas, com penas, folhas, pólen da selva infinita...

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"
18
Jul15

Pablo Neruda - A Minha Poesia

olhar para o mundo

 

A Minha Poesia

A minha poesia e a minha vida fluíram como um rio americano, como uma torrente de águas do Chile, nascidas na intimidade profunda das montanhas austrais e dirigindo sem cessar para uma saída marítima o movimento do caudal. A minha poesia não rejeitou nada do que pôde transportar nas suas águas. Aceitou a paixão, desenvolveu o mistério, abriu passagem nos corações do povo.

Coube-me sofrer e lutar, amar e cantar. Tocaram-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e do sangue. Que mais quer um poeta? Todas as alternativas, do pranto até aos beijos, da solidão até ao povo, estão vivas na minha poesia, reagem nela, porque vivi para a minha poesia e porque a poesia sustentou as minhas lutas. E se muitos prémios alcancei, prémios fugazes como borboletas de pólen evasivo, alcancei um prémio maior, um prémio que muitos desdenham, mas que, na realidade, é para muitos inatingível.

Consegui chegar, através de uma dura lição de estética e rebusca, através dos labirintos da palavra escrita, à altura de poeta do meu povo. O meu prémio maior é esse — não os livros e os poemas traduzidos, não os livros escritos para descreverem ou dissecarem as palavras dos meus livros. O prémio foi aquele momento fundamental da minha vida, no fundo do vale de Lota, ao sol pleno na nitreira abrasada, quando um homem subiu da cova aberta na escarpa como se emergisse do Inferno, com a cara alterada pelo trabalho esmagador, os olhos avermelhados pela poeira, e, estendendo-me a mão calejada, uma mão com o mapa da pampa nas suas durezas e nas suas rugas, me disse, de olhos brilhantes: «Conhecia-te desde há muito tempo, irmão.» São estes os louros da minha poesia — esse buraco na pampa terrível do qual sai um operário a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile lhe disseram muitas vezes: «Não estás sozinho; há um poeta que pensa nas tuas dores.»

Entrei para o Partido Comunista do Chile em 15 de Julho de 1945.

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"
 
Retirado de Citador
16
Jul15

Pablo Neruda - Luto pela Bondade

olhar para o mundo

 

Luto pela Bondade

Quero viver num mundo sem excomungados. Não excomungarei ninguém. Não diria, amanhã, a esse sacerdote: «Você não pode baptizar ninguém porque é anticomunista.» Não diria ao outro: «Não publicarei o seu poema, o seu trabalho, porque você é anticomunista.» Quero viver num mundo em que os seres sejam simplesmente humanos, sem mais títulos além desse, sem trazerem na cabeça uma regra-, uma palavra rígida, um rótulo. Quero que se possa entrar em todas as igrejas, em todas as tipografias. Quero que não esperem ninguém, nunca mais, à porta do município para o deter e expulsar. Quero que todos entrem e saiam sorridentes da Câmara Municipal. Não quero que ninguém fuja em gôndola, que ninguém seja perseguido de motocicleta. Quero que a grande maioria, a única maioria, todos, possam falar, ler, ouvir, florescer. Nunca compreendi a luta senão como um meio de acabar com ela. Nunca aceitei o rigor senão como meio para deixar de existir o rigor. Tomei um caminho porque creio que esse caminho nos leva, a todos, a essa amabilidade duradoura. Luto pela bondade ubíqua, extensa, inexaurível. De tantos encontros entre a minha poesia e a polícia, de todos esses episódios e de outros que não contarei porque repetidos, e de outros que não aconteceram comigo, mas com muitos que já não poderão contá-los, resta-me no entanto uma fé absoluta no destino humano, uma convicção cada vez mais consciente de que nos aproximamos de uma grande ternura. Escrevo sabendo que sobre as nossas cabeças, sobre todas as cabeças, existe o perigo da bomba, da catástrofe nuclear, que não deixaria ninguém nem nada sobre a Terra. Pois bem: nem isso altera a minha esperança. Neste momento crítico, neste sobressalto de agonia, sabemos que entrará a luz definitiva pelos olhos entreabertos. Entender-nos-emos todos. Progrediremos juntos. E esta esperança é irrevogável.

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"
 
Retirado de Citador
21
Jun15

Pablo Neruda - Raízes

olhar para o mundo

Raízes

Ehrenburg, que lia e traduzia os meus versos, repreendia-me: demasiada raiz, demasiadas raízes, nos teus versos. Porquê tantas? É verdade. As terras fronteiriças do Chile infiltraram as suas raízes na minha poesia e nunca puderam sair dela. A minha vida é uma longa peregrinação que anda sempre às voltas, que retorna sempre ao bosque austral, à selva perdida.

Ali, é certo, as grandes árvores eram por vezes tombadas por setecentos anos de vida poderosa, ou arrancadas pelo furacão, ou queimadas pela neve, ou destruídas pelo incêndio. Senti muitas vezes cair na profundidade da floresta as árvores titânicas: o roble que tomba com estrondo de catástrofe surda, como se batesse com mão colossal às portas da terra pedindo sepultura. As raízes, porém, ficavam a descoberto, entregues ao tempo inimigo, à humidade, aos líquenes, ao aniquilamento progressivo.

Nada mais belo que aquelas grandes mãos abertas, feridas e queimadas, que numa vereda do bosque nos indicam o segredo da árvore enterrada, o enigma que a folhagem mantinha, os músculos profundos do domínio vegetal. Trágicas e hirsutas, mostram-nos uma nova beleza: são esculturas da profundidade — obras-primas secretas da natureza.

Certa vez, caminhando com Rafael Alberti entre cascatas, matagais e bosques, perto de Osorno, fez-me ele notar que cada ramo se diferenciava do outro, que as folhas pareciam competir na infinita variedade do estilo.

— Parecem escolhidas por um paisagista botânico para um parque estupendo — dizia-me.

Anos depois, em Roma, Rafael recordou-me aquele passeio e a opulência natural dos nossos bosques. Assim era. Já assim não é. Penso com melancolia nas minhas andanças de menino e de jovem entre Boroa e Carahue, ou em direcção a Toltén, pelos cerros da costa. Quantas descobertas! O garbo da caneleira e a sua fragrância depois da chuva, os líquenes com a barba de Inverno pendendo dos rostos inumeráveis do bosque...

Empurrava as folhas caídas, procurando divisar o relâmpago de alguns coleópteros—os cárabos dourados, que se tinham vestido de furta-cores para dançar um minúsculo bailado sob as raízes.

Ou mais tarde, ao atravessar a cavalo a cordilheira para o lado argentino, sob a abóbada verde das árvores gigantescas, quando surgiu um obstáculo: a raiz de uma delas, mais alta que as nossas montadas, impedia-nos a passagem. Só à força de trabalho de machado foi possível abrir caminho. Aquelas raízes eram como catedrais tombadas — magnitude descoberta que nos impunha a sua grandeza.

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"
 
Retirado de Citador

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