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Pontos de Vista

Porque tudo na vida tem um ponto de vista

Pontos de Vista

Porque tudo na vida tem um ponto de vista

10
Jan17

Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo - Miguel Esteves Cardoso

olhar para o mundo

 

Mário Soares deixou-nos e deixou-nos tudo

Era um revolucionário burguês. Os burgueses criticaram-no por ser revolucionário e os revolucionários criticaram-no por ser burguês. Era por isso que ele é tão refrescantemente moderno: ainda não nos aproximámos do que ele queria para nós.

Mário Soares não levou nada com ele. Deixou tudo connosco. É essa a maior generosidade que uma pessoa pode ter: querer tudo para os outros e dedicar a vida a lutar por isso — e por nós.

Mário Soares não se importava que não gostassem dele. Ia em frente, achassem o que achassem. É essa a coragem maravilhosa que deixou: serviu de exemplo da liberdade mais importante de todas, que é a liberdade de sermos como somos e acreditarmos no que acreditamos.

Até ao fim da vida, Mário Soares exerceu essa liberdade da maneira mais desobediente, imprevisível e desconcertante. Falava alto quando queríamos que se calasse. Quanto mais queríamos que se calasse, mais alto falava.


 

Mário Soares foi um rebelde e um inconveniente. Era um grande erro tratá-lo com condescendência ou passar-lhe a mão pelo pêlo. Ele reagia com arrogância não só à arrogância como aos excessos de humildade. Não era nenhum santo, graças a Deus. E nunca nos deixava esquecer isso.

No final de cada batalha — a grande maioria das quais perdeu descaradamente —, Mário Soares parava para dar lugar aos vencedores, saudando-os de igual para igual, como se também tivessem perdido.

Pouco importava na estima dele. Mário Soares era uma pessoa profundamente civilizada e humana. Revia-se nas fraquezas que todos herdamos mas poucos reconhecem. Era mimado mas recusava-se a mimar. Respeitava os outros não porque os outros tinham alguma coisa de especial — mas porque não tinham. Eram seres humanos, cidadãos, compatriotas. E isso chega. Isso deveria sempre chegar se todos nós tivéssemos a ideia generosa de democracia que Mário Soares tinha, pôs em prática e deixou para que nos habituássemos a ela e fôssemos, por nossa vez, libertados por ela.

Mário Soares deixou a pessoa dele nas gerações de camaradas e opositores que ele, directa ou indirectamente, inspirou. Podemos não reconhecer essa dívida — tanto faz. A liberdade de cada um de nós não cai nem cresce por causa do mal ou do bem que pensamos dela. É essa a única liberdade valiosa: a que não depende da nossa aceitação; a que é independente da nossa vontade de exercê-la ou reprimi-la.

Pode-se dizer mal de Mário Soares, o mal que se quiser. Não há nada que ele não tivesse ouvido em vida — e verdadeiramente tolerado, não com sobranceira indiferença, mas com o respeito democrático que vem dar ao mesmo. Encolher os ombros faz parte da liberdade. Foi Mário Soares que nos ensinou isso, tanto quando ergueu o punho como quando encolheu os ombros.

Mário Soares era o político que era uma pessoa. Recusou-se sempre a ser um salvador ou uma figura acima da multidão. Ele era o político que era de um partido — o Partido Socialista — e com muita honra. Ele era um laico convicto, capaz de dar tudo pela liberdade religiosa de todos aqueles que têm religiões diferentes da grande maioria. Ele era um republicano honrado que sabia falar com monárquicos, que os monárquicos respeitavam por ter sempre consciência de que tudo depende sempre do que sente cada um de nós e que as nossas crenças, nunca sólidas ou imutáveis, são tão nossas como a nossa humanidade.

É essa semelhança no que nos distingue que nos dá razão para acreditar na humanidade e em ideais tão antigos e modernos como a liberdade, a fraternidade, a justiça e o progresso económico, social e político.

Mário Soares era um revolucionário burguês. Os burgueses criticaram-no por ser revolucionário e os revolucionários criticaram-no por ser burguês. Era por isso que ele é tão refrescantemente moderno: ainda não nos aproximámos do que ele queria para nós.

Ele deu-nos o desconto, compreendeu a nossa volubilidade e a nossa desconfiança. Compreendeu a nossa tendência ora messiânica, ora depressiva. Nunca se iludiu acerca de nós. Aceitou-nos como nós somos, recusando sempre os papéis providenciais que alguns de nós quiseramos impor-lhe, de pai ou de profeta.

Mário Soares foi sempre intransigentemente humano. Ou seja: transigiu em tudo. Negociou, esperou para ver, mudou de opinião. Foi um político inteligentíssimo que nunca teve paciência para se armar em superior. Sempre soubemos quem ele era e ao que vinha. Paradoxalmente, acabou por se prejudicar mais do que estava disposto a fazer. Foi pena não ter estado mais tempo no poder. Mas o preço disso — fingir ser quem não era, achar-se melhor do que nós — era caro de mais para ele. E ele fez bem em não pagá-lo, por muito jeito que tivesse dado a Portugal.

No dia em que morreu Mário Soares saúdo a liberdade que nos deixou, que está connosco agora, ao ponto de eu poder escrever estas linhas sem sentir o mais pequeno constrangimento ou ter de ceder à mais sensata obrigação.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público

21
Dez16

Falsas boas festas - Miguel Esteves Cardoso

olhar para o mundo

 

Porque é que tantas empresas que não me conhecem de lado nenhum me mandam mails automatizados a desejar-me falsas boas festas e feliz ano novo? Onde está escrito que isto me vai me dar vontade de comprar os produtos que me querem vender?

Quando faço anos é a mesma porcaria. As empresas - bancos, publicações, lojas, marcas - fazem questão de me mandar um mail a dizer-me que os computadores e o software que têm “não se esqueceram” do meu aniversário. Os mails custam zero e não envolvem a participação de um único dedo humano. Que pretenderão os autores destes golpes retrógrados, se é que ainda estão vivos? Que eu ache simpático que tenham incluido o meu endereço electrónico na lista super-exclusiva
que eles mantêm de potenciais clientes?

Haverá alguém no mundo - uma única pessoa - que discorde que estas falsas boas festas são contraproducentes? Duvido. Então porque é que continuam a mandá-las? Se calhar a programação foi feita nos anos 90 e as empresas esqueceram-se de desactivá-la. Se fosse esse o caso, bem que uma empresa pioneira poderia mandar-me um mail muito bem-vindo a
dizer-me que, pela primeira vez, não me vai mandar falsas boas festas porque reconhece que é um gesto automático e logo pior do que insincero.

Bem bastam a insinceridade humana e as falsas boas festas que pessoas verdadeiras desejam umas às outras. Já há, por esta época, automatismo que chegue nos nossos gestos e nas nossas palavras. Já estamos bem servidos de falsidade, muito obrigados. Já chega.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público

15
Dez16

Miguel Esteves Cardoso - O FUTURO, A FELICIDADE, O PRESENTE

olhar para o mundo

O FUTURO, A FELICIDADE, O PRESENTE

 
O futuro contém a nossa morte e, depois dela, o infinito de nadas, chato como o ferro do cosmos, que antecedeu os nossos nascimentos.
 
A felicidade, se calhar, é desejar que as coisas não piorem muito, de dia para dia, para não se notarem tanto.
O presenteaquilo que ainda se tem, a começar por estar vivo e lembrarmo-nos de termos estado pior — é a felicidade maior, somada às memórias de felicidades que continuam vivas e que nos fazem sorrir, pertencer e desejar bem aos outros que ainda não as tiveram. Se não nos lembrarmos de termos estado pior ou não tivermos a esperança de ficarmos melhor, já não conta como felicidade; já não conta como presente. Não é só dizer “eu ainda consigo”: é preciso também haver a consciência de ter prazer, não em conseguir, mas nas coisas que se fazem.
 
Todos sabemos o que nos espera. Interessa apenas decidir não tanto o que fazer enquanto esperamos como descobrir as formas que ainda nos restam de nos distrairmos. A distracção é a forma mais exaltante da vida. Quem se pode distrair — amando, lendo, pintando, trabalhando, coleccionando, politicando — não pode ser inteiramente triste, não por não estar apenas simplesmente não-morto e vivo, mas por ter encontrado a maneira de fazer pouco do presente, em atenção ao passado ou ao futuro lembrado ou desejado, como momento e movimento em direcção a eles.
 
Restam as consolações.
 
Quando é ser momento ou movimento a única coisa, para se ser feliz, que se quer.
 
 
 Miguel Esteves Cardoso, Público, de 25/09/2012
22
Nov16

Miguel Esteves Cardoso - “Hugo, não consigo”

olhar para o mundo

“Hugo, não consigo”

As lágrimas venceram: eram grandes e sentidas de mais para o próprio Cristiano Ronaldo acabar com elas.

 

Vale mesmo a pena ver o vídeo no PÚBLICO online. Minutos depois da vitória na final do Euro 2016, Cristiano Ronaldo discursou perante toda a equipa portuguesa: “Este é o momento mais feliz da minha vida. Já chorei três ou quatro vezes. O meu irmão até já me chamou: ‘Pá, já chega, já chega’. Eu disse: ‘Hugo, não consigo’”.

 

A dignidade de Cristiano Ronaldo comove-me sempre. É a maneira mais nobre de calar as pessoas que o tratam como um mero marcador de golos. Mas é a determinação dele que mais admiro. Precisamente nos jogos em que não marca golos é inspirador vê-lo tentar marcar, cada vez com maior teimosia e frustração. O homem não desiste. Às vezes as bolas entram mas a maior parte das vezes não entram. Todos os grandes jogadores de futebol sabem isto. Mas Cristiano Ronaldo é capaz de ser o único que não aceita que as bolas dele não entrem sempre. Às vezes ri-se, quando quase entram, como se percebesse, com a fé dele, que Deus também gosta de brincar com as pessoas - e que tem um terrível sentido de humor.

 

Quando ele diz que não consegue parar de chorar é a mesma determinação que está a mostrar: “Hugo, não consigo”. O irmão provavelmente tem razão – que já chega de choro – mas é escusado estar com fitas. Cristiano Ronaldo consegue muitas coisas (e algumas que mais ninguém consegue) mas sabe perfeitamente quais são as coisas que não consegue. As lágrimas de Cristiano Ronaldo venceram: eram grandes e sentidas de mais para o próprio Cristiano Ronaldo acabar com elas.

 

Miguel Esteves Cardoso 

Retirado do Público

 

 

02
Nov16

Miguel Esteves Cardoso - A vingança certa

olhar para o mundo

 

 

Quando apanharem os assassinos que entraram na redacção do Charlie Hebdo para assassinar aqueles que tinham feito desenhos satíricos sobre Maomé, consola-me saber que não passarão mais de 25 anos na cadeia.

 

Os fanáticos desprezarão o sistema francês que não só não mata os assassinos como lhes restitui a liberdade após vinte e poucos anos. Todos estarão cá fora antes de fazerem 60 anos, não obstante terem tirado as vidas a (pelo menos) doze pessoas.

 

Tal como fizeram os noruegueses com o assassino de massas que foi condenado a 21 anos de prisão preventiva os franceses serão igualmente indiferentes à lei de talião.

 

O "olho por olho, dente por dente" é um castigo estúpido. Não matar assassinos é um castigo inteligente. Os psicopatas assassinos que invocam o Islão para passarem por pessoas religiosas podem achar que a nossa misericórdia é um sinal de fraqueza.

 

Não é. É uma prova de força. Tal como já não se sacrificam animais, não se matam pessoas. Pelo menos na Europa que, por muitos problemas que tenha, está sempre à frente dos países mais antigos (como a China) ou mais novos (como os E.U.A) que continuam a tolerar as penas de morte.

 

Com o desprezo dos assassinos e dos intolerantes podemos nós bem. As pessoas que acham que está certo matar pessoas que matam já são desprezíveis. Mas não é preciso matá-las por causa disso.

 

A vingança certa é ser condescendente com os assassinos. É tirar-lhes a razão. É não termos pena deles. Nunca.

 

Miguel Esteves Cardoso Público 09/01/2015

28
Out16

No meio da multidão que chora a morte de João Lobo Antunes - Miguel Esteves Cardoso

olhar para o mundo

Miguel Esteves Cardoso

No meio da multidão que chora a morte de João Lobo Antunes

Sou só uma pessoa da grande multidão de pessoas cujas vidas foram salvas por João Lobo Antunes. Somos muitos a chorar. Choramos por egoísmo. Choramos de medo. Choramos de raiva. Choramos pela injustiça. Mas também choramos por ele, João. E também choramos pelas pessoas que o amam.

Faço parte da grande multidão de pessoas que o João Lobo Antunes salvou, directa e indirectamente. Tal como quase todas elas, não tive a sorte de ter sido amigo dele. Mal o conheci. Mas vi-o, vi-o sempre de atalaia, rodeado pelos colaboradores, todos eles salvadores de vidas. Um desses neurocirurgiões, Alexandre Raínha Campos, removeu um tumor canceroso do cérebro da Maria João, salvando-lhe a vida e devolvendo-me a pessoa amada.

 

Estava lá o João Lobo Antunes. Logo de manhãzinha e depois da operação, a presença dele acalmava, garantia que tudo o que se pudesse fazer iria ser feito.

O João era um herói. É preciso estofo para se ser herói. O João tinha. Não é preciso paciência nem generosidade nem sabedoria nem cultura nem criatividade para se ser herói. Mas o João era um herói que tinha isso tudo. É preciso coragem para se ser um herói. O João tinha. Não é preciso ter uma visão ambiciosa e exacta de onde se pretende chegar. Mas o João tinha e chegou lá. Construiu o impossível contra a mesquinhez das possibilidades e, uma vez construído, tratou a construção com a maior das naturalidades, como se sempre tivesse sido assim. Partilhou o que sabia com a mesma alegria com que tinha aprendido.

O João era um investigador, um esteta, um dandy e um senhor. Deve ter tido defeitos mas juro, para quem não o conheceu, é como se não tivesse tido. Admito, no caso de João Lobo Antunes, que o homem era um deus.

É assim que todos nós que fazemos parte da multidão de pessoas cujas vidas ele salvou o víamos: como um deus. Dizem que fica mal aos médicos armarem-se em deuses. Pois sim. Digam isso às pessoas que ele salvou e às pessoas – muitas mais ainda - que amam essas pessoas. Os médicos não podem ser deuses mas, no caso de João Lobo Antunes, exigimos que se abra uma excepção.

Era um deus que, ao contrário do verdadeiro, tinha sentido de humor. Sabia que era um herói mas preferia ser tratado como se não fosse. Era impossível elogiá-lo. Aproveito agora que ele está morto mas isso só me enche – só nos enche – de tristeza.

Seria tão bom e justo e útil e feliz e merecido que João Lobo Antunes estivesse vivo e saudável e bem disposto, a piscar aqueles olhos azuis, a viver a vida que sabia viver.

Numa crónica, comovida e comovente, que António Lobo Antunes escreveu para a Visão, dedicada ao Professor Luís Costa com o título O último abraço que me dás a primeira frase é esta: “O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis”.

Foi assim, também, no Serviço de Neurocirurgia do mesmo hospital, dirigida pelo irmão, João Lobo Antunes, quando a Maria João foi lá operada por Alexandre Raínha Campos. Foi o “lugar onde, até hoje” ela e eu “sentimos mais orgulho em sermos pessoas”.

Cito outra passagem da mesma crónica, por ser tão verdadeira para a multidão que não conhecia o Professor Lobo Antunes e que ele salvou ou ajudou a salvar: “A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no mal-estar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida”.

É o mesmo Luís Costa que vem salvando a vida da Maria João. Foi João Lobo Antunes que a levou para ele. É verdade que “não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida”.

Mas há certas pessoas que, tal como os deuses, não deveriam morrer senão quando assim entendessem. São raras. Mas João Lobo Antunes era, certamente, uma delas.

Peço desculpa à família do João e a todos os amigos que tinha o muito tempo e o muito João que vos roubámos, eu e o resto da multidão das pessoas que ele salvou.

As tristezas injustas são as que mais doem e mais custam a passar. A perda de João Lobo Antunes, neste maldito dia de Outubro, só agora começa a fazer-se sentir. Vai levar muito tempo a passar. Sofrer e sentirmo-nos indignos é o mínimo que podemos fazer.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público

24
Out16

Miguel Esteves Cardoso - Ser Português, Ainda

olhar para o mundo

Miguel Esteves Cardoso

Ser Português, Ainda

Para ser português, ainda, vive-se entre letras de poemas e esperanças, cantigas e promessas, de passados esquecidos e futuros desejados, sem presente, sem pensamento, sem Portugal. Para ser português, ainda, aprende-se a existir no gume da tristeza, como um equilibrista num andaime de navalhas levantadas, numa obra que se vai construindo sob uma arquitectura de demolição. Tínhamos direito a um Portugal inteiro, com povo e com a terra, mas o povo enlouqueceu e a terra foi arrasada e tudo o que era pátria, doce e atrevida, se afasta à medida que olhamos para ela, tal é a ânsia de apagamento e de perdição. Restam-nos sons e riscos. Portugal encolheu-se. Escondeu-se nos poetas e cantores. Recolheu-se nas vozes fundas de onde nasceu. Portugal abrigou-se em portugueses e portuguesas nos quais uma ideia de Portugal nunca se perdeu.

Para se ser português, ainda, é preciso estreitar os olhos e molhar a garganta com vinho tinto para poder gritar que isto assim não é Portugal, não é país, não é nada. Torna-se cada vez mais difícil que o povo e a terra e a ideia se possam alguma vez reunir.
É preciso defender violentamente as instituições: a Universidade, o Parlamento, a Fundação Gulbenkian, o sistema judicial, a Igreja, as Forças Armadas e tudo o mais que segura Portugal. O povo em grande parte enlouqueceu. Tremo só de pensar no que diria se fosse consultado sobre o Código Penal, o Tratado de Maastricht, a política de imigração ou qualquer outra grande questão nacional. O que mais me assusta é o povo em armas, egoísta, xenófobo e prepotente. E maior é o susto quando há intelectuais que vão atrás dele. Ao pé do povo, os políticos são anjos. Ao pé do público, os artistas são modelos de bom gosto. Ao pé dos estudantes, os professores são todos sábios. Ao pé dos governados, até o Governo é bom.

Não se está a defender as elites. Está-se a defender a autoridade. Alguém que tenha coragem de ter mão em nós. A democracia liberal é obviamente o único sistema político que é aceitável, tem inúmeras qualidades, mas também são inumeráveis os defeitos. É, na verdade, a expressão institucional do ser humano. O pior é que os seres humanos, fora algumas excepções, são fracos, volúveis, egoístas, vaidosos, influenciáveis e maus. A única razão por que a liberdade tem de ser tão plena quanto é praticamente possível, é porque as alternativas, em vez de se limitarem a reflectir a humanidade, vão contra ela.
Se Portugal se perdeu, a culpa é nossa, mais do que quem manda em nós. Nos casos mais flagrantes de destruição, o poder político não tomou a iniciativa — fechou os olhos e, por subserviência ou suborno, tornou-se impotente, foi conivente —, deixou.

Para se ser português, ainda, temos de esquecer as facilidades abstractas, do povo, da governação, e fazer o esforço de localizar e escolher as «pessoas», aquelas que têm uma noção dos outros, das suas limitações e finitude, capazes de pensar e agir comunitariamente. São geralmente pessoas insatisfeitas e prejudicadas, perseguidas e ridicularizadas, admiradas por poucos e desprezadas ou desconhecidas da multidão, que se refugiam nas rochas duras das suas convicções, que não se cansam de exprimi-las, seja pela arte ou pela simples conversa. O povo tolera-os, mas dá-lhes um grande desconto, tornando-os inúteis, chamando-lhes líricos. Do que o povo gosta é de bajuladores. De quem diga que os portugueses são um grande povo e Portugal uma grande pátria e que, fora alguns ajustes, tudo há-de melhorar dentro de momentos. E, quando digo povo, incluo obviamente todos os portugueses.

Para se ser português é preciso, ainda, é preciso escolher, dizer, ouvir e fazer. Alguém há-de perceber. Não é fácil. Mas tem de se fazer um esforço. Tem de se ter consciência de que cada um teve uma parte na destruição, por indiferença ou ignorância, tanto faz.
Para se ser português, ainda, é preciso querer ser português outra vez. No meio de tantos males, só resta concluir e dizer, em voz alta: Ainda bem.

Miguel Esteves Cardoso, in 'Explicações de Português'
 
Retirado de Citador
13
Out16

Bob Nobel, nem menos - MIGUEL ESTEVES CARDOSO

olhar para o mundo

Bob Nobel, nem menos

Dylan inventou um mundo cheio de personagens, histórias e encantamentos, denúncias, crenças e fantasmas.

 

Bob Dylan merece o prémio Nobel da literatura. Bob Dylan escreve ensaios, ficção e poesia há mais de meio século. Inventou um mundo cheio de personagens, histórias e encantamentos, denúncias, crenças e fantasmas.

Desde que Christopher Ricks defendeu Dylan como um grande autor da literatura mundial que há outros críticos académicos que se divertem a fazer pouco de Ricks. Mas a verdade é que Ricks foi o primeiro a ter a coragem de reconhecer o génio de Bob Dylan.

Dantes toda a literatura se dividia em categoriazinhas de merda – canções, contos, ensaios, reportagens, ficções, peças teatrais, poesia. O júri do Nobel tem feito o enorme favor de voltar a confundir tudo. No ano passado deu o prémio à jornalista Svetlana Alexievich, uma grande escritora que utiliza as entrevistas como matéria-prima para construir textos empolgantes sobre a condição humana.

Está fora de moda falar na eternidade mas tanto Alexievich como Dylan serão imortais. Escrever é escrever. Um mau poeta será sempre pior do que um bom jornalista. Dylan é inegavelmente um grande escritor. A Academia sueca está a usar o Prémio Nobel para restaurar a literatura. Tomara que regresse à literatura oral. As histórias que não são escritas também podem ser grandes e imortais.

A obra de Dylan – que é caoticamente desigual, havendo coisas terríveis ao lado de obras-primas – é uma gloriosa colecção de todas as tradições literárias da humanidade, desde os trovadores aos cantores de blues, desde os contos de fada às orações.

Finalmente temos um Nobel à altura de Dylan.

 

Miguel Esteves Cardoso no Público

29
Set16

Miguel Esteves Cardoso - Ser Português é Difícil

olhar para o mundo

 

 

Ser Português é Difícil

 

Os Portugueses têm algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso país e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou «culpa de sermos portugueses». Não queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta miséria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses têm o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor país do mundo. Se lhes perguntarmos “Qual é actualmente o melhor e o maior país do mundo?”, não arranjam resposta. Nem dizem que é a União Soviética nem os Estados Unidos nem o Japão nem a França nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem só, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: «Podia ter sido Portugal...» E isto que vai salvando os Portugueses: têm vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas «também não vão ao ponto de quererem ser outra coisa».

Revela-se aqui o que nós temos de mais insuportável e de comovente: só nos custa sermos portugueses por não sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo não é aquele de quem diz “Portugal é o melhor país do mundo” (esse é simplesmente parvo ou parvamente simples), mas, sim, de quem acredita, inocentemente, que Portugal «podia ser» (ou ter sido) o melhor país do mundo e (eis a parte fundamental, que separa os insectos dos cicofantas) «tem pena que não seja», uma pena daquelas que ardem para toda a vida nos peitos profundos das pessoas boas.

Ser português não é nem a sorte com que sonhamos (não queriam mais nada — nascer logo uma coisa boa!) nem o azar com que vamos azedando. Ser português é um «jeito que se aprende». Não é coisa que vá à bruta ou à má fila. Não é bem que vá a bem (precisa de ser ajudado), mas também não é mal que vá à bruxa. Ser português não é tanto ser feito à imagem de Deus, como os outros povos (todos eles felizes), como estar, à partida, «feito». Cada vez que nasce um ser humano e olha para o bilhete de identidade e verifica que calharam os pedregulhos e os pêsames da portugalidade, diz logo “Pronto — estou feito — sou português”. Devia ter juízo. A única coisa que o absolve é ter, também, razão.

Ser português é «difícil». O resto do mundo não compreende que os Portugueses são especiais, diferentes, bastante giros, bem-educados, antigos, espertos, casos sérios. O resto do mundo acredita sinceramente que o mundo seria exactamente o mesmo sem os Portugueses. Para a grande maioria da população da Terra, a própria «existência» de Portugal é uma surpresa. E não se julgue automaticamente que se trata de uma grande surpresa ou, sequer, de uma surpresa «boa». É mais uma surpresa do género “Ah, sim?”. Como quem aprende que o «baseball» teve origem nos «rounders ingleses». Ah, sim? Que giro! Agora sai da frente do televisor que eu quero ver se este Babe Ruth era tão bom como diziam. Para o resto do mundo, os feitos dos Portugueses não pertencem à história fundamental do Universo. Pertencem, quando muito, à secção dos passatempos, do “Não me digas!” e do “Acredite se quiser”. Ser português é um ser delicado. Ser português não é «ser humano». É ser que tem muito para fazer só para ser «vivo».

Os políticos dizem que é preciso andar para a frente, modernizar, desenvolver, «mudar» Portugal, presumivelmente para melhor, porque este (nisto estão todos de acordo) não presta. Os poetas sonham com países que nunca existiram ou existirão, ou que já existiram e jamais existirão outra vez. Ninguém está contente com o que é, ou com onde está, ou com o que tem. Os Portugueses, o povo, a nação, os ditos, os implicados, envolvidos e lixados, esses nem ideia têm ou fazem — para eles a própria noção de Portugal foi um raio de ideia para começar. Mas o que é preciso não é nem tão drástico nem tão espectacular. O que é preciso é «continuar» Portugal.

Continuar Portugal não é uma acção delicada, ou uma campanha urgente, ou uma tarefa que exija o sacrifício de todos os cidadãos. É simplesmente continuar a perguntar, a barafustar, a amaldiçoar o dia em que se nasceu desta cor, nesta pele, com este coração mole e fácil de apertar e espremer. Continuar Portugal é acreditar que a vida seria pior sem ele, pior se a Europa começasse pela Espanha, pior se fôssemos suíços ou belgas ou finlandeses. Continuar Portugal é ser português e dizer “Pronto, que se lixe, o que é que eu hei-de fazer?”. E acreditar na diferença que faz a nossa maneira de ser, e de sermos portugueses, como um cardiologista acredita que o coração foi feito para continuar a bater.
E foi. E, o que é mais engraçado, continua!

Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'

 

Retirado de Citador

09
Set16

Ricardo Araújo Pereira - Miguel Esteves Cardoso

olhar para o mundo

 

 

Eis um elogio da realidade humana: não há nenhum livro ou filme que nos faça rir tanto – até magoar o estômago e doer-nos, torcendo-nos os intestinos, as cordas vocais da garganta e os aparelhos de captação de oxigénio dos pulmões – como as brincadeiras que fazemos e dizemos entre nós.

 

O nosso riso dá-nos pontadas; corta-nos a respiração; desmancha-nos as caras. Tapamo-las com uma mão para não rebentar. É um dos prazeres de ser humano.

 

Já para chorar não há nada como os livros e os filmes. Os filmes – que são obras de arte mais fáceis e inferiores do que as obras escritas – fazem-nos chorar mais, quando são bem feitos, do que as obras-primas da literatura.

 

O riso é a coisa mais difícil que há entre estranhos (escritor e leitor; comediante e espectador) e a mais fácil entre familiares. Conclui-se, logo à partida, que o riso público é uma conquista épica. É David, depois de ter ganho a Golias, conseguir fazer rir a família e o público faccioso de Golias.

 

O choro, como o bocejo, é contagiante. O riso, como a batata doce, é uma partilha de cumplicidades. Chorar é público. Rir é particular. E por isso que conseguir que se ria pública e colectivamente é um feito glorioso e irrelevante.

 

Cada novo livro de Ricardo Araújo Pereira é disputado, lido e relido na nossa casa. Como escritor, comediante, actor e pensador, o Ricardo Araújo Pereira é o contrário de um estraga-prazeres: é um espalha-prazeres do melhor que há.

 

Miguel Esteves Cardoso

 

Retirado do Público

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