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Pontos de Vista

Porque tudo na vida tem um ponto de vista

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28
Abr16

Carlos Castán - Os Anos Perdidos por Vir

olhar para o mundo

carlos-castan.jpg

 

Os Anos Perdidos por Vir

O pior não era compreender de repente que aquela que eu considerara durante tanto tempo a peça mais importante no quebra-cabeças da minha biografia se desprendera de mim naturalmente, da noite para o dia, com essa facilidade que fere, mas entrever pela primeira vez que quando algo ou alguém nos dá mesmo cabo da vida isso é definitivo: costumamos pensar nos anos perdidos sempre em relação ao tempo que ficou para trás, mas o verdadeiramente terrível são os anos perdidos por vir. Venha o que vier, virá mais pálido e mais fraco, se é que não nascerá já morto. Agora via claramente a enorme fragilidade do que até pouco antes se apresentava aos meus olhos como indestrutível. Não me doía estar só mas a certeza de que, de uma maneira ou de outra, o estaria sempre dali em diante, na medida em que qualquer mulher que no futuro quisesse aproximar-se de mim, por muito nua que viesse, por transparente que fosse o seu olhar, eu não conseguiria vê-la senão como a desconhecida indiferente e desmemoriada que sem dúvida se tornaria, mais tarde ou mais cedo, uma estranha fingindo que tanto fazia, que eu nunca fora nada, caminhando por passeios opostos na minha própria cidade, entrando e saindo de bares e lojas que frequento, passando ao largo diante da minha porta sem sequer disso se aperceber; alguém para quem um dia terei morrido sem ter morrido como morri agora sem funeral, sem terra, sem nada, numa assimétrica despedida em que o luto é apenas de quem parte: todas as lágrimas estão dentro do caixão, fora do ataúde não há nenhuma, ali a primavera ruge com uma pantera com o cio e o tempo que resta parece o de uma festa prestes a começar.
E às vezes é duro morrer, sobretudo quando por detrás dessa fronteira escura, do outro lado da rede de arame estendida nas trevas, em vez do alívio do nada, o que nos espera são outra vez os dias e o cansaço, os trabalhos, o ar doendo dentro do peito. Ir-se e continuar a estar, isso é o insuportável, estar mas ter ido.

Carlos Castán, in 'Má Luz'
 
retirado de Citador

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