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Porque tudo na vida tem um ponto de vista

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18
Jul15

Pablo Neruda - A Minha Poesia

olhar para o mundo

 

A Minha Poesia

A minha poesia e a minha vida fluíram como um rio americano, como uma torrente de águas do Chile, nascidas na intimidade profunda das montanhas austrais e dirigindo sem cessar para uma saída marítima o movimento do caudal. A minha poesia não rejeitou nada do que pôde transportar nas suas águas. Aceitou a paixão, desenvolveu o mistério, abriu passagem nos corações do povo.

Coube-me sofrer e lutar, amar e cantar. Tocaram-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota, provei o gosto do pão e do sangue. Que mais quer um poeta? Todas as alternativas, do pranto até aos beijos, da solidão até ao povo, estão vivas na minha poesia, reagem nela, porque vivi para a minha poesia e porque a poesia sustentou as minhas lutas. E se muitos prémios alcancei, prémios fugazes como borboletas de pólen evasivo, alcancei um prémio maior, um prémio que muitos desdenham, mas que, na realidade, é para muitos inatingível.

Consegui chegar, através de uma dura lição de estética e rebusca, através dos labirintos da palavra escrita, à altura de poeta do meu povo. O meu prémio maior é esse — não os livros e os poemas traduzidos, não os livros escritos para descreverem ou dissecarem as palavras dos meus livros. O prémio foi aquele momento fundamental da minha vida, no fundo do vale de Lota, ao sol pleno na nitreira abrasada, quando um homem subiu da cova aberta na escarpa como se emergisse do Inferno, com a cara alterada pelo trabalho esmagador, os olhos avermelhados pela poeira, e, estendendo-me a mão calejada, uma mão com o mapa da pampa nas suas durezas e nas suas rugas, me disse, de olhos brilhantes: «Conhecia-te desde há muito tempo, irmão.» São estes os louros da minha poesia — esse buraco na pampa terrível do qual sai um operário a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile lhe disseram muitas vezes: «Não estás sozinho; há um poeta que pensa nas tuas dores.»

Entrei para o Partido Comunista do Chile em 15 de Julho de 1945.

Pablo Neruda, in "Confesso que Vivi"
 
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