Quinta-feira, 28 de Abril de 2016

Carlos Castán - Os Anos Perdidos por Vir

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Os Anos Perdidos por Vir

O pior não era compreender de repente que aquela que eu considerara durante tanto tempo a peça mais importante no quebra-cabeças da minha biografia se desprendera de mim naturalmente, da noite para o dia, com essa facilidade que fere, mas entrever pela primeira vez que quando algo ou alguém nos dá mesmo cabo da vida isso é definitivo: costumamos pensar nos anos perdidos sempre em relação ao tempo que ficou para trás, mas o verdadeiramente terrível são os anos perdidos por vir. Venha o que vier, virá mais pálido e mais fraco, se é que não nascerá já morto. Agora via claramente a enorme fragilidade do que até pouco antes se apresentava aos meus olhos como indestrutível. Não me doía estar só mas a certeza de que, de uma maneira ou de outra, o estaria sempre dali em diante, na medida em que qualquer mulher que no futuro quisesse aproximar-se de mim, por muito nua que viesse, por transparente que fosse o seu olhar, eu não conseguiria vê-la senão como a desconhecida indiferente e desmemoriada que sem dúvida se tornaria, mais tarde ou mais cedo, uma estranha fingindo que tanto fazia, que eu nunca fora nada, caminhando por passeios opostos na minha própria cidade, entrando e saindo de bares e lojas que frequento, passando ao largo diante da minha porta sem sequer disso se aperceber; alguém para quem um dia terei morrido sem ter morrido como morri agora sem funeral, sem terra, sem nada, numa assimétrica despedida em que o luto é apenas de quem parte: todas as lágrimas estão dentro do caixão, fora do ataúde não há nenhuma, ali a primavera ruge com uma pantera com o cio e o tempo que resta parece o de uma festa prestes a começar.
E às vezes é duro morrer, sobretudo quando por detrás dessa fronteira escura, do outro lado da rede de arame estendida nas trevas, em vez do alívio do nada, o que nos espera são outra vez os dias e o cansaço, os trabalhos, o ar doendo dentro do peito. Ir-se e continuar a estar, isso é o insuportável, estar mas ter ido.

Carlos Castán, in 'Má Luz'
 
retirado de Citador

publicado por olhar para o mundo às 09:13
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Sexta-feira, 4 de Dezembro de 2015

Carlos Castán - Tremo Sempre Diante do Amor

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Tremo Sempre Diante do Amor

Nadia, deves ter visto a falta de jeito com que no último momento te pedi o número do telefone e este endereço de correio eletrónico para onde te escrevo, e deves ter-te apercebido também da peregrina desculpa: os dois sabemos que podes conseguir de mil outras maneiras diferentes 05 livros que fiquei de te emprestar. Há-os em muitos lados. Toda a gente os tem. Pode até acontecer que já façam parte da tua biblioteca há anos e que neste momento estejas a olhar as suas lombadas da cadeira onde estás sentada enquanto me lês; e também pode acontecer, na realidade não me admiraria nada, que seja eu quem não os tem nem os teve nunca. Durante o jantar não conseguia tirar os olhos de ti, mas isso já tu sabes. Perante isso, apenas posso esperar que o resto dos comensais, especialmente os teus amigos, não se tenham apercebido de até que ponto me eram indiferentes as restantes pessoas e conversas. Como viste, tenho já um longo caminho percorrido. Sou um homem com passado, como se costuma dizer, embora isso não faça com que seja mais fácil para mim escrever uma carta como esta. Porque isto é uma carta, não é verdade? Por mais que chegue a ti por intermédio de umas ondas misteriosas no ar e de toda a panóplia de tomadas e de cabos, tremo sempre diante do amor. E não te assustes com a palavra que estou a usar. É a falta de outra para nos entendermos melhor, embora talvez não seja de modo algum inadequada se pensar em como tens estado a ocupar a minha cabeça desde a noite do jantar, em como regressei a casa assobiando de contente e ao mesmo tempo aterrado. Mas não tenhas medo, mesmo que agora te oferecesse a minha vida inteira, sem procurar avaliar o apetecível ou não de semelhante oferta, é evidente que do ponto de vista da quantidade ia ser bastante pouco.

Em certas idades, dar a vida já ê dar apenas nada. Corrijo se preferires: tremo sempre perante a ideia de uma história que começa, tal como quando era um aluno com pouco mais de três palmos de altura, como sucede nesta noite em que te escrevo, já velho, com pelos nos nós dos dedos e uns óculos sem os quais não veria nada diante do nariz, operado a uma montanha de coisas, meio apodrecido por dentro. Especialmente tremo quando, como agora, o assunto está naquela fase em que, pelo menos no papel, ainda pode ser tudo ou nada, que acabe por entregar-te o que me resta de vontade e de tempo, desde aqui até cair o pano, ou então que não te torne a ver. Sem desdenhar, como ê evidente, nenhuma das maravilhosas possibilidades intermédias que têm a ver com vires a minha casa de vez em quando ouvir música sem complicações, deixares-te cair no mesmo sofá em que agora me faltas, deixar que te dispa. Mas o caso ê que há uma moeda no ar, caindo há dias em câmara lenta, e é isso que me faz tremer e implorar a não sei que deuses que caia com aquela face que não me condene a sonhar-te apenas.

Carlos Castán, in 'Má Luz'
 
Retirado de Citador

publicado por olhar para o mundo às 09:13
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