Sábado, 13 de Junho de 2015

Carta aberta ao presidente da República

4 de Julho de 2013.

 

Exmo. Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva

Presidente da República de Portugal

 

Estas últimas 48h deixaram Portugal num verdadeiro estado de emergência nacional. Foram 48h de movimentações políticas e partidárias, provocadas por altos dirigentes que foram democraticamente mandatados pelo povo português para defenderem os superiores interesses nacionais, mas que revelaram uma irresponsabilidade difícil de compreender e aceitar por qualquer cidadão. Foram 48h em que a credibilidade internacional do nosso país foi trucidada e atirada ao chão. Os mercados financeiros internacionais voltaram a duvidar de que somos capazes de arrumar a nossa própria casa e assim caminhamos vertiginosamente para a necessidade de um segundo resgate financeiro. O povo português vê agora que os esforços que acumulou ao longo destes 2 anos (aliás… bem mais do que isso), e que levaram muitos portugueses para o desemprego e para níveis de pobreza desumanos numa sociedade desenvolvida como a nossa, não têm valor nem retorno. Em democracia é usual ouvir-se que a liberdade de um termina quando toca a liberdade do próximo. Acções políticas desta índole são efectivamente criminosas para a nossa liberdade, seja pela perda do poder de compra, pela impossibilidade de seguir uma carreira profissional, ou pelo carimbo com que cada um de nós fica cada vez que sai do país. Há um sentimento muito grande de tristeza, frustração e angústia quando vejo o meu país neste caminho. É tempo de dizer basta, romper com o que é a tradição política em Portugal e agir.

 

Sua Excelência, Presidente da República, este governo… com estas pessoas, falhou. A crise política criada por divergências internas de quem demonstrou não ser capaz de gerar consensos na sua própria equipa é demonstrativo da falta de legitimidade que sobra para governar. Pensar que Portugal vai conseguir combater os desafios sociais, políticos e económicos que se avizinham com uma coligação de remendos que não traz confiança nem ao país nem aos parceiros globais é um erro crasso. Infelizmente a incapacidade de gerar confiança e movimentar "as tropas" para um objectivo comum é algo transversal aos nossos líderes políticos actuais e Portugal não precisa e não vai aceitar uma mudança de pessoas para a mesma política. 

 

Não sou contra a política e reconheço a política como instrumento fundamental em democracia para defender o interesse dos povos. Mas é imperativo percebermos que só vamos conseguir vencer os problemas sociais e económicos que enfrentamos com os melhores. A classe política portuguesa já demonstrou estar minada com uma mediocridade partidária onde os deputados do poder apoiam tudo o que o governo faz e os deputados da oposição são contra tudo o que o governo propõe… e sempre sem um critério objectivo, sem se perceber o que são efectivamente as boas e as más propostas. Isto são comportamentos que só se interpretam percebendo que o que se passa na Assembleia da República não é um serviço ao país, mas sim um debate e um jogo pelo poder. Estamos imersos numa ditadura partidária, disfarçada de democracia, e onde a política e os centros de decisão são controlados por partidos que por sua vez estão infiltrados por pessoas de competência duvidosa, dos chamados profissionais da política, que nunca são chamados a responder pelos seus actos ao país e às pessoas que os mandataram. É isto que é imperativo mudar em Portugal. É claro que uma mudança desta magnitude exige uma credibilidade na política, que ela actualmente não tem, para que possa atrair os melhores e os que têm espírito de missão. Precisamos de uma democracia conjugada com uma meritocracia. É por isso que apelo a Vossa Excelência que, no estado de emergência em que Portugal se encontra actualmente, tenha a autoridade, lucidez e sentido de estado essenciais à principal figura da nação para chamar a si as pessoas de relevo nacional com autoridade e competência para traçar um plano político que nos leve a um caminho de prosperidade. Precisamos de uma política sóbria e que não seja extremista nem na austeridade nem nos gastos do erário público. Precisamos de uma política a que eu chamaria de "política pela positiva" onde cada lei e cada medida governamental tenha as pessoas e a sociedade como referência. Não se pode pedir um sacrifício ao povo sem que este seja informado de forma clara sobre a razão e o objectivo que se pretende alcançar com esse sacrifício. Da mesma forma, não se pode dar um incentivo e apoiar uma determinada classe na sociedade, seja a banca, os carpinteiros, as grandes empresas, os professores, …, sem existir uma explicação clara sobre a razão desse apoio e em que medida é que isso leva a um benefício global da sociedade. Só assim poderemos tornar a política transparente e levá-la novamente às pessoas. Convidar a sociedade a participar no debate político e ter um Estado aberto às orientações e sugestões do seu povo é um golpe incalculável no acesso à corrupção, aos lobbies e ao abuso de poder que tanto prejudicaram Portugal ao longo de décadas e que nos deixam hoje na cauda da Europa apesar de todos os dias conhecermos novos casos de portugueses capazes de enormes feitos em todas as áreas, das ciências às artes, do desporto à economia.

 

Sendo esta uma carta aberta, queria também dar uma palavra a todos os portugueses. Não virem as costas à política, pois é a política que todos temos que usar como instrumento de acção para definirmos e conseguirmos os nossos objectivos. Só se valorizarmos a política podemos aliar a competência e genialidade de muitos portugueses com o espírito de serviço que precisamos nos nossos líderes. É a nossa casa que temos que arrumar e essa tarefa cabe a cada um de nós. Virem-se sim contra a incompetência e a promiscuidade da política. Isso é que não pode passar em claro e desafio aqui todos os portugueses a protestarem sem fim, caso as soluções que saírem desta crise política não forem ao encontro das nossas necessidades.

 

Sua Excelência, Presidente da República de Portugal, a classe política portuguesa bateu esta semana no fundo, ultrapassando o impensável para todos os portugueses. Está nas suas mãos dar inicio a esta mudança de mentalidades, de pessoas e de definição do que queremos que Portugal seja no mundo. Eu e certamente todos os portugueses estamos cá… estaremos cá e não vergamos facilmente às dificuldades. Mas basta de incompetência, basta de abusos de poder, basta de uma justiça de interesses, basta…

 

Com os melhores cumprimentos e votos sinceros de sucesso nas decisões que se avizinham,

 

Doutor Luís Oliveira

 

Português, 31 anos. Licenciado e Doutorado em Bioquímica pela Universidade de Lisboa. Residente na Alemanha.

publicado por olhar para o mundo às 08:13
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Sábado, 17 de Janeiro de 2015

Lido por aí ... Carta aberta a um Dux

Carta aberta a um dux


Dux:

Ando aqui com esta merda entalada há já algum tempo. A ouvir as diferentes versões, a pensar nas dúvidas e a pôr-me no lugar das pessoas. Tento pôr-me no lugar dos pais dos teus colegas que morreram. Mas não quero. É um lugar que não quero nem imaginar. É um lugar que imagino ser escuro e vazio. Um vazio que nunca mais será preenchido. Nunca mais, Dux. Sabes o que é isso? Sabes o que é "nunca mais"?

A história que te recusas a contar cheira cada vez mais a merda, Dux. Primeiro não falavas porque estavas traumatizado e em choque por perderes os teus colegas. Até acreditei que estivesses. Agora parece que tens amnésia selectiva. É uma amnésia conveniente, Dux. Curiosamente, uma amnésia rara resultante de uma lesão cerebral de uma zona específica do cérebro. Sabias Dux? Se calhar não sabias. Resulta normalmente de um traumatismo crânio-encefálico. Portanto Dux, deves ter levado uma granda mocada na cabeça. Ou então andas a ver se isto passa. Mas isto não é uma simples dor de cabeça, Dux. Isto não vai lá com o tempo nem com uma aspirina. Já passou mais de 1 mês. Continuas calado. Mas os pais dos teus colegas têm todo o tempo do mundo para saber a verdade, Dux. E vão esperar e lutar e espremer e gritar até saberem. Porque tu não tens filhos, Dux. Não sabes do que um pai ou uma mãe é capaz de fazer por um filho. Até onde são capazes de ir. Até quando são capazes de esperar.

Vocês, Dux... Vocês e os vossos ridículos pactos de silêncio. Vocês e as vossas praxes da treta. Vocês e a mania que são uns mauzões. Que preparam as pessoas para a vida e para a realidade à base da humilhação, da violência e da tirania. Vou te ensinar uma coisa, Dux. Que se calhar já vai tarde. Mas o que prepara as pessoas para a vida é o amor, a fraternidade, a solidariedade e o civismo. O respeito. A dignidade humana e a auto-estima. Isso é que prepara as pessoas para a vida, Dux. Não é a destruí-las, Dux. É ao contrário. É a reforçá-las.

Transtorna-me saber que 6 colegas teus morreram, Dux. Também te deve transtornar a ti. Acredito. Mas devias ter pensado nisso antes. Tu que és o manda-chuva, e eles também, que possivelmente se deixaram ir na conversa. Tinham idade para saber mais. Meco à noite, no inverno, na maior ondulação dos últimos anos, com alerta vermelho para a costa portuguesa? Achavam mesmo que era sítio para se brincar às praxes, Dux? Ou para preparar as pessoas para a vida? Vocês são navy seals, Dux? Estavam a preparar-se para alguma missão na Síria? Enfim. Agora sê homenzinho, Dux. E fala. Vá. És tão dux para umas coisas e agora encolhes-te como um rato. Sabes o que significa dux, Dux? Significa líder em latim. Foste um líder, Dux, foste? Líderes não humilham colegas. Líderes não "empurram" colegas para a morte. Líderes lideram por exemplo. Dão o peito e a cara pelos colegas. Isso é um líder, Dux.

Não sei o que isto vai dar, Dux. Não sei até que ponto vai a tua responsabilidade nesta história toda. Mas a forma como a justiça actua neste país pequenino não faz vislumbrar grande justiça. És capaz de te safar de qualquer responsabilidade, qualquer que ela seja. Espero enganar-me. Vamos ver. O que eu sei é que os pais que perderam os filhos precisam de saber o que aconteceu. Precisam mesmo, Dux. É um direito que eles têm. É uma vontade que eles precisam. Negá-los disso, para mim já é um crime, Dux. Um crime contra a humanidade. Uma violação dos direitos humanos fundamentais. Só por isso Dux, já devias ser responsabilizado. É tortura, Dux. E a tortura é crime.

Sabes, quero me lembrar de ti para o resto da vida, Dux. Sabes porquê? Porque não quero que o meu filho cresça e se torne num dux. Quero que ele seja o oposto de ti. Quero que ele seja um líder e não um dux. Consegues pereceber o que digo, Dux? Quero que ele respeite todos e todas. Que ele lidere por exemplo. Que ele não humilhe ninguém. Que seja responsável. Que se chegue à frente sempre que tenha que assumir responsabilidades. Que seja corajoso e não um rato nem um cobardezinho. Que seja prudente e inteligente. E quero me lembrar também dos teus colegas que morreram. Porque não quero que o meu filho se deixe "mandar" e humilhar por duxezinhos como tu. Não quero que ele se acobarde nem se encolha perante nenhum duxezinho. Quero que ele saiba dizer "não" quando "não" é a resposta certa. Quando "não" pode salvar a sua dignidade, o seu orgulho ou até a sua vida. Quero que ele saiba dizer "basta" de cabeça erguida e peito cheio perante um duxezinho, um patrãozinho, um governozinho ou qualquer tirano mandão e inseguro que lhe apareça à frente. É isso que eu quero, Dux. Quem o vai preparar para a vida sou eu e a mãe dele, Dux. Não é nenhum dux nem nehuma comissão de praxes. Sabes porquê, Dux? Porque eu não quero um dia estar à espera de respostas de um cobarde com amnésia selectiva. Não quero nunca sentir o vazio dos pais dos teus colegas. Porque quero abraçar o meu filho todos os dias da minha vida até eu morrer, Dux. Percebeste? Até EU morrer. EU, Dux. Não ele.

 

Retirado de Pès no Sofá

publicado por olhar para o mundo às 14:21
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