Quarta-feira, 6 de Julho de 2016

Henry Miller no Facebook - para que servirão os livros se não nos resgatarem para a vida

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para que servirão os livros se não nos resgatarem para a vida,

se não nos levarem a dela beber com maior avidez?

 

Henry Miller

 

 


publicado por olhar para o mundo às 08:13
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Quarta-feira, 3 de Fevereiro de 2016

Henry Miller - Uma Completa Fome por Ti

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Uma Completa Fome por Ti

Anais,

Não esperes que continue são. Não vamos ser sensatos. Foi um casamento, em Louveciennes — não podes negá-lo. Voltei com pedaços de ti pegados a mim. Estou a andar, a nadar num oceano de sangue, o teu sangue andaluz, destilado e venenoso. Tudo o que faço e digo e penso tem a ver com o casamento. Vi-te como a senhora do teu lar, uma moura de cara pesada, uma negra com um corpo branco, olhos por toda a tua pele, mulher, mulher, mulher. Não consigo ver como conseguirei viver longe de ti — estas interrupções são uma morte. Como te pareceu quando o Hugo voltou? Eu continuava aí? Não consigo imaginar-te a moveres-te com ele como fizeste comigo. Pernas fechadas. Fragilidade. Doce, traiçoeira aquiescência. Docilidade de pássaro. Tornaste-te uma mulher comigo. Isso quase me aterrorizou. Não tens só trinta anos de idade... Tens mil anos de idade.

Aqui estou de volta e ainda fervilhando de paixão, como vinho a fermentar. Não uma paixão apenas da carne, mas uma completa fome por ti, uma fome devoradora. Leio no jornal acerca de suicídios e homicídios e compreendo-o perfeitamente. Sinto-me assassino, suicida. Sinto talvez ser uma desgraça nada fazer, passar o tempo à espera, encará-lo filosoficamente, ser sensato. Para onde foi o tempo em que homens lutavam, matavam, morriam por uma luva, um olhar, etc.? (Uma grafonola está a tocar aquela terrível ária da Madame Butterfly - "Algum dia ele virá!")

Ainda te ouço a cantar na cozinha — uma leve e negra qualidade na tua voz, uma espécie de gemido cubano inarmónico, monótono. Sei que estás feliz na cozinha e que a refeição que preparas é a melhor que alguma vez comemos juntos. Sei que, se te queimasses, não te queixarias. Sinto a maior paz e alegria sentado na sala de jantar ouvindo-te atarefada, com o teu vestido, como a deusa Indra, ataviado de mil olhos.

Anais, eu só achava que te amava antes; não era como esta certeza que está em mim agora. Foi isto tão maravilhoso apenas porque foi breve e roubado? Estávamos a representar um para o outro, até o outro? Era eu menos eu, ou mais eu, e tu menos ou mais tu? E loucura pensar que isto pode continuar? Onde e quando os momentos mortos começariam? Estudo-te tanto para descobrir as possíveis falhas, os pontos fracos, as zonas de perigo. Não os encontro — nem eu! Isso significa que estou enamorado, cego, cego. Ser cego para sempre! (Agora cantam "Céu e Mar" de La Gioconda.)

Vejo-te a tocar discos, um atrás de outro — os discos do Hugo. "Parlez moi d'amour." Dupla vida, duplo gosto, dupla alegria e infelicidade. Como deves estar sulcada e arada por ela! Sei tudo isso, mas nada posso fazer para evitá-lo. Desejo, na verdade, que fosse eu que tivesse de suportá-lo. Sei agora que os teus olhos estão bem abertos. Há certas coisas em que nunca acreditarás outra vez, certos gestos nunca repetirás, certas dores, suspeitas, nunca mais sentirás. Uma espécie de fervor criminoso e branco na tua ternura e crueldade. Nem remorso, nem vingança; nem dor, nem culpa. Um viver tudo, sem algo que te salve do abismo, a não ser uma esperança maior, uma fé, uma alegria que provaste, que podes repetir à vontade.

Toda a manhã estive nas minhas notas, farejando através dos registos da minha vida, pensando onde começar, como marcar o início, vendo não apenas outro livro defronte de mim mas uma vida de livros. Mas não começo. As paredes estão completamente nuas... Tinha tirado tudo antes de ter ido encontrar-me contigo. É como se me tivesse apontado para partir de vez. As manchas nas paredes salientam-se... onde as nossas cabeças descansaram. Enquanto troveja e relampeja, estou deitado na cama e atravesso sonhos desvairados. Estamos em Sevilha e depois em Fez e depois em Capri e depois em Havana. Estamos eternamente em viagem, mas existe sempre uma máquina e livros, e o teu corpo está constantemente perto de mim e o teu olhar nunca muda. As pessoas dizem que seremos infelizes, que nos arrependeremos, mas nós estamos alegres, estamos sempre a rir, estamos a cantar. Falamos espanhol e francês e árabe e turco. Somos admitidos em toda a parte e atapetam o nosso caminho com flores.

Eu digo que este é um sonho desvairado — mas é este sonho que quero concretizar. Vida e literatura combinadas, o amor o dínamo, tu com a tua alma de camaleão dando-me mil amores, ancorada sempre não importa qual a tempestade, em casa onde quer que estejamos. Nas manhãs continuando onde interrompemos; ressurreição após ressurreição. Tu confirmando-te, conseguindo a rica, variada vida que desejas; e, quanto mais te confirmas, mais me queres e precisas de mim. A tua voz tornando-se mais rouca, mais funda, os teus olhos mais negros, o teu sangue mais espesso, o teu corpo mais cheio. Uma servitude voluptuosa e uma necessidade tirânica. Mais cruel agora do que antes... Conscientemente, intencionalmente cruel. A insaciável delícia da experiência.

Henry Miller, in "Carta de Henry Miller a Anais Nin, 1932"
 
retirado de Citador

publicado por olhar para o mundo às 09:13
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Quinta-feira, 3 de Dezembro de 2015

Henry Miller - Se Pudesses Estar Comigo Vinte e Quatro horas do Dia

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Se Pudesses Estar Comigo Vinte e Quatro horas do Dia

Se pudesses estar comigo durante as vinte e quatro horas do dia, observar cada gesto meu, dormir comigo, comer comigo, trabalhar comigo, tudo isto não poderia ter lugar. Quando me vejo afastado de ti, penso em ti constantemente e isso dá cor a tudo o que eu diga ou faça. Se soubesses o quão fiel te sou! Não apenas fisicamente, mas mentalmente, moralmente, espiritualmente. Aqui não há qualquer tentação para mim, absolutamente nenhuma. Estou imune a Nova Iorque, aos meus velhos amigos, ao passado, a tudo. Pela primeira vez na minha vida, estou completamente centrado em outro ser... Em ti. Sinto-me capaz de dar tudo, sem ter medo de ficar exaurido ou de me ver perdido. Quando ontem escrevi no meu artigo que «se eu nunca tivesse ido para a Europa...», não era a Europa que tinha em mente, mas sim tu.

Mas não posso dizer isso ao mundo num artigo. Tu és a Europa. Pegaste em mim, um homem despedaçado, e tornaste-me completo. E não hei-de desintegrar-me — não existe o menor perigo disso. Mas agora vejo-me mais sensível, mais receptivo a qualquer sinal de perigo. Se te persigo loucamente, se te imploro para ouvires, se fico à tua porta e espero por ti, não é porque esteja a tentar humilhar-me. Não há qualquer humilhação para mim nesta luta para te manter. Trata-se apenas da prova de que me encontro intensamente desperto, intensamente alerta, sôfrego, profundamente sôfrego e desesperado por te fazer perceber que o meu grande amor por ti é uma coisa terrivelmente real e bela.

Outrora, eu teria restituído à mulher qualquer sofrimento que eu tivesse de suportar. Mas agora sei que este sofrimento é o resultado do meu próprio comportamento. Sei que, no momento em que algo acontece, algo injusto, isso deve ser por culpa minha. Não é culpa aquilo que sinto, mas uma profunda humildade perante o teu amor. Não duvido de ti, Anais, de qualquer maneira que seja. Deste-me todas as provas que uma mulher pode dar a um homem. Sou eu quem tem de aprender a maneira como aceitar e guardar este amor. Cometi tantos erros estúpidos... Sem dúvida que hei-de cometer mais erros estúpidos. Mas não estou a regredir. Cada novo dia parece levar-me a um nível mais elevado. Ergueste-me até às alturas. Mantém-me lá, imploro-te.

Pensei em dizer-te isto ao telefone, mas acabo por ficar sempre tão perturbado... «Anais, não sou capaz de andar pela rua mergulhado em aflição. Não está certo. Tenho tanto para fazer e não quero destruir-me, nem uma pequena parte de mim. Tudo o que tenho é precioso e tenho tentado manter isso, de modo a poder oferecer-to».



Henry Miller, in "Carta de Henry Miller a Anais Nin, 1935"
 
Retirado de Citador

publicado por olhar para o mundo às 09:13
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Quarta-feira, 21 de Outubro de 2015

Anais Nin - Estou Cheia de Ti esta Noite

Estou Cheia de Ti esta Noite

Estou cheia de ti esta noite, Henry, e triste porque preferiria muito mais ir embora contigo. Percebi hoje, quando falaste no meu enxoval, que, relativamente a tudo o que compro, fico a pensar se tu gostarias. Não me pergunto se o meu pai gostaria. Estou terrivelmente longe do meu passado e terrivelmente perto de ti. Tocou-me que tenhas achado o café duplamente bom. Tudo será duplamente bom nas nossas férias.

Estou realmente esfomeada pelas nossas férias. Teria sido demasiado feminino da minha parte querer ver-te todos os dias, porque senti que o teu estado de espírito estava acinzentado, e eu queria que flutuasses outra vez. Não te quero torturado... nem por uma constipação!
No sábado vamos sair e escolhemos discos juntos, okay?
Envia-me a minha carta "Auto-Retrato" que eu deixei.

Lembra-te das últimas palavras de Lawrence no Apocalypse... Algo sobre estar de bem com o Sol. Que bem trará o Sol para mim? O Sol está bem para o homem, o criador, o macho cósmico, etc. A mulher é tão terrivelmente pessoal que até o Sol deve encarnar num homem. No Henry, para mim.

Anais Nin, in "Carta a Henry Miller (1933)"
 
retirado de Citador

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