Domingo, 20 de Dezembro de 2015

Dizedor - Juro que não vou esquecer, António Lobo Antunes

 

Juro que não vou esquecer...

Nunca vou esquecer o olhar da rapariga que espera o tratamento de radioterapia. Sentada numa das cadeiras de plástico, o homem que a acompanha (o pai?) coloca-lhe uma almofada na nuca para ela encostar a cabeça à parede e assim fica, magra, imóvel, calada, com os olhos a gritarem o que ninguém ouve. O homem tira o lenço do bolso, passa-lho devagarinho na cara e os seus olhos gritam também: na sala onde tanta gente aguarda lá fora, algumas vindas de longe, de terras do Alentejo quase na fronteira, desembarcam pessoas de maca, um senhor idoso de fato completo, botão do colarinho abotoado, sem gravata, a mesma nódoa sempre na manga (a nódoa grita) caminhando devagarinho para o balcão numa dignidade de príncipe. É pobre, vê-se que é pobre, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam, a mão esquelética consegue puxar da algibeira o cartãozinho onde lhe marcam as sessões. Mulheres com lenços a cobrirem a ausência de cabelo, outras de perucas patéticas que não ligam com as feições nem aderem ao crânio, lhes flutuam em torno. E a imensa solidão de todos eles. À entrada do corredor, no espaço entre duas portas, uma africana de óculos chora sem ruído, metendo os polegares por baixo das lentes a secar as pálpebras. Chora sem ruído e sem um músculo que estremeça sequer, apagando-se a si mesma com o verniz estalado das unhas. Um sujeito de pé com um saco de plástico. Um outro a arrastar uma das pernas. A chuva incessante contra as janelas enormes. Plantas em vasos. Revistas que as pessoas não lêem. E eu, cheio de vergonha de ser eu, a pensar faltam-me duas sessões, eles morrem e eu fico vivo, graças a Deus sofri de uma coisa sem importância, estou aqui para um tratamento preventivo, dizem-me que me curei, fico vivo, daqui a pouco tudo isto não passou de um pesadelo, uma irrealidade, fico vivo, dentro de mim estas pessoas a doerem-me tanto, fico vivo como, a rapariga de cabeça encostada à parede não vê ninguém, os outros (nós) somos transparentes para ela, toda no interior do seu tormento, o homem poisa-lhe os dedos e ela não sente os dedos, fico vivo de que maneira, como, mudei tanto nestes últimos meses, os meus companheiros dão-me vontade de ajoelhar, não os mereço da mesma forma que eles não merecem isto, que estúpido perguntar
- Porquê ?
que estúpido indignar-me, zango-me com Deus, comigo, com a vida que tive, como pude ser tão desatento, tão arrogante, tão parvo, como pude queixar-me, gostava de ter os joelhos enormes de modo que coubessem no meu colo em vez das cadeiras de plástico
(não são de plástico, outra coisa qualquer, mais confortável, que não tenho tempo agora de pensar no que é)
isto que escrevo sai de mim como um vómito, tão depressa que a esferográfica não acompanha, perco imensas palavras, frases inteiras, emoções que me fogem, isto que escrevo não chega aos calcanhares do senhor idoso de fato completo
(aos quadradinhos, já gasto, já bom para deitar fora)
botão de colarinho abotoado, sem gravata e no entanto a gravata está lá, a gravata está lá, o que interessa a nódoa da manga
(a nódoa grita)
o que interessa que caminhe devagar para o balcão mal podendo consigo, doem-me os dedos da força que faço para escrever, não existe um único osso que não lhe fure a pele, entende-se o sofrimento nos traços impassíveis e não grita com os olhos porque não tem olhos já, tem no lugar deles a mesma pele esverdeada que os ossos furam e me observa por instantes, diga
- António
senhor, por favor diga
- António
chamo-me António, não tem importância nenhuma mas chamo-me António e não posso fazer nada por si, não posso fazer nada por ninguém, chamo-me António e não lhe chego aos calcanhares, sou mais pobre que você, falta-me a sua força e coragem, pegue-me antes você ao colo e garanta-me que não morre, não pode morrer, no caso de você morrer eu
No caso de você e da rapariga da almofada morrerem vou ter vergonha de estar vivo.
.
António Lobo Antunes, Visão

 

publicado por olhar para o mundo às 17:13
link do post | comentar | favorito

Direitos de Autor


Todas as imagens que estão no blog foram retiradas do Facebook, muitas delas não tem referência ao autor ou à sua origem, se porventura acha que tem direitos sobre alguma e o conseguir provar, por favor avise-me que será retirada de imediato.

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.posts recentes

. Dizedor - Juro que não vo...

.últ. comentários

se pode encontrar referencias como Carlos Malato o...
Que amor e gratidão tão sentidos.Um privilégio ler...
.....nevegar?
Estou cansado de ver esta frase no Facebook atribu...
Maomé matou numa semana uma tribo inteira de judeu...
Lamento mas o texto não é de Santo Agostinhohttp:/...
Ola Jorge,Muito grata por sua pronta resposta e po...
OláJá corrigi o post e atribuí o nome correcto na ...
Olá, quero deixar registrado aqui que esta frase d...
Um grande politico.Uma grande perda para Portugal.

.arquivos

. Outubro 2018

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

.tags

. imagem

. facebook

. frases

. pensamentos

. vídeo

. música

. lyrics

. letra

. vida

. textos

. amor

. humor

. anedota

. piada

. pessoas

. mulher

. imagens do facebook

. cartoon

. felicidade

. amar

. coração

. homem

. miguel esteves cardoso

. viver

. tempo

. mia couto

. mulheres

. imagens

. poesia

. mundo

. ser feliz

. crianças

. política

. fernando pessoa

. educação

. filhos

. poema

. sonhos

. aprender

. criança

. mãe

. animais

. palavras

. pensar

. liberdade

. medo

. natal

. respeito

. silêncio

. caminho

. amigos

. pensamento

. paz

. portugal

. dinheiro

. ser

. alma

. clarice lispector

. dor

. sorrir

. josé saramago

. mafalda

. mudar

. passado

. coragem

. recados

. amizade

. desistir

. escolhas

. beleza

. morte

. ricardo araújo pereira

. falar

. fazer

. feliz

. homens

. país

. pais

. coisas

. cultura

. povo

. religião

. sabedoria

. sentimentos

. verdade

. educar

. livros

. sorriso

. chuva

. ensinar

. problemas

. saudade

. acreditar

. olhar

. osho

. pessoa

. sentir

. abraço

. adopção

. chorar

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds