Segunda-feira, 29 de Fevereiro de 2016

Luís Osório - "O meu pai"

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"O meu pai"

 

Morreu tranquilo e apaziguado, fez ontem uma semana. Na última semana viu todas as pessoas que verdadeiramente lhe interessava ver – fez-nos rir, mostrou-se feliz pelo prémio de investigação que deveria receber em Novembro, mas ao contrário de todas as outras vezes não se comprometeu com mais uma redenção.

Há vinte e sete anos, também num dia de calor, fiquei destroçado. Informou-me que talvez fosse a nossa última conversa porque lhe fora diagnosticada uma doença que se mostrava fatal e infalível no seu rasto de destruição. Nesse dia, nesses primeiros dias, deixou-se ficar por casa, afundou-se na cama do quarto de sempre, contou as horas que faltavam para iniciar a viagem para o fim. Tudo nele parecia derrota, não pelo medo da morte mas pela irremediável sensação de que não se cumprira, pela terrível ideia que desperdiçara a sua vida.


Deu a volta às gavetas. Queimou as fotografias que tinha, as suas memórias, os sinais do que julgava ser o seu falhanço. Ficou assim algumas semanas e, num dia igual aos outros, sem que conseguisse explicar porquê, saiu do quarto e jurou aos mais próximos que decidira vencer a doença. Foi aí que renasceu. Foi nesse preciso momento que começou a viagem que o faria chegar, contra todas as expectativas, a um sítio onde apenas estão os que partem de consciência tranquila.


Esta é então a história de um homem que provou não existirem impossíveis. O homem que decidiu tirar num só dia todos os dentes porque o médico lhe disse que eram potenciais focos de infecção. O que fez questão de assumir a doença publicamente para combater a discriminação. O que resistiu à toxoplasmose, tuberculose, linfoma, meningite, septicemia, hepatite. O que esteve três vezes em coma e sem muitas esperanças de sobrevivência. O que durante tantos e tantos anos tomou mais de 50 comprimidos todos os dias. O que fez todas as quimioterapias possíveis. O que aproveitou os momentos disponíveis para investigar sobre o fado, para escrever várias colecções de referência, para ganhar prémios, dirigir o trabalho de associações de combate à discriminação, coordenar acções de formação e ajudar dezenas de doentes a acreditar que na vida cada um deve lutar até ao fim e não desistir.
Esta é a história do meu pai. De quem estive afastado uma vida e que tantas vezes não compreendi, o meu pai – militante comunista, exilado em Paris, co-fundador do grupo de Teatro A Barraca e filho de Alice, a mulher da sua vida. José Manuel Osório, chamava-se. Fez ontem uma semana que partiu. Tranquilo e apaziguado.
Nos últimos anos coordenou duas monumentais colecções de fado. Em 2005, organizou a convite de João Pinto de Sousa o projecto Todos os Fados, publicado pela revista Visão. Esteve na primeira linha entre os que fundaram o Museu do Fado, coordenou as Festas da Cidade de Lisboa e tudo isso depois de estar doente – quando quase todos pensavam em surdina que não acabaria o que tinha em mãos, ele pensava na próxima ideia a concretizar.


Essa é a sua marca, o motivo pelo qual me orgulho. À sombra da desconfiança de todos os olhares e com o terrível peso de uma doença que o destruía por dentro, soube e teve a coragem de construir uma obra e o sentido que lhe faltava.
Ao contrário das outras vezes, tantas e tantas que a sua morte foi antecipada, sabia que agora o tempo se estreitara. A última vez que estive com ele a sós não me falou de nenhum projecto que quisesse terminar. Limitou-se a sorrir. Estava pronto.
O primeiro texto que escrevi foi uma cunha sua. Joaquim Benite, ao tempo chefe de redacção do jornal Diário recebeu-me a seu pedido – «o teu pai está convencido que tens talento, diz-me coisas». Escrevi dois textos: sobre o movimento skinhead e uma entrevista ao Rodrigo Leão.
A primeira vez que fui sócio do Benfica foi ele que me inscreveu. Entrei pela sua mão na sede da Rua Jardim do Regedor, onde homens jogavam bilhar e comentavam jogos da véspera. Que felicidade a minha.


O primeiro filme interdito a maiores de 18 anos vi com ele. Nessa noite a RTP anunciara o Pato com Laranja, um erótico italiano e a avó Alice pediu-lhe para me tirar de casa. Para compensar levou-me ao Roma onde estava em exibição Pink Floyd The Wall. Não me parece que, em algum momento, lhe tenha passado pela cabeça que talvez aquelas imagens fossem demasiado violentas para uma criança que ainda não completara os dez anos. E não fizeram, pai.


A primeira vez que me deitei de madrugada foi depois de uma borga com ele. O primeiro concerto a que assisti foi com ele. Apresentou-me a Cunhal, Manuel Alegre, José Mário Branco, Ferré, Chico Buarque. O ursinho com que adormecia na infância era o mesmo que o adormecia…
No 8.º ano, por força da puberdade, tive seis negativas no segundo período. Convidou-me para jantar e, como se nada fosse, perguntou-me pelas notas. Informei-o de que tudo estava bem, como podia estar mal? Impassível, sem elevar a voz, disse-me que talvez existisse um equívoco: «Esta tarde estive no liceu e pareceu-me ter visto seis negativas. Não quero saber mais nada nem falar mais disto. Mas se for verdade quero que resolvas isso. Não tenho que me preocupar, pois não?».


Numa longa conversa, publicada num livro, confessou-me que gostaria de ouvir, antes de morrer, o Com que Voz de Amália Rodrigues. Se tivesse tempo escutaria ainda Maria Callas a interpretar ‘Casta Diva’, uma ária da Norma, de Vincenzo Bellini. Jantaria um bife no Pap’Açorda e arrumaria os livros no quarto para separar os que não podiam deixar de ficar para mim.


Oiço então Amália. E termino com as suas palavras: «Os meus dois netos são um caso à parte. É natural que olhe para eles de uma forma diferente, é até natural que olhe para eles como nunca olhei para ti. Mas normalmente olho para ti quando estás distraído. Assim que percebes, desvio o olhar. Como os dois miúdos não me perguntam ‘porque estás a olhar para mim?’, olho sem qualquer preocupação. Se um dia me perguntarem, também saberei desviar o olhar».


* A última palavra gostaria que ficasse para Ana Campos dos Reis, directora de serviços de apoio ao VIH da Santa Casa da Misericórdia. Ela foi o seu anjo, ela é um anjo. E para Tozé Brito e Manuel Faria, eles sabem porquê.

 

Luís Osório

 

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Domingo, 28 de Fevereiro de 2016

Luís Osório - Só entre nós

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Só entre nós

 

Um dia não são dias – é a primeira crónica do ano e com ela partilho consigo cada um dos meus desejos. Bem, não propriamente desejos.


No final do ano, troquei-os por pensamentos. Um pouco desproporcionado, sei-o bem. Mas arrisco na certeza de que a nossa relação se estreitou; afinal, escrevo-lhe quase todas as semanas vai para dois anos, tempo suficiente.

 

A avó que me resta, a bela Alice, contou-me várias vezes a história de Américo de Oliveira. Seu padrinho e uma espécie de pai adoptivo do meu bisavô, foi figura heróica da Instauração da República e um influente das ideias carbonárias. Américo, de quem Mário Soares também é afilhado, morava na Travessa dos Lóios, no bairro do Castelo, e um dia, depois de ter almoçado carapauzinhos com açorda, virou-se para a pequena Alice e confessou-lhe: «Hoje estou convencido de que nenhum ser humano em qualquer país do mundo comeu melhor do que eu, absolutamente nenhum».

 

Além da genuína satisfação gastronómica, Américo quis também dizer que os tempos difíceis nunca serão capazes de ferir o essencial. Bastará para isso que não o deixemos. Tenho pensado nisso… basicamente o mesmo que me contou Belmiro de Azevedo numa conversa já publicada – «a sandes que comia na minha difícil infância sabiam-me tão bem ou melhor do que as refeições que pude provar nos melhores restaurantes do mundo».

 

Um ensinamento para estes tempos. Independentemente da defesa de convicções e direitos – quando isso deixar de acontecer desaparece a democracia tal como a conhecemos – saibamos saborear o que temos com um paladar de príncipes. Se o fizermos certamente será mais difícil o paladar nos azedar.

 

Atrevo-me então aos desejos. Um a um e sem qualquer critério especial. Jurei a mim próprio não pensar em nomes ou situações concretas. Nem desejar. Só pensamentos para o novo ano. Doze. Do tamanho das passas dos desejos.

 

Saiu-me assim:

 

 

 

 

Luís Osório

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Quinta-feira, 25 de Fevereiro de 2016

Luís Osório - Os Filhos dos Retornados Chegaram ao Poder

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Os Filhos dos Retornados Chegaram ao Poder

 

Em 1975, meio milhão de portugueses das colónias desembarcavam em Lisboa com uma mão à frente e outra atrás.

 

Em Angola e Moçambique, sobretudo aí, eram donos do espaço e viviam sem preocupações de tempo ou angústias financeiras. Para eles, a morte do Estado Novo trouxe-lhes o fim do paraíso e abriu-lhe as portas a um inferno que nunca poderão esquecer.

 

Para muitos, Mário Soares é a besta negra. Responsabilizam-no, mais do que a Cunhal, por exemplo, por tudo ter corrido mal. Por muito que o fundador do Partido Socialista fale no peso das circunstâncias ou na pressão internacional motivada pelo equilíbrio de poder entre americanos e russos, o certo é que poucos o ouviram ou ouvem. Quase 40 anos depois, pouco interessa a questão da culpa ou da inocência, para eles é o homem que podia ter evitado e não evitou. O réu para os que perderam tudo o que tinham. Para os que chegaram nas pontes aéreas e foram tratados como brancos de segunda, tratados como, porventura, alguns de entre eles tratavam os negros em Angola e Moçambique.

 

Retornados. Nome que é um rótulo, um peso que os marcou como ferro em brasa. Ainda assim, um processo que correu anormalmente bem – sobretudo se comparado ao que acontecera com as descolonizações francesas. As pessoas foram distribuídas por todo o território, de Norte a Sul os que a si próprios se definiam como ‘espoliados’ puderam recomeçar. Do zero, claro. E os seus filhos, pequenos ou ainda por nascer, também pagaram o preço da profunda infelicidade dos pais, um peso que certamente os terá influenciado. Para o bem e para o mal.

 

Para o mal, o ressentimento. Para o bem, a vontade de ganhar e uns horizontes mais largos do que a maioria dos que, na metrópole, haviam nascido. Habituados à terra a perder de vista estavam capacitados para ver mais longe e com maior alcance. Vários reconstruíram riquezas, montaram negócios, fizeram boas carreiras.

 

Onde quero chegar? A um ponto interessante e fundamental para balizar a nossa história contemporânea. Porque este é o tempo em que os filhos desses homens e mulheres obrigados a começar tudo de novo, filhos do ressentimento e de uma África de largos horizontes, chegaram ao poder.

 

O facto poderá ser visto por alguns como uma prova de que as feridas não estão saradas, justificando as medidas do actual Governo como uma espécie de vingança psicanalítica. Mas para outros será o ponto final parágrafo numa narrativa de sucesso, a história de 500 mil portugueses que perderam uma vida e começaram do zero numa terra que, na verdade, tantos não conheciam.

 

Para os primeiros, é a prova de que o ressentimento passa de pais para filhos. Para os segundos, a prova de que Portugal soube sarar as feridas e incorporar a força, o talento e o largo olhar dos que regressaram.

 

Os críticos terão mais um motivo para atacar porque se convencerão que é gente que deseja ajustar contas. Os que acreditam dirão que é a grande oportunidade de Portugal mudar na sua mentalidade.

 

Mudar esta tendência para que, em todas as épocas da História, as elites perguntem se existe futuro para o nosso país. Como escrevi há uns dias, num ‘postal’ para amigos: «É uma marca genética, um traço que nos distingue dos alemães, ingleses ou franceses; ao contrário deles, banhados de certezas, temos a arrogância da dúvida permanente. Somos orgulhosos, mas fazemos por escondê-lo, como se fôssemos cristãos a rezar nas catacumbas após a morte de Cristo. Quando falamos do que somos, dizemos ‘os portugueses’ e não ‘nós, os portugueses’. Somos o que somos. Umas vezes, tanto. Outras vezes, nada. Adoramos o que detestamos, odiamos o que amamos. Temos o Sol, mas inventámos o fado. Falamos de medo e partimos à conquista do mundo. Temos inveja e somos generosos. Somos uma coisa e o seu contrário».

 

A história e os cobradores de fraque decretaram-nos da urgência de mudar. A delícia da inconstância é boa para salões e crédito, e uma tragédia para quem perdeu anéis e já só tem os dedos para oferecer.

 

Nesta perspectiva, ter Pedro Passos Coelho em São Bento é uma boa notícia. Ainda não completara os dez anos quando Salgueiro Maia e os capitães de Abril impuseram o fim do Estado Novo ao compasso da voz de Zeca Afonso. Com uma infância angolana, como Miguel Relvas, viu os pais lutarem com dificuldades e sacrifício para alcançar um futuro para os seus filhos.

 

Em 1974, e no regresso dos retornados nas célebres pontes aéreas de um ano depois, ninguém daria nada por aqueles miúdos de calções e, certamente, olhar assustado. Não passavam de brancos de segunda. Ressentidos e sem futuro.

 

Afinal, o futuro revelou-se de um outro modo. Como aliás sempre acontece. Os filhos conquistaram o poder. E uma parte de Portugal, tal como aconteceu com os seus pais, grita para que desapareçam, para que tenham vergonha na cara, para que nunca mais voltem.

 

O ressentimento tem sempre múltiplas faces, está em todo o lado e não é exclusivo de ninguém em particular. É democrático. Um património de todos. Infelizmente.

 

A História é uma maravilhosa caixa de surpresas, não é?

 

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Terça-feira, 23 de Fevereiro de 2016

Luís Osório - Apenas a minha história

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Apenas a minha história

Com pouco mais de vinte anos foram viver juntas. Marcello Caetano estava no poder, mas a revolução não tardaria. Em Abril de 1974 estavam na sua casa de sempre: um apartamento com uma sala e um quarto, onde construíram uma vida e guardaram livros, discos, fotografias e memórias.


Teresa estudara Filosofia. Comunista convicta, intelectual, inclemente com as derivas burguesas, cinéfila, leitora compulsiva e amiga de José Magro e Dias Lourenço. Dentro do Partido Comunista os personagens que a interessavam eram os idealistas proletários, não os arraçados. Nascera na Chamusca, terra ribatejana.


Cristina era diferente. Comunista menos convicta, burguesa, excelente cozinheira, apaixonada pelos prazeres da vida, ávida de mundo, de bons restaurantes e boas óperas. Adorava Cunhal e Mário Soares, o que irritava Teresa. Os que a interessavam eram os que cativavam pelo olhar, os heróis ou os que eram como ela, amantes das coisas bonitas. Nascera em Kinshasa, no antigo Congo Belga. A sua família era de classe média alta, os pais tinham criadas em casa e estudara no Sagrado Coração de Maria.


Cristina adorava ver debates na televisão, mas ouvia muito mais do que falava. Teresa não via debates, preferia os filmes e séries, mas falava muito mais do que ouvia. Cristina sabia guiar e fazia-o muito bem, Teresa não tinha carta. Cristina cantava maravilhosamente e as festas em casa acabavam sempre com ela a cantar o ‘Fado do Embuçado’, Teresa ouvia-a orgulhosa. Teresa era de uma enorme coragem física, Cristina não. Mas Cristina era uma cozinheira extraordinária, Teresa ficava com as sobremesas quando lhes dava para a loucura. Teresa tratava da casa, roupa e limpezas, Cristina ficava-se pelo sofá com os jornais e revistas estendidos. Sim, estava sempre a ler jornais e os livros não a afeiçoavam. Teresa não lia jornais, apenas livros. Brilhante na retórica e impossível nas línguas, a Teresa. De retórica muito frágil, mas verdadeiramente poliglota, a Cristina.


A casa era um cubículo onde se chegaram a organizar festas para vinte pessoas. No quarto, uma cama de casal onde sempre dormiram. Confortável. E um rádio despertador que as acordava sempre com a música clássica da Antena 2. Uma grande estante com livros, a colecção completa de Saramago e Lobo Antunes, um isqueiro que parecia um microfone, matrioskas… E um livro que me iluminou a infância, Os Homens que Mudaram o Mundo. Ali aprendi que Da Vinci ‘inventara’ a Gioconda.


Até aos 15 anos passei quase todos os fins-de-semana naquela casa de bonecas. Acalmava assim que batia à porta. Não há palavras que definam o cheiro, a tranquilidade, o apaziguamento… A Cristina e a Teresa eram os meus referenciais de estabilidade, quando a tempestade parecia tudo querer levar bastava ouvi-las para que o mar revolto se transformasse num riacho de água morna.


Foi lá, numa máquina de escrever pouco usada, que escrevi o primeiro texto jornalístico da minha vida. Era lá que procurava conforto para dúvidas amorosas. Foi lá que tive a primeira crise de febre reumática – «ai Teresa tira-me estas bolas gigantes de cima das pernas», lembro-me de gritar num delírio febril. Foi com elas que vi o primeiro filme de terror, um Carrie que me obrigou a dormir na sua cama. Foi lá que aprendi a argumentar, que especulei sobre Deus e o poder, que vi Maradona a fintar meia equipa de Inglaterra no Mundial de 1986. Foi com elas que andei em manifestações. Foi naquela mesa que almocei e jantei as melhores refeições da minha vida, os melhores assados, o melhor pudim de peixe. Foi naquele sofá que li o primeiro editorial, do Augusto Abelaira creio, era ali que eu e a Zé deixávamos o André e o Miguel quando, bebés de colo, nos impediam de ir aos espectáculos ou ao cinema. Como me ralharam quando me separei. Chorei com elas e voltei a chorar na amargura de um segundo divórcio. Era a elas que a minha mãe telefonava quando não me portava bem. Foi lá.


Cristina adoeceu. O diagnóstico não podia ser mais brutal. Cancro nos pulmões e um grande combate à sua frente. Encarou com coragem a situação e Teresa prometeu-lhe que resolveriam o problema.


Dezenas de ciclos de quimioterapia. Radioterapia. Comprimidos. O cancro a invadir-lhe os ossos, tratamentos para a dor, perda de mobilidade, consultas, mudanças de terapêutica e Teresa sempre presente. Em todas as horas. Comprou-lhe bonsais. A cada uma deu um nome, falava com elas, falava por ela e pela Cristina. Deitava-a. Levantava-a. Cozinhava. Dava-lhe banho. Oferecia-lhe flores, tratava-a com um amor que nunca vi por ninguém.


Cristina acabou internada. E até ao último dia Teresa esteve no hospital. Apanhava o autocarro de manhã, voltava no autocarro à noite nos dias em que não estivesse alguém da família. Sem uma única falta. Sempre ao seu lado, nos dias de inconsciência, nos mais animados, em todos. Enfermeiros comentaram, médicos e auxiliares a mesma coisa. A sua dedicação foi total. Absoluta. Sem reticências.


A Cristina morreu. E a Teresa regressou ao lugar onde nascera. Vive com as memórias de uma vida que está amputada de uma parte de si. Creio que espera.


A Cristina era a irmã mais velha de meu pai, tia de sangue. A Teresa, a tia mais importante que tive. Uma e a outra eram o resultado do complemento das duas, não existiam sozinhas. Nunca pensava «vou para a minha tia». Elas eram as minhas tias. Construíram uma vida e ajudaram a criar-me. De todas as relações que tive, relações de afecto, familiares, foi a mais estável. A que mais me fez bem.


Por estes dias, achei por bem partilhá-lo. Sem juízos de valor ou panfletos, apenas partilhar o que em mim é silêncio e gratidão.

 

Luís Osório

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Segunda-feira, 8 de Fevereiro de 2016

Luís Osório - A mulher da minha vida

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Soube da sua morte pelo telefone. Chorei como se as lágrimas pudessem durar para sempre; ao fim de um longo tempo julguei que elas nunca mais deixariam de me correr. Mas as lágrimas terminam como tudo o resto, como a vida dos que amamos e nos fizeram, para o bem e para o mal, ser estes. Que me fizeram ser este.

 

A avó Joaquina, mãe da minha mãe. Teria feito 100 anos no princípio desta semana. Teríamos celebrado com um bolo de chantilly e três velas se aquele telefonema não tivesse existido ou eu não o tivesse atendido – pergunto-me bastas vezes se fiz bem em fazê-lo, se porventura poderia ter evitado a sua morte se o preferisse ter ignorado, se não lhe tivesse dado importância. A partir daí mantive-o em silêncio. Na maior parte das vezes, quanto muito, vibra sem tocar.

 

Foi, num certo sentido, a mulher da minha vida.

 

Tinha a quarta classe mal tirada. Nascera nas Mouriscas, terra de Abrantes, e aprender a ler e contar era menos importante do que fazer-se à vida. Aprendeu a costurar numa máquina com um pedal, fazia soutiens que depois levava ao patrão. Recordo-me bem. Apanhávamos o 9 em Campo de Ourique, descíamos à Estrela, passávamos pelo Largo do Rato, descíamos ao Marquês de Pombal e atravessávamos a Avenida da Liberdade até alcançar os Restauradores. O patrão trabalhava aí, num prédio alto ao lado do Hotel Avenida, subíamos vários andares num elevador que imaginei num filme de Orson Welles. As meninas faziam-me uma festa enquanto o patrão recebia os soutiens e lhe dava notas em troca. A avó guardava-as no seu porta-moedas. Fazíamos o caminho de volta. Nunca mais haveria de ser tão feliz. Só que não o sabia.

 

O cheiro do pastelão de ovos ou do frango de fricassé. Tantas vezes ainda o sinto, como se ela tivesse regressado de uma longa viagem, estivesse na cozinha e me fosse outra vez chamar para vir para a mesa.

 

Chamava-me Miguel. Como toda a família que já existia antes de mim; assim me reconhecia. Após a sua partida, e da morte de minha mãe, passei a ser outro nome, o Miguel deixou de existir.

 

Levava-me um pão embrulhado num pano ao recreio da escola primária. E acordava-me nas manhãs com um pequeno-almoço que me pousava na cama. Aos fins-de-semana comprava-me o jornal desportivo e nunca se esquecia de me despertar com um beijinho. Quando comecei a sair era com o seu dinheiro – de três em três meses oferecia-me mil escudos que gastava religiosamente em livros e numas cervejas.

 

A primeira vez que me apaixonei foi ela quem me deu o dinheiro para o jantar. E no rescaldo da tragédia foi ela a tranquilizar-me. A menina achava-me graça mas não a suficiente. Convenceu-me então que os grandes amores ainda estavam para vir. Assim como os grandes projectos.

Morreu a 13 de Setembro de 2000. E o funeral celebrou-se no dia em que fiz 29 anos. Na semana anterior quis ver-me, tinha coisas para serem ditas, não desejava ir embora sem mas dizer. Ouvi-a. Informou-me que não ia durar muito, estava cansada e, mais do que nunca, a sua cabeça estava cheia de imagens de infância, como se sentisse que já não pertencia a este tempo, mas a outro que não entendia bem. Não mo disse nestas palavras, interpretei-as assim e quando as recordo é assim que as recordo.

 

Queria despedir-se. Dizer-me que guardara para mim o dinheiro que juntara na sua vida. Para mim, para a Zé e para o André que acabara de fazer dois anos. Deu-me o seu porta-moedas. Dentro dele estavam vinte contos: a maior fortuna que poderia ambicionar. Guardei-o como a mais preciosa das jóias. A única coisa que verdadeiramente me pertence, que sinto me pertence.

A avó faria 100 anos.

 

Não assistiu à morte dos seus dois filhos. Não viu nascer o irmão do André, o meu segundo a quem baptizámos de Miguel em homenagem ao amor incondicional que sentia por mim. Não me viu em divórcios, o que lhe teria sido pesado.

 

Uma mulher extraordinária. Que me ensinou o valor das coisas que não se têm de dizer. Que se sacrificou por mim como se a sua vida não fosse importante, só a minha. Por isso, cada coisa que faço, penso ou sinto é nela que esbarro – no que não comeu para que eu comesse, no que não viveu para que eu vivesse, no que não sentiu para que eu sentisse.

 

Um dia, num livro de pensamentos, escrevi: «Uma família empurrava um carro em plena avenida – já não lhes bastava a crise, as arrelias e o preço da gasolina, agora também o motor. Há alturas em que um pequeno problema, somado a um mundo de outras angústias, é capaz de desencadear uma tempestade perfeita. A imagem fez-me regressar a uma madrugada em que, numa esquina perigosa, empurrei um automóvel com a avó Joaquina lá dentro. É a ela que volto quando alguém empurra carros em pequenas ruas ou largas avenidas. Nunca perco a oportunidade de olhar lá para dentro – as pessoas não imaginam que procuro o sorriso de uma avó de quem tenho tantas saudades».

 

É isso, só isso. O resto é silêncio. Por vezes, ruidoso. Noutras, um mar calmo. 

 

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