Terça-feira, 27 de Outubro de 2015

Bruno Nogueira fala sobre Luaty Beirão

 

Luaty Beirão vai morrer por uma causa que já não será dele. É isso que faz um homem crescer a herói.


Ele é a cara e o corpo da coragem, num país onde a coragem se paga cara.


A democracia portuguesa assiste tímida e refém, com os ouvidos moucos, a um fim anunciado. A surdez vem do dinheiro. Vem sempre, mas aqui faz-se ouvir mais.


A falta de acção e cobardia de quem nos devia representar envergonha-nos a todos. Outra vez.


Luaty Beirão está disposto a deixar uma mulher, uma filha e o resto das vidas para que a justiça cumpra a justiça. Parece pouco, mas é tudo.

 

Quer aguardar em liberdade, depois da detenção sem mandado ter ido para além dos 90 dias previstos na lei angolana. A lei não cumpre a lei. E agora? Agora nada.


Quer ter o direito a ler e a pensar. Quer o impossível: que o governo angolano aceite que pensar e não gostar não mata. O que mata é calar.


O governo Angolano não vai ceder. Vai usá-lo como exemplo para quem ouse o mesmo.


Luaty Beirão e os seus 14 companheiros conseguiram com um livro o que José Eduardo dos Santos não consegue à força: o respeito do mundo.


Luaty Beirão não vai morrer mas, se tudo correr mal, já não estará cá para o saber.

 

Bruno Nogueira no Facebook


publicado por olhar para o mundo às 09:13
link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 20 de Outubro de 2015

Carta aberta ao presidente de Angola

luaty.jpg

 

 

Carta aberta ao presidente de Angola


Senhor Presidente:


Ao mandar prender Luaty Beirão e os 14 ativistas, que estão até agora encarcerados sem culpa formada, não devia saber que um homem se quiser pode resistir e sobreviver vitoriosamente a qualquer forma de opressão.


Não devia saber porque se esqueceu. Esqueceu que já foi jovem, que já lutou por ideais. Ideais de liberdade de democracia e bem-estar social. Esqueceu tudo porque infelizmente o seu país é o exemplo contrário de tudo isto. É uma ditadura cruel, um valhacouto de ladrões, uma associação de interesses mesquinhos, melhor dizendo, um país sem povo. Quem lho afirma é alguém que durante dez anos esteve preso, sobreviveu às greves de fome e à tortura. Esta é a afirmação de um homem que esteve disposto a morrer por aquilo em que acreditava. E digo-lhe que um homem pode ser triturado pela máquina do terror que a sua condição de homem sobrevive, pois todo o homem pode manter-se vivo enquanto resistir.


A luta dos jovens angolanos é um libelo contra a opressão como forma de vida política, contra o silêncio das mordaças, contra todos os processos de aviltamento dos seres humanos, contra a corrupção ideológica. A luta dos jovens angolanos é a constatação de como o arbítrio avilta os indivíduos e as instituições, corrompendo-os pelo abuso do poder, pela falsa certeza da impunidade, pela imposição imoral de uma vontade sem limites, pelo silêncio indigno, pela conivência criminosa, pela omissão filha do medo, em que o silêncio do terror tem que ser aceito como paz social.


Se me atrevo a dizer-lhe tudo isto é porque Angola fez parte do meu ideário político e das minhas preocupações revolucionárias e muitos revolucionários angolanos foram meus amigos. Quando parti de Portugal para o Brasil devia ter partido para Angola, mas já nesse tempo as condições da minha ida não foram possíveis, devido às minhas ligações com a resistência angolana. No Brasil, colaborei com a resistência angolana e fui seguindo os seus passos como pude a té porque eu já estava umbilicalmente ligado à resistência brasileira. Mesmo assim, à minha única filha, coloquei o nome de Luanda.


Senhor Presidente, é tempo de não se deixar enredar por intrigas palacianas, por intrigantes gananciosos, por saqueadores de todo o tipo. Quando esse saque acabar o único responsável será o senhor. Se tiver ainda um momento de reflexão possível recorde-se dos seus tempos de jovem quando a revolução do seu país lhe ocupava a sua força, a sua inteligência e todas as suas capacidades. O tempo em que provavelmente era feliz.


Como sabe, o poder tanto pode chegar aos que dele abusarão como àqueles que o usarão com legitimidade a favor dos seus povos. Mas só os poderosos podem ser magnânimos, cometer actos que aos outros mortais não são possíveis Tem agora tempo de ser magnânimo: retire os presos da prisão, ouça-os e depois peça-lhes desculpa. Eles merecem.


Lisboa, 18 de Outubro de 2015
Alípio de Freitas

 

Retirado do Facebook 


publicado por olhar para o mundo às 09:13
link do post | comentar | favorito
Quinta-feira, 15 de Outubro de 2015

Ondjaki - OitoDeOutubroDeDoisMil_e_Quinze

luaty.jpg

 

Imagem de aqui 

 

OitoDeOutubroDeDoisMil_e_Quinze

...
...

um jovem preso não sabe distinguir o amarelo dos dias

das dores ácidas do estômago nas poucas lembranças que lhe seguram aos dias

"que dias são estes...?", insiste a voz de dentro, um pequeno átomo de força inventa animosidade, rebenta e se esgota, faz o jovem mover os pés em direcção a muito perto, caminha não por exercício, mas porque o ruído dos pés lhe quer lembrar que talvez ainda esteja vivo

a boca tão parada, tão dentro, os tremores no peito, aflitivos, uma espécie de falta de ar, uma espécie de desespero intermitente, ora dói aqui, ora dói ali, "melhorar procurar onde não dói...", nestes dias absurdos onde até os olhares e os sorrisos de quem o vê, são vistos sob uma perturbadora falta de nitidez

restos de afecto, as vozes, as notícias, "há um mundo lá fora" dizem as vozes que seriam para animar, um jovem preso não sabe distinguir nessas vozes o que é amarelo o que é cinza, quer ouvir, quer saber, mas o pior fogo é sempre o de dentro, a ténue fronteira entre convicções e pedidos, o martelar da dúvida que ontem o assaltava e hoje não tem espaço para o assaltar;

o ácido parte do estômago, traz a dor, anula vozes, enriquece um delírio de baixa intensidade, "será que te recordarás dos sonhos...?", nunca as horas foram tão longas ou duras ou a respiração lhe soube tão mal na boca, põe os pés no chão e invoca esse átomo de força para causar um ruído

espécie de canção de embalar, dele para ele mesmo, o gesto lento da mão na parede ("outro ruído... talvez ainda esteja lúcido..."), um jovem invoca todos os minúsculos pedaços da voz da mãe, tenta compôr uma frase, uma que fosse, com essa voz emprestada, materna, que lhe servisse de embalo

e fecha os olhos no seu escuro, e já não sabe dizer se o escuro é escuro, e já não sabe dizer em que corpo adormece nem pode prometer, a ninguém, em que corpo acordará

invoca (inventa?) o último sopro de um átomo de força e tenta, com um qualquer resto de amarelo, deixar-se adormecer;

...

se sonha, é com os pés da sua filha.

 

Ondjaki

 

Retirado do Facebook de Ondjaki


publicado por olhar para o mundo às 09:13
link do post | comentar | favorito

Direitos de Autor


Todas as imagens que estão no blog foram retiradas do Facebook, muitas delas não tem referência ao autor ou à sua origem, se porventura acha que tem direitos sobre alguma e o conseguir provar, por favor avise-me que será retirada de imediato.

.mais sobre mim

.pesquisar

 




Direitos de Autor


Todas as imagens que estão no blog foram retiradas do Facebook, muitas delas não tem referência ao autor ou à sua origem, se porventura acha que tem direitos sobre alguma e o conseguir provar, por favor avise-me que será retirada de imediato

.posts recentes

. Bruno Nogueira fala sobre...

. Carta aberta ao president...

. Ondjaki - OitoDeOutubroDe...

.últ. comentários

se pode encontrar referencias como Carlos Malato o...
Que amor e gratidão tão sentidos.Um privilégio ler...
.....nevegar?
Estou cansado de ver esta frase no Facebook atribu...
Maomé matou numa semana uma tribo inteira de judeu...
Lamento mas o texto não é de Santo Agostinhohttp:/...
Ola Jorge,Muito grata por sua pronta resposta e po...
OláJá corrigi o post e atribuí o nome correcto na ...
Olá, quero deixar registrado aqui que esta frase d...
Um grande politico.Uma grande perda para Portugal.

.arquivos

. Outubro 2018

. Novembro 2017

. Outubro 2017

. Setembro 2017

. Agosto 2017

. Julho 2017

. Junho 2017

. Maio 2017

. Abril 2017

. Março 2017

. Fevereiro 2017

. Janeiro 2017

. Dezembro 2016

. Novembro 2016

. Outubro 2016

. Setembro 2016

. Agosto 2016

. Julho 2016

. Junho 2016

. Maio 2016

. Abril 2016

. Março 2016

. Fevereiro 2016

. Janeiro 2016

. Dezembro 2015

. Novembro 2015

. Outubro 2015

. Setembro 2015

. Agosto 2015

. Julho 2015

. Junho 2015

. Maio 2015

. Abril 2015

. Março 2015

. Fevereiro 2015

. Janeiro 2015

.tags

. imagem

. facebook

. frases

. pensamentos

. vídeo

. música

. lyrics

. letra

. vida

. textos

. amor

. humor

. anedota

. piada

. pessoas

. mulher

. imagens do facebook

. cartoon

. felicidade

. amar

. coração

. homem

. miguel esteves cardoso

. viver

. tempo

. mia couto

. mulheres

. imagens

. poesia

. mundo

. ser feliz

. crianças

. política

. fernando pessoa

. educação

. filhos

. poema

. sonhos

. aprender

. criança

. mãe

. animais

. palavras

. pensar

. liberdade

. medo

. natal

. respeito

. silêncio

. caminho

. amigos

. pensamento

. paz

. portugal

. dinheiro

. ser

. alma

. clarice lispector

. dor

. sorrir

. josé saramago

. mafalda

. mudar

. passado

. coragem

. recados

. amizade

. desistir

. escolhas

. beleza

. morte

. ricardo araújo pereira

. falar

. fazer

. feliz

. homens

. país

. pais

. coisas

. cultura

. povo

. religião

. sabedoria

. sentimentos

. verdade

. educar

. livros

. sorriso

. chuva

. ensinar

. problemas

. saudade

. acreditar

. olhar

. osho

. pessoa

. sentir

. abraço

. adopção

. chorar

. todas as tags

blogs SAPO

.subscrever feeds