Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - E a loucura nem sempre é uma doença. Por muiats vezes é um ato de coragem

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 E a loucura nem sempre é uma doença. Por muiats vezes é um ato de coragem

Mia couto

 

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Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - Eu gosto de homens que não tem raça

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“- Não gosto de pretos, Kindzu.
- Como? Então gosta de quem? Dos brancos?
- Também não.
- Já sei: gosta de indianos, gosta da sua raça.
- Não. Eu gosto de homens que não tem raça. É por isso que eu gosto de si, Kindzu.”


Mia Couto, Sleepwalking Land

 

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Quarta-feira, 22 de Novembro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - Quando se faz amor assim, de paixão total, fica-se longe das palavras

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Quando se faz amor assim, de paixão total, fica-se longe das palavras. O encantamento é uma casa que tem o silêncio por tecto

 

Mia Couto

 

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Terça-feira, 21 de Novembro de 2017

Frases de Mia couto no Facebook - O sonho é o olho da vida

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O sonho é o olho da vida

Mia Couto

 

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Domingo, 19 de Novembro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - Na veia rasgada se confirma: nenhuma vida é alheia.

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Na veia rasgada se confirma: nenhuma vida é alheia. E todo sangue é sempre nosso

Mia Couto

 

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Sábado, 18 de Novembro de 2017

Frases de Mia couto no Facebook - Ficar devidamente calado requer anos de prática

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Ficar devidamente calado requer anos de prática

 Mia couto

 

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Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017

Frases de Mia couto no Facebook - O voar não vem da asa

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O voar não vem da asa

Mia Couto

 

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Quinta-feira, 16 de Novembro de 2017

Frases de Mia couto no Facebook - Um filho, afinal, é quem dá à luz a mãe

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 Um filho, afinal, é quem dá à luz a mãe

Pois cada meninos nascido faz nascer uma mãe de uma respectiva mulher

Mia Couto

 

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Frases de Mia Couto no Facebook - Agora já é tarde, só reparo no tempo quando já passou

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Agora já é tarde, só reparo no tempo quando já passou

Mia Couto

 

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Quarta-feira, 15 de Novembro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - O que faz andar a estrada é o sonho

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O que faz andar a estrada é o sonho

Mia Couto

 

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Frases de Mia Couto no Facebook - Os meus olhos são teus, e eles não servem para ver, apenas para recordar

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Por isso, mãe, 
os meus olhos são teus.

E eles não servem para ver.

Apenas para recordar.

O que antes de ser luz
foi palavra e corpo.

Mia Couto 

No poema "Prematuros olhos",
do livro "Vagas e Lumes"

 

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Terça-feira, 14 de Novembro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - Eu tenho o mais requerido dos serviços; sou fabricador de estrelas

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Eu tenho o mais requerido dos serviços; sou fabricador de estrelas. Sim, faço estrelas por encomenda

Mia Couto

 

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Sexta-feira, 10 de Novembro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - Encheram a terra de fronteir

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Encheram a terra de fronteiras, carregaram o céu de bandeiras, mas só há duas nações – a dos vivos e dos mortos.


Mia Couto em: Um Rio Chamado Tempo, Uma Casa Chamada Terra

 

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Sexta-feira, 13 de Outubro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - Nunca faças nada para sempre, excepto amar

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Nunca faças nada para sempre, excepto amar

Mia Couto

 

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Quarta-feira, 11 de Outubro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - O que nos faz ser pessoa não é o bilhete de identidade

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O que nos faz ser pessoa não é o bilhete de identidade

o que nos faz pessoas é aquilo que não cabe no bilhete de identidade.

Mia Couto

 

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Domingo, 8 de Outubro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - Pode não ser este o momento, pode não ser este o lugar.

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Pode não ser este o momento, pode não ser este o lugar. Mas é preciso que os donos das armas escutem o seguinte: não nos usem, a nós, cidadãos de Paz, como um meio de troca. Não nos usem como carne para canhão. Diz o provérbio que “sob os pés dos elefantes quem sofre é o capim”. Mas nós não somos capim. Merecemos todo o respeito, merecemos viver sem medo. Quem quiser fazer política que faça política. Mas não aponte uma arma contra o futuro dos nossos filhos. É isto que queria dizer, antes de dizer qualquer outra coisa. 

 

Mia Couto

 

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Domingo, 1 de Outubro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, a casa mora

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O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós, a casa mora

Mia Couto

 

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Domingo, 17 de Setembro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - Não é segurando nas asas que se ajuda um pássaro a voar

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Não é segurando nas asas que se ajuda um pássaro a voar. O pássaro voa simplesmente porque o deixam ser pássaro

Mia Couto

 

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Quarta-feira, 16 de Agosto de 2017

Frases de mia Couto no Facebook - nós dizemos que temos ideias. Mas o inverso também é verdade

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nós dizemos que temos ideias. Mas o inverso também é verdade: as ideias têm-nos a nós

Mia Couto

 

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Quarta-feira, 12 de Julho de 2017

Mia Couto no Facebook - Quem é cego para o futuro vive sem sonhos

futuro

 

Quem é cego para o futuro vive sem sonhos

Mia Couto

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Sábado, 1 de Julho de 2017

Frases de MIa Couto No Facebook - Quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz

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Quem tem medo da infelicidade nunca chega a ser feliz

Mia Couto

 

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Sábado, 4 de Março de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - A vida é tão simples que ninguém entende

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A vida é tão simples que ninguém entende

Mia Couto

 

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Terça-feira, 17 de Janeiro de 2017

Mia Couto - O viajante clandestino

 

– Não é arvião. Diz-se: avião.


O menino estranhou a emenda de sua mãe. Não mencionava ele uma criatura do ar? A criança tem a vantagem de estrear o mundo, iniciando outro matrimónio entre as coisas e os nomes. Outros a elas se semelham, à vida sempre recém-chegando. São os homens em estado de poesia, essa infância autorizada pelo brilho da palavra.


– Mãe: avioneta é a neta do avião?


Vamos para a sala de espera, ordenou a mãe. Sala de esperas? Que o miúdo acreditava que todas as salas fossem iguais, na viscosa espera de nascer sempre menos. Ela lhe admolestou, prescrevendo juízo. Aquilo era um aeroporto, lugar de respeito. A senhora apon¬tou os passageiros, seus ares graves, sotúrnicos. O me¬nino mediu-se com aquele luto, aceitando os deveres do seu tamanho. Depois, se desenrolou do colo ma¬terno, fez sua a sua mão e foi à vidraça. Espreitou os imponentes ruídos, alertou a mãe para um qualquer espanto. Mas a sua voz se arfogou no tropel dos motores.


Eu assistia a criança. Procurava naquele aprendiz de criatura a ingenuidade que nos autoriza a sermos estranhos num mundo que nos estranha. Frágeis onde a mentira credencia os fortes.


Seria aquele menino a fractura por onde, naquela toda frieza, espreitava a humanidade? No aeroporto eu me salvava da angústia através de um exemplar da infância. Valha-nos nós.


O menino agora contemplava as traseiras do céu, seguindo as fumagens, lentas pegadas dos instantâneos aviões. Ele então se fingiu um aeroplano, braços estendidos em asas. Descolava do chão, o mundo sendo seu enorme brinquedo. E viajava por seus infinitos, roçando as malas e as pernas dos passageiros entediados. Até que a mãe debitou suas ordens. Ele que recolhesse a fantasia, aquele lugar era pertença exclusiva dos adultos.


– Arranja-te. Estamos quase a partir.
– Então vou despedir do passaporteiro


A mãe corrigiu em dupla dose. Primeiro, não ia a nenhuma parte. Segundo, não se chamava assim ao senhor dos passaportes. Mas só no presente o menino se subditava. Porque, em seu sonho, mais adiante, ele se proclama:


– Quando for grande quero ser passaporteiro.
E ele já se antefruía, de farda, dentro do vidro. Ele é que autorizava a subida aos céus.
– Vou estudar para migraceiro.
– És doido, filho. Fica quieto.


O miúdo guardou seus jogos, constreito. Que criança, neste mundo, tem vocação para adulto?


Saímos da sala para o avião. Chuviscava. O menino seguia seus passos quando, na lisura do alcatrão, ele viu o sapo. Encharcado, o bicho saltiritava. Sua boca, maior que o corpo, traduzia o espanto das diferenças. Que fazia ali aquele representante dos primórdios, naquele lugar de futuros apressados?


O menino parou, observente, cuidando os perigos do batráquio. Na imensa incompreensão do asfalto, o bicho seria esmagado por cega e certeira roda.


– Mãe, eu posso levar o sapo?


A senhora estremeceu de horror. Olhou vergonhada, pedindo desculpas aos passantes. Então, começou a disputa. A senhora obrigava o braço do filho, os dois se teimavam. Venceu a secular maternidade. O menino, murcho como acento circunflexo, subiu as escadas, ocupou seu lugar, ajeitou o cinto. Do meu assento eu podia ver a tristeza desembrulhando líquidas missangas no seu rosto. Fiz-lhe sinal, ele me encarou de soslado. Então, em seu rosto se acendeu a mais grata bandeira de felicidade. Porque do côncavo de minhas mãos espreitou o focinho do mais clandestino de todos os passageiros.

 

Mia Couto no livro “Cronicando”, da Editorial Caminho

 

Retirado de Revista Pazes

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Terça-feira, 10 de Janeiro de 2017

Frases de Mia Couto no Facebook - O paraíso não é um lugar, é um breve momento que conquistamos

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 O paraíso não é um lugar, é um breve momento que conquistamos

Mia couto

 

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Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2017

Mia Couto - Sou feliz só por preguiça

 

 

Sou feliz só por preguiça.

 

A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer. – Levanta, ó dono das preguiças. É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo: -Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos. -Conversa de malandro… – Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver… Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza. – Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher… – Mulher, eu? – Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira. – Que quer vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir. Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:

 

– Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida. – A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não Deus…

Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações. – Não é verdade, Dona Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro? Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu me suficiento do actual presente. E basta. – Só eu quero é ser um homem bom, Dona. – Você é mas é um aldrabom.

A gorda mulata não quer amolecer conversa. E tem razão, sendo minha vizinha desde há tanto. Ela chegou ao bairro depois da morte de meus pais, quando herdei a velha casa da família. Nessa altura, eu ainda pescava em longas viagens, semanas de ausência nos bancos de Sofala. Nem notava a existência de Luarmina. Também ela, logo que desembarcou, se internou na Missão, em estágio para freira. Ficou enclausurada nessas penumbras onde se murmura conversa com Deus. Só uns anos mais tarde ela saiu dessa reclusão. E se instalou na casa que os padres lhe destinaram, bem junto à minha morada. Luarmina costureirava, era seu sustento. Nos primeiros tempos, ela continuava sem se dar às vistas. Só as mulheres que entravam em seus domínios é que lhe davam conta. No resto, me chegavam apenas os perfumes de sua sombra. Um dia o padre Nunes me falou de Luarmina, seus brumosos passados. O pai era um grego, um desses pescadores que arrumou rede em costas de Moçambique, do lado de 1á da baía de S. Vicente. Já se antigamentara há muito. A mãe morreu pouco tempo depois. Dizem que de desgosto. Não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha. Ao que parece, Luarmina endoidava os homens graúdos que abutreavam em redor da casa. A senhora maldizia a perfeição de sua filha. Diz-se que, enlouquecida, certa noite intentou de golpear o rosto de Luarmina. Só para a esfeiar e, assim, afastar os candidatos.

Depois da morte da mãe, enviaram Luarmina para o lado de cá, para ela se amoldar na Missão, entregue a reza e crucifixo. Havia que arrumar a moça por fora, engomá-la por dentro. E foi assim que ela se dedicou a linhas, agulhas e dedais. Até se transferir para sua actual moradia, nos arredores de minha existência.

Só bem depois de me retirar das pescarias é que dei por mim a encostar desejos na vizinha. Comecei por cartas, mensagens à distância. À custa de minhas insistências namoradeiras Luarmina já aprendera as mil defesas. Ela sempre me desfazia os favores, negando-se. – Me deixa sossegada, Zeca. Não vê que eu já não desengomo lençol? – Que ideia, Dona vizinha? Quem lhe disse que eu tinha essa intenção? Todavia, ela tem razão. Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo: me embrulhar com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela. – Dona Luarmina, o que é isso? Parece ficou mesmo freira. Um dia, quando o amor lhe chegar, você nem o vai reconhecer… – Deixe-me, Zeca. Eu sou velha, só preciso é um ombro.

Confirmando esse atestado de inutensílio, ela esfrega os joelhos como se fossem eles os culpados do seu cansaço. As pernas dela da maneira como incham, dificultam as vias do sangue. Lhe icebergam os pés, a gente toca e são blocos de gelo. E ela sempre se queixa. Um dia aproveitei para me oferecer: – Quer que lhe aqueça os pés? Arrepiando expectativa, ela até aceitou. Até eu fiquei assim, meio desfisgado, o coração atropelando o peito. – Me aquece, Zeca? – Sim, aqueço mas… pela parte de dentro.

 

– Mia Couto, ‘excerto’ do livro “Mar Me Quer”. [ilustrações João Nasi Pereira]. Lisboa: Editorial Caminho, 2000.

Fonte: Revista Pazes

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Terça-feira, 29 de Novembro de 2016

“Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença” - Mia Couto

miaCouto.jpg

 

Sou feliz só por preguiça. A infelicidade dá uma trabalheira pior que doença: é preciso entrar e sair dela, afastar os que nos querem consolar, aceitar pêsames por uma porção da alma que nem chegou a falecer. – Levanta, ó dono das preguiças. É o mando de minha vizinha, a mulata Dona Luarmina. Eu respondo: -Preguiçoso? Eu ando é a embranquecer as palmas das mãos. -Conversa de malandro… – Sabe uma coisa, Dona Luarmina? O trabalho é que escureceu o pobre do preto. E, afora isso, eu só presto é para viver… Ela ri com aquele modo apagado dela. A gorda Luarmina sorri só para dar rosto à tristeza. – Você, Zeca Perpétuo, até parece mulher… – Mulher, eu? – Sim, mulher é que senta em esteira. Você é o único homem que eu vi sentar na esteira. – Que quer vizinha? Cadeira não dá jeito para dormir. Ela se afasta, pesada como pelicano, abanando a cabeça. Minha vizinha reclama não haver homem com miolo tão miúdo como eu. Diz que nunca viu pescador deixar escapar tanta maré:

 

– Mas você, Zeca: é que nem faz ideia da vida. – A vida, Dona Luarmina? A vida é tão simples que ninguém a entende. É como dizia meu avô Celestiano sobre pensarmos Deus ou não Deus…

 

Além disso, pensar traz muita pedra e pouco caminho. Por isso eu, um reformado do mar o que me resta fazer? Dispensado de pescar, me dispenso de pensar. Aprendi nos muitos anos de pescaria: o tempo anda por ondas. A gente tem é que ficar levezinho e sempre apanha boleia numa dessas ondeações. – Não é verdade, Dona Luarmina? A senhora sabe essas línguas da nossa gente. Me diga, minha Dona: qual é a palavra para dizer futuro? Sim, como se diz futuro? Não se diz, na língua deste lugar de África. Sim, porque futuro é uma coisa que existindo nunca chega a haver. Então eu me suficiento do actual presente. E basta. – Só eu quero é ser um homem bom, Dona. – Você é mas é um aldrabom.

 

A gorda mulata não quer amolecer conversa. E tem razão, sendo minha vizinha desde há tanto. Ela chegou ao bairro depois da morte de meus pais, quando herdei a velha casa da família. Nessa altura, eu ainda pescava em longas viagens, semanas de ausência nos bancos de Sofala. Nem notava a existência de Luarmina. Também ela, logo que desembarcou, se internou na Missão, em estágio para freira. Ficou enclausurada nessas penumbras onde se murmura conversa com Deus. Só uns anos mais tarde ela saiu dessa reclusão. E se instalou na casa que os padres lhe destinaram, bem junto à minha morada. Luarmina costureirava, era seu sustento. Nos primeiros tempos, ela continuava sem se dar às vistas. Só as mulheres que entravam em seus domínios é que lhe davam conta. No resto, me chegavam apenas os perfumes de sua sombra. Um dia o padre Nunes me falou de Luarmina, seus brumosos passados. O pai era um grego, um desses pescadores que arrumou rede em costas de Moçambique, do lado de 1á da baía de S. Vicente. Já se antigamentara há muito. A mãe morreu pouco tempo depois. Dizem que de desgosto. Não devido da viuvez, mas por causa da beleza da filha. Ao que parece, Luarmina endoidava os homens graúdos que abutreavam em redor da casa. A senhora maldizia a perfeição de sua filha. Diz-se que, enlouquecida, certa noite intentou de golpear o rosto de Luarmina. Só para a esfeiar e, assim, afastar os candidatos.

 

Depois da morte da mãe, enviaram Luarmina para o lado de cá, para ela se amoldar na Missão, entregue a reza e crucifixo. Havia que arrumar a moça por fora, engomá-la por dentro. E foi assim que ela se dedicou a linhas, agulhas e dedais. Até se transferir para sua actual moradia, nos arredores de minha existência.

 

Só bem depois de me retirar das pescarias é que dei por mim a encostar desejos na vizinha. Comecei por cartas, mensagens à distância. À custa de minhas insistências namoradeiras Luarmina já aprendera as mil defesas. Ela sempre me desfazia os favores, negando-se. – Me deixa sossegada, Zeca. Não vê que eu já não desengomo lençol? – Que ideia, Dona vizinha? Quem lhe disse que eu tinha essa intenção? Todavia, ela tem razão. Minhas visitas são para lhe caçar um descuido na existência beliscar-lhe uma ternura. Só sonho sempre o mesmo: me embrulhar com ela, arrastado por essa grande onda que nos faz inexistir. Ela resiste, mas eu volto sempre ao lugar dela. – Dona Luarmina, o que é isso? Parece ficou mesmo freira. Um dia, quando o amor lhe chegar, você nem o vai reconhecer… – Deixe-me, Zeca. Eu sou velha, só preciso é um ombro.

 

Confirmando esse atestado de inutensílio, ela esfrega os joelhos como se fossem eles os culpados do seu cansaço. As pernas dela da maneira como incham, dificultam as vias do sangue. Lhe icebergam os pés, a gente toca e são blocos de gelo. E ela sempre se queixa. Um dia aproveitei para me oferecer: – Quer que lhe aqueça os pés? Arrepiando expectativa, ela até aceitou. Até eu fiquei assim, meio desfisgado, o coração atropelando o peito. – Me aquece, Zeca? – Sim, aqueço mas… pela parte de dentro.

 

Mia Couto

Excerto do livro “Mar Me Quer“.

 

Retirado de Revista Pazes

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Domingo, 27 de Novembro de 2016

Frases de Mia Couto no Facebook - Sempre regresso de mim para um abandono maior

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Sempre regresso de mim para um abandono maior

Mia Couto

 

Contos do nascer da terra

 

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Terça-feira, 8 de Novembro de 2016

Frases de Mia Couto no Facebook - A mulher é uma nuvem, não há como lhe deitar âncora

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A mulher é uma nuvem, não há como lhe deitar âncora

Mia Couto

 

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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2016

Frases de Mia Couto no Facebook - O pai estava sentado sob a palmeira a ver o mundo perder peso

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O pai estava sentado sob a palmeira a ver o mundo perder peso. Saboreava a carícia da preguiça dominical. Domingo não é um dia. É uma ausência de dia

Mia Couto

 

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Mia couto no Facebook - Flores

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Flores

 

Ninguém
oferece flores.

A flor,
em sua fugaz existência,
já é oferenda.

Talvez, alguém,
de amor,
se ofereça em flor.

Mas só a semente
oferece flores.

Mia Couto

(in Tradutor de Chuvas)
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