Segunda-feira, 15 de Maio de 2017

Miguel Esteves Cardoso - Muitos, muitos pontos de exclamação para Salvador Sobral!

Muitos, muitos pontos de exclamação para Salvador Sobral!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por ser bom sem se armar em bom e por mostrar que a arte e a alma andam juntas e que nada há nesta vida e neste mundo que seja mais forte!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por ter desenguiçado uma longa história de derrotas em que ganhar era não ficar em último e vencer era conseguir mais do que zero votos! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral pelo humor na hora da vitória, a dizer perante a Eurovisão inteira que "estava tudo comprado"! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral pela justiça e pela generosidade de ter imediatamente agradecido a Luís Figueiredo o bonito arranjo da canção de Luísa Sobral que ele cantou tão bem! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral pela inteligência de ter dito, no momento da consagração, que daqui a um mês tudo estaria esquecido - porque não estará nem deveria estar, mas é bonito ouvir! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por se ter marimbado na transmissão da canção vencedora - "Amar Pelos Dois" - para ir buscar Luísa Sobral, a compositora, intérprete e irmã, para cantar com ele, muito bem e cheia de amor! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Luísa Sobral por ter escolhido o irmão Salvador para cantar a canção que ela escreveu e a canção com que eles, irmã e irmão, ganharam a final da Eurovisão de 2017! Obrigados e parabéns! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral pela sensibilidade de ter dedicado a vitória dele não à família nem aos portugueses mas a uma comunidade muito mais importante e merecedora: a dos músicos! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por ter sido valente na cara de todas as contrariedades e de todas as cantilenas azaradas, derrotistas e miseráveis de sempre! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por ter pensado humildemente - e dito em público - que ninguém ia ligar à vitória dele porque o clube dele, o Benfica, tinha ganho, nesse mesmo dia, o campeonato nacional! É assim mesmo!

Viva o Portugal de Salvador Sobral por ser bom sem se armar em bom e por mostrar que a arte e a alma andam juntas e que nada há nesta vida e neste mundo que seja mais forte! É assim mesmo!

E finalmente, por ser verdade e ser preciso, viva Salvador Sobral sozinho, sem a ajuda de ninguém, livre de todos nós porque, por muito que ele proteste e por muito que nós os portugueses nos colemos a ele, foi ele sozinho que ganhou em Kiev e é isso, sobretudo, que jamais será esquecido!

É mesmo assim.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Domingo, 16 de Abril de 2017

Portugal - Sopa d'Alma

 

Letra

O teu destino
É nunca haver chegada
O teu destino
É outra Índia e outro mar

E a nova nau
Lusíada apontada
A um país
Que só há no verbo achar


Original interpretations of poems by Manuel Alegre (Portugal) and Juan Gelman (Argentina).about

 

 


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Terça-feira, 7 de Março de 2017

Portugal: o melhor país do mundo para portugueses e estrangeiros - Miguel Esteves Cardoso

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Quer queiramos, quer não – tão poucas palavras, tanto verbo querer –, Portugal não é o pior país do mundo. Mas – porque querer é poder – até pode ser. Ser português é ser capaz de pensar como é que Portugal pode ser o pior país do mundo e nós, os que cá vivemos, os mais desgraçados habitantes.

 

Portugal pode ser o pior porque, atendendo aos muitos benefícios que Deus lhe deu – o clima, a beleza das paisagens, o sabor das azeitonas e das uvas, mais tudo aquilo que existe sem ser pelo mérito dos portugueses –, Portugal poderia ser muito melhor do que é.

 

Quando agradecemos o bom tempo, a luz e as praias, está implícito que só continuamos a dispor destas coisas boas porque os políticos não conseguiram até hoje arranjar maneira de vendê-las ou estragá-las de uma vez por todas.

 

Assim, o Portugal que temos é o que resta milagrosamente das piratarias dos nossos dirigentes através dos séculos. Não conseguimos elogiar pessoas como Gonçalo Ribeiro Telles por ter criado parques naturais. Preferimos aplaudi-lo por ter impedido os políticos corruptos de ter vendido tudo em lotes aos construtores civis.

 

Um português não consegue olhar para a paisagem mais bonita sem ter consciência de que não deve faltar muito para ir para o galheiro. “Por enquanto, é assim... sabe-se lá por quanto tempo...”

 

Assim se traz tristeza e desespero à contemplação. Da mesma maneira se olha para as paisagens arruinadas, sem qualquer impulso de esperança ou de activismo: “Aqui fizeram o que queriam e o resultado está à vista...”

 

Só um português sabe o difícil que é defender Portugal em Portugal ou os portugueses junto dos portugueses. A primeira objecção é logo a mais devastadora: “Mas quem é que está a atacar Portugal e os portugueses para tu estares aí todo empenhadinho em defendê-los?”

 

Só os estrangeiros podem atacar Portugal e os portugueses. Se o fazem, ninguém perdoa ou descansa enquanto não forem violentamente rebatidos. Os estrangeiros têm de amar Portugal ou levar a sua falta de amor para outro lugar.

 

Resultado: é tão difícil ser-se estrangeiro em Portugal como português. É uma coisa que se partilha, essa dificuldade, felizmente.

 

Para ouvir portugueses a elogiar Portugal, é preciso atacar Portugal para provocá-los. Nem é preciso ser um ataque desmesurado: basta um insultozinho qualquer.

 

Mesmo assim, não quis fazer uma edição do P2 em que se apresentasse Portugal como o pior país do mundo e os portugueses como os mais violentados cidadãos. Isso já acontece todos os dias.

 

Portugal pode não ser perfeito mas não é nada mau. É de longe o país com mais pessoas portuguesas e mais coisas portuguesas. Para quem gosta de pessoas e coisas portuguesas, Portugal é o melhor sítio onde perseguir esses gostos.

 

Não, não é um paraíso. É um país. Nem é por ser o nosso – a gente sabe lá de quem é. É apenas aquele em que, se não formos estrangeiros, nos podemos queixar à vontade de Portugal e dos portugueses sem que ninguém levante uma sobrancelha. 

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Terça-feira, 28 de Fevereiro de 2017

O Carnaval no Facebook - Em Portugal o dia é lindo e perfeito para o carnaval. É sambar à chuvinha e ficar com pele de galinha

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Em Portugal o dia é lindo e perfeito para o carnaval. É sambar à chuvinha e ficar com pele de galinha

 


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Quinta-feira, 3 de Novembro de 2016

Francisco Louçã - 1143

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Apareceu escrito, na parede da mesquita de Lisboa, o número “1143”. Esboço anónimo de quem não achou que o que pretendia que fosse um insulto merecia explicação e fugiu depressa, nem vale o esforço da interpretação. Fiquemos pelo óbvio: 1143 é o ano da independência diplomática de Portugal (embora só em 1147 ocorra a conquista de Lisboa). Foi assim que começou o que já tinha começado.

 

Mas há uma pergunta que se pode fazer: nesse ano, onde estava a tolerância e quem era a intolerância? A resposta não é a mais simples. Miguel Esteves Cardoso escreve, e bem, que, nesse tempo como durante muitos mais anos, o Islão era a parte da civilização

.

E, se nos perguntamos quem era a parte tolerante do cerco a Granada, trezentos e cinquenta anos depois (1492), a resposta ainda é: os muçulmanos. Os Reis Católicos eram o reino mais atrasado política, cultural e cientificamente e, sobretudo, mais intolerante e bárbaro. Para estudar medicina, para ler filosofia, a começar pela filosofia clássica da Grécia antiga que era perseguida na Europa, para fazer poesia, para discutir livremente, era melhor viver no mundo muçulmano do que no mundo cristão.

 

Se nos perguntamos onde estava a parte tolerante durante a longa Inquisição, era no mundo muçulmano: os judeus e outros perseguidos fugiam para Constantinopla, onde eram acolhidos.

 

A desagregação posterior destas sociedades, o fracasso e a destruição dos seus regimes laicizantes no século XX, o estímulo e protecção ocidental a ditaduras várias, as perpétuas guerras do petróleo, o empobrecimento da massa popular, o desastre ecológico, o sentimento de exclusão e o renascimento de fanatismos assanhados trouxeram-nos aos dias de hoje, com os demónios à solta. Não tinha que ser assim. E, antes de aceitarmos qualquer prosápia sobre o destino eterno de uma parte do mundo, lembremo-nos de que nem sempre as coisas foram iguais ao que hoje conhecemos, que o Islão não fundamenta a deriva dos assassinos do Charlie Hebdo e que, para que a Europa se livrasse da teocracia, foram precisas revoluções vitoriosas. Ainda precisamos delas, talvez mais do que nunca, para que as pessoas possam viver em paz e com a sua consciência.

 

Francisco Louçã
(do blog Tudomenoseconomia, no jornal Publico)


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Quarta-feira, 26 de Outubro de 2016

O Halloween no Facebook - O Halloween é uma tradição tão antiga em Portugal como são os santos Populares nos Estados Unidos

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O Halloween, com bruxas e vampiros,  é uma tradição tão antiga em Portugal como são os santos Populares, com sardinha assada e vinho tinto,  nos Estados Unidos

 


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Quinta-feira, 29 de Setembro de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Ser Português é Difícil

 

 

Ser Português é Difícil

 

Os Portugueses têm algum medo de ser portugueses. Olhamos em nosso redor, para o nosso país e para os outros e, como aquilo que vemos pode doer, temos medo, ou vergonha, ou «culpa de sermos portugueses». Não queremos ser primos desta pobreza, madrinhas desta miséria, filhos desta fome, amigos desta amargura. Os Portugueses têm o defeito de querer pertencer ao maior e ao melhor país do mundo. Se lhes perguntarmos “Qual é actualmente o melhor e o maior país do mundo?”, não arranjam resposta. Nem dizem que é a União Soviética nem os Estados Unidos nem o Japão nem a França nem o Reino Unido nem a Alemanha. Dizem só, pesarosos como os kilogramas nos tempos em que tinham kapa: «Podia ter sido Portugal...» E isto que vai salvando os Portugueses: têm vergonha, culpa, nojo, medo de serem portugueses mas «também não vão ao ponto de quererem ser outra coisa».

Revela-se aqui o que nós temos de mais insuportável e de comovente: só nos custa sermos portugueses por não sermos os melhores do mundo. E, se formos pensar, verificamos que o verdadeiro patriotismo não é aquele de quem diz “Portugal é o melhor país do mundo” (esse é simplesmente parvo ou parvamente simples), mas, sim, de quem acredita, inocentemente, que Portugal «podia ser» (ou ter sido) o melhor país do mundo e (eis a parte fundamental, que separa os insectos dos cicofantas) «tem pena que não seja», uma pena daquelas que ardem para toda a vida nos peitos profundos das pessoas boas.

Ser português não é nem a sorte com que sonhamos (não queriam mais nada — nascer logo uma coisa boa!) nem o azar com que vamos azedando. Ser português é um «jeito que se aprende». Não é coisa que vá à bruta ou à má fila. Não é bem que vá a bem (precisa de ser ajudado), mas também não é mal que vá à bruxa. Ser português não é tanto ser feito à imagem de Deus, como os outros povos (todos eles felizes), como estar, à partida, «feito». Cada vez que nasce um ser humano e olha para o bilhete de identidade e verifica que calharam os pedregulhos e os pêsames da portugalidade, diz logo “Pronto — estou feito — sou português”. Devia ter juízo. A única coisa que o absolve é ter, também, razão.

Ser português é «difícil». O resto do mundo não compreende que os Portugueses são especiais, diferentes, bastante giros, bem-educados, antigos, espertos, casos sérios. O resto do mundo acredita sinceramente que o mundo seria exactamente o mesmo sem os Portugueses. Para a grande maioria da população da Terra, a própria «existência» de Portugal é uma surpresa. E não se julgue automaticamente que se trata de uma grande surpresa ou, sequer, de uma surpresa «boa». É mais uma surpresa do género “Ah, sim?”. Como quem aprende que o «baseball» teve origem nos «rounders ingleses». Ah, sim? Que giro! Agora sai da frente do televisor que eu quero ver se este Babe Ruth era tão bom como diziam. Para o resto do mundo, os feitos dos Portugueses não pertencem à história fundamental do Universo. Pertencem, quando muito, à secção dos passatempos, do “Não me digas!” e do “Acredite se quiser”. Ser português é um ser delicado. Ser português não é «ser humano». É ser que tem muito para fazer só para ser «vivo».

Os políticos dizem que é preciso andar para a frente, modernizar, desenvolver, «mudar» Portugal, presumivelmente para melhor, porque este (nisto estão todos de acordo) não presta. Os poetas sonham com países que nunca existiram ou existirão, ou que já existiram e jamais existirão outra vez. Ninguém está contente com o que é, ou com onde está, ou com o que tem. Os Portugueses, o povo, a nação, os ditos, os implicados, envolvidos e lixados, esses nem ideia têm ou fazem — para eles a própria noção de Portugal foi um raio de ideia para começar. Mas o que é preciso não é nem tão drástico nem tão espectacular. O que é preciso é «continuar» Portugal.

Continuar Portugal não é uma acção delicada, ou uma campanha urgente, ou uma tarefa que exija o sacrifício de todos os cidadãos. É simplesmente continuar a perguntar, a barafustar, a amaldiçoar o dia em que se nasceu desta cor, nesta pele, com este coração mole e fácil de apertar e espremer. Continuar Portugal é acreditar que a vida seria pior sem ele, pior se a Europa começasse pela Espanha, pior se fôssemos suíços ou belgas ou finlandeses. Continuar Portugal é ser português e dizer “Pronto, que se lixe, o que é que eu hei-de fazer?”. E acreditar na diferença que faz a nossa maneira de ser, e de sermos portugueses, como um cardiologista acredita que o coração foi feito para continuar a bater.
E foi. E, o que é mais engraçado, continua!

Miguel Esteves Cardoso, in 'Os Meus Problemas'

 

Retirado de Citador


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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2016

O que verdadeiramente mata Portugal - Eça de Queirós

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O Que Verdadeiramente Mata Portugal

 

O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.

Quando numa crise se protraem as discussões, as análises reflectidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas. Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído.

O que nos magoa é ver que só há energia e actividade para aqueles actos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho.


Trata-se de votar impostos? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de aprimorada forma; os seus áulicos afiam a lâmina reluzente da sua argumentação para cortar os obstáculos eriçados: as maiorias dispõem-se em concílios para jurar a uniformidade servil do voto. Trata-se dum projecto de reforma económica, duma despesa a eliminar, dum bom melhoramento a consolidar? Começam as discussões, crescendo em sonoridade e em lentidão, começam as argumentações arrastadas, frouxas, que se estendem por meses, que se prendem a todo o incidente e a toda a sorte de explicação frívola, e duram assim uma eternidade ministerial, imensas e diáfanas.

O país, que tem visto mil vezes a repetição desta dolorosa comédia, está cansado: o poder anda num certo grupo de homens privilegiados, que investiram aquele sacerdócio e que a ninguém mais cedem as insígnias e o segredo dos oráculos. Repetimos as palavras que há pouco Ricasoli dizia no parlamento italiano: «A pátria está fatigada de discussões estéreis, da fraqueza dos governos, da perpétua mudança de pessoas e de programas novos.»


Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora'

 

Retirado de Citador


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Sexta-feira, 22 de Julho de 2016

Eça de Queirós - O Que Verdadeiramente Mata Portugal

O Que Verdadeiramente Mata Portugal

O que verdadeiramente nos mata, o que torna esta conjuntura inquietadora, cheia de angústia, estrelada de luzes negras, quase lutuosa, é a desconfiança. O povo, simples e bom, não confia nos homens que hoje tão espectaculosamente estão meneando a púrpura de ministros; os ministros não confiam no parlamento, apesar de o trazerem amaciado, acalentado com todas as doces cantigas de empregos, rendosas conezias, pingues sinecuras; os eleitores não confiam nos seus mandatários, porque lhes bradam em vão: «Sede honrados», e vêem-nos apesar disso adormecidos no seio ministerial; os homens da oposição não confiam uns nos outros e vão para o ataque, deitando uns aos outros, combatentes amigos, um turvo olhar de ameaça. Esta desconfiança perpétua leva à confusão e à indiferença. O estado de expectativa e de demora cansa os espíritos. Não se pressentem soluções nem resultados definitivos: grandes torneios de palavras, discussões aparatosas e sonoras; o país, vendo os mesmos homens pisarem o solo político, os mesmos ameaços de fisco, a mesma gradativa decadência. A política, sem actos, sem factos, sem resultados, é estéril e adormecedora.

Quando numa crise se protraem as discussões, as análises reflectidas, as lentas cogitações, o povo não tem garantias de melhoramento nem o país esperanças de salvação. Nós não somos impacientes. Sabemos que o nosso estado financeiro não se resolve em bem da pátria no espaço de quarenta horas. Sabemos que um deficit arreigado, inoculado, que é um vício nacional, que foi criado em muitos anos, só em muitos anos será destruído.

O que nos magoa é ver que só há energia e actividade para aqueles actos que nos vão empobrecer e aniquilar; que só há repouso, moleza, sono beatífico, para aquelas medidas fecundas que podiam vir adoçar a aspereza do caminho.
Trata-se de votar impostos? Todo o mundo se agita, os governos preparam relatórios longos, eruditos e de aprimorada forma; os seus áulicos afiam a lâmina reluzente da sua argumentação para cortar os obstáculos eriçados: as maiorias dispõem-se em concílios para jurar a uniformidade servil do voto. Trata-se dum projecto de reforma económica, duma despesa a eliminar, dum bom melhoramento a consolidar? Começam as discussões, crescendo em sonoridade e em lentidão, começam as argumentações arrastadas, frouxas, que se estendem por meses, que se prendem a todo o incidente e a toda a sorte de explicação frívola, e duram assim uma eternidade ministerial, imensas e diáfanas.

O país, que tem visto mil vezes a repetição desta dolorosa comédia, está cansado: o poder anda num certo grupo de homens privilegiados, que investiram aquele sacerdócio e que a ninguém mais cedem as insígnias e o segredo dos oráculos. Repetimos as palavras que há pouco Ricasoli dizia no parlamento italiano: «A pátria está fatigada de discussões estéreis, da fraqueza dos governos, da perpétua mudança de pessoas e de programas novos.»


Eça de Queirós, in 'Distrito de Évora'
 
Retirado de Citador

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Segunda-feira, 18 de Julho de 2016

Fernanda Câncio - Éder e os outros

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O português que marcou o golo que fez Portugal vencedor do Euro 2016 esteve anteontem no Jornal da Noite da SIC. Explicou porque é que, mal marcou, correu à desfilada, afastando os camaradas que queriam submergi-lo no triunfo, até se afundar nos braços de um dos técnicos, junto ao banco. Queria ir, disse, festejar com quem estava ali, no lugar onde tinha passado grande parte do campeonato - o de suplente.

 

Era uma das minhas curiosidades desde domingo - como o porquê que, saiba eu, Quaresma ainda não disse sobre ter agarrado assim na cabeça do francês, mais o de ser aquela música dos Xutos o talismã da seleção. São perguntas fáceis. Há outras muito mais difíceis. A primeira é a que me surge ao ver na TV este Éder tão negro herói de um país onde todos os dias os negros, claros ou escuros, ouvem "vai para a tua terra"; um país que nas TV e jornais e em todos os lugares de representação - à exceção dos de atleta - devolve aos portugueses negros a evidência de uma cegueira.

 

Colour blind é a expressão usada em inglês para a feliz capacidade de ver pessoas, não a sua cor. A nossa capacidade como país é oposta: não vemos a invisibilidade dos portugueses negros. Tão cegos somos que, quando Van Dunem tomou posse, houve quem tivesse considerado "racista" o júbilo e a comoção dos que sublinharam ser a primeira vez que temos alguém negro no governo. Oh, é contraditório, dirão, querer afirmar a igualdade sublinhando a diferença. Mas não houve nenhuma luta pela igualdade que não tenha passado por aí. Nenhuma que não faça a pergunta que nesta semana vi num vídeo de uma palestra nos EUA, na qual uma mulher (branca) pergunta a uma plateia branca quantas daquelas pessoas gostariam de ser tratadas como os negros. Os assistentes entreolham-se, embaraçados. E ela conclui: "Ninguém? Quer dizer que sabem que há uma diferença de tratamento e que não a querem para vocês. Mas admitem-na para os outros."

 

No mesmo dia da entrevista de Éder, o The New York Times noticiava um inquérito, efetuado após o homicídio de cinco polícias brancos em Dallas (durante uma manifestação do movimento Black Lives Matter, de protesto contra homicídios de negros por polícias), no qual 69% dos americanos admitem que as relações raciais são geralmente más e estão a ficar piores. 48 anos após a morte de Luther King, quando chega ao fim o segundo mandato do primeiro presidente negro, num país onde há juízes negros, pivôs negros, jornalistas negros, senadores negros - e décadas de discriminação positiva na administração pública -, as coisas estão assim.

 

Podemos olhar para isso e achar que é um problema dos EUA. Ou pensar sobre e concluir que tem de ser também um problema - um problema que nos recusamos a enfrentar, até no facto de não sabermos, por bem intencionado mas perverso impedimento constitucional, quantos portugueses negros há - neste país onde os negros são uma espécie de suplentes, no banco a ver o jogo. À espera de uma oportunidade. Até quando?

 

Fernanda Câncio

 

Retirado do DN


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Segunda-feira, 11 de Julho de 2016

I'am Portuguese and i cannot keep calm

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Domingo, 10 de Julho de 2016

Não se esqueçam, são todos Portugueses. São/Somos todos Portugal

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Sara Moreira sagrou-se hoje campeã europeia da meia-maratona;🔝
- Patrícia Mamona, campeã da Europa em triplo salto;🔝
- Rui Costa foi segundo lugar na 9ª etapa da Volta à França;🔝
- Jéssica Augusto foi bronze na meia-maratona;🔝
- Selecção portuguesa de futebol Campeã da Europa.🔝

Não se esqueçam, são todos Portugueses. São/Somos todos Portugal. 😉

 

Do Facebook de Fernando Pimenta

 


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Fomos heróis somos campeões - Portugal Campeão da Europa

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Fomos heróis somos campeões

 


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Quinta-feira, 7 de Julho de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Viva o país dos galos!

Miguel Esteves CArdoso

Viva o país dos galos!

Os galeses foram valentes. Deram tudo. Mas não basta

 

Que Portugal só sabia empatar. Tome lá 2 golos em 3 minutos, um para abrir o apetite, outro para encher a barriga.

 

Que Cristiano Ronaldo não estava a marcar golos. Tome lá 1 de cabeça, se fizer favor e outro, para variar, pelo chão, para o Nani.

 

Disseram mal do Fernando Santos. Ele foi explicando como era e como iria ser. E assim foi.

 

Disseram mal da selecção, que estava a jogar mal. Ou que estava a jogar assim-assim mas não marcava golos e que não jogava para ganhar. Ora tome lá dois golinhos bem servidos aos minutos 50 e 53 para ficarem 40 minutos para o sofrimento de que não abdicamos.

 

Os galeses foram valentes. Deram tudo. Mas não basta. Bale à parte, não são excelentes futebolistas. Que me desculpem: é mesmo uma questão de talento.

 

Os galeses mostraram ter um grande espírito de equipa. Parabéns. Estiveram sempre muito unidos. Suponho que tenha sido bonito de se ver, caso fôssemos galeses. Mas, como não somos, não foi. O maior elogio que podemos fazer é dizer-vos que houve momentos em que nos meteram medo. Sobretudo antes do jogo começar.

 

Foi uma vitória da selecção portuguesa e do treinador português contra Portugal e os portugueses. Nós os portugueses pensávamos que Portugal ia ficar mal neste Euro 2016 mas queríamos que ficasse bem. Esperávamos o pior mas exigíamos o que nos parecia impossível. É um raio de uma atitude, diga-se já.

 

Já ouço o que nos amaldiçoam por ter perdido na final contra a França ou a Alemanha. Ó que porra: tenham calma.

 

Miguel Esteves Cardoso

Retirado do Público


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Terça-feira, 5 de Julho de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Querido Portugal

Ricardo Araújo Pereira

 

Querido Portugal

 

Temos de falar. Como sabes, o meu amor por ti tem resistido a tudo. Tu és pobre, sujo em vários sítios e estúpido muitas vezes. Mas há em ti uma certa ingenuidade que faz com que até os teus defeitos - e são tantos - me seduzam. Na maior parte das vezes não és mau, és só malandro. E tens três qualidades que compensam tudo o resto: a comida, a língua e o clima. Era precisamente sobre isto que te queria falar. Andas a desleixar-te. A comida já foi melhor. Bem sei que a culpa não é só tua. A União Europeia proíbe umas coisas, os nutricionistas desaconselham outras. Mas já não se encontram jaquinzinhos, os restaurantes receiam fazer cabidela e a medicina parece ter arranjado um método infalível para determinar o que é prejudicial à saúde: se sabe bem, faz mal.

 

A língua também já não é o que era. Não me entendas mal: continua a ser a tua maior virtude. Não sei como é possível uma pessoa exprimir-se numa dessas línguas bárbaras que não distinguem o ser do estar. Embora os franceses e os ingleses, aparentemente, não o saibam, ser bêbado é muito diferente de estar bêbado. Mas, quando eu era pequeno, setores era o nome que se dava aos professores. Hoje, setores é a versão actualizada da palavra sectores. Na escola, os setores explicam o que os setores são. No meu tempo, o sector primário era a área de actividade que compreendia a agricultura e outras formas de produção de matérias-primas, e um setor primário era um professor do ensino básico. Agora, é tudo a mesma coisa, assim como "être" e "to be" significam tanto ser como estar.

 

Outra coisa: isto do clima não pode continuar. Este verão foi muito fraco. Houve pouco sol e a água estava fria. Não se admite. A gente tolera a corrupção, a injustiça, a inveja, o subdesenvolvimento e tudo o mais que tu conseguires gerar. Mas tem de estar sol. Se é para não haver verão, nem subtilezas linguísticas, nem papas de sarrabulho, mais vale irmos para a Finlândia, onde as coisas funcionam. ?E a moral sexual das moças nórdicas é muito mais relaxada. Tens de escolher: ou há regular funcionamento das instituições, ou há céu pouco nublado ou limpo. Vê lá isso, por favor.

Um grande beijo,

Ricardo

Retirado da Visão


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Sexta-feira, 10 de Junho de 2016

José Saramago no Facebook - Portugal não tem partidos de direita, de esquerda, de nada, tem um bando de salafrários que se reúnem para roubar juntos

Saramago

 

 

Portugal não tem partidos de direita, de esquerda, de nada, tem um bando de salafrários que se reúnem para roubar juntos

José Saramago


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Segunda-feira, 30 de Maio de 2016

Portugal visto por António Lobo Antunes

António Lobo Antunes

 

 

Portugal visto por

António Lobo Antunes
  
Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida.

Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento.

Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos.

Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos.
 
Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estoico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.

O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade as vezes é hereditário, dúzias deles.

Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão.

O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal.
Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.

Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver:
- Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro
- Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima
- Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo
que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores, que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade.
 
As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos semdificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente. Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente  indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos.

Vale e Azevedo para os Jerónimos, já!
Loureiro para o Panteão já!
Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já!
Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha.
 
Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram. Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito.

Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis.

Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair.

Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar de  D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano. Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos. Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar.

Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho.

Agradeçam a Linha Branca.

Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.

Abaixo o Bem-Estar.

Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval.

Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros. Proíbam-se os lamentos injustos.

Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa.

Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.

Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar?

O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos uns aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.

 

António Lobo Antunes


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Terça-feira, 15 de Março de 2016

Miguel Esteves Cardoso - Estaremos feitos. Não?

Miguel Esteves Cardoso

 

1-0: começa a merda. 2-0: A merda continua. 3-0: a merda adensa-se. 4-0: acaba a merda.

 

Mas quem é que não estava à espera desta merda? É normal Portugal perder com a Alemanha. É sempre a mesma merda. Qual é a novidade?

 

É por isso que vamos desanimar? Por ter acontecido o que já se esperava? Claro que não. O jogo com a Alemanha era uma merda que tínhamos sempre de despachar. Pronto, está despachada. Ainda bem. Estamos prontos. Não estamos feitos.

 

De resto, que bem se estreou a Península Ibérica neste Mundial. Reflectiu-se a longa experiência que Espanha e Portugal têm na América do Sul. Fomos amplamente recompensados por todos os jogadores que roubámos ao Brasil, à Argentina e a outros países sul-americanos.

 

Foram nove golos que levámos: a Espanha de um país mais pequeno e Portugal de um país bastante maior. Por outro lado, a Espanha marcou um golo e nós nem um marcámos. Em contrapartida, eles levaram 5 e nós só levámos 4. Mas ambos sofremos 4 golos de diferença. 8 no total. Nada mau, hein?

 

Estaremos feitos? Não.

 

Agora cabe-nos apoiar a selecção mais do que sempre. É o nosso apoio que será decisivo. É portuguesíssimo mas perigosíssimo pensar que está tudo perdido, que já não vale a pena. Nunca iríamos ganhar à Alemanha. Se tivéssemos ganho ficaríamos com um excesso mortífero de confiança. Assim levámos o banho de água fria de que precisávamos: quatro baldes foi a medida perfeita.

 

Quanto aos alemães, parabéns e obrigado pela lição.

 

Miguel Esteves Cardoso

 

retirado do Público


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Sábado, 23 de Janeiro de 2016

Miguel Esteves Cardoso - O Machismo Português e as Traições Amorosas

Miguel Esteves  Cardoso

 

O Machismo Português e as Traições Amorosas

 

Na gíria portuguesa, os palitos são a versão económica, e mais moderna, dos cornos. Os cornos, à semelhança do que aconteceu com os automóveis e os computadores, tornaram-se demasiado volumosos e pesados para as exigências do homem de hoje. Daí a crescente popularidade dos mais portáteis e menos onerosos palitos. Contudo, visto que se vive presentemente um período de transição, em que os novos palitos ainda se vêem lado a lado com os tradicionais cornos, continuam a existir algumas sobreposições. Uma delas, herdada do antigamente, deve-se ao facto dos palitos não se saldarem numa diminuição proporcional de sofrimento. Ou seja, não dão uma mera dor de palito — dão à mesma, incontrovertivelmente,dor de corno. Não é mais carinhoso, por isso, pôr os «palitos» a alguém — continua a ser exactamente o mesmo que pôr os outros. 

Tudo isto vem a propósito da forma atípica, entre os povos latinos, que assume o machismo português. Não se trata do machismo triunfalmente dominador, género «Aqui quem manda sou eu!», do brutamontes que não dá satisfações à mulher. Não — o machismo português, imortalizado pelo fado «Não venhas tarde», é um machismo apologético, todo «desculpa lá ó Mafalda», que alcança os seus objectivos de uma maneira mais eficaz. É, de facto, o machismo que, não só dá satisfações, comovive delas. 

O machismo português é o machismo, não da força masculina, mas da fraqueza. Não consiste no homem armar-se em agressor, mas em vítima. O logro é este: o homem apresenta-se sempre à mulher como vítima da natureza «de homem», dele. Ser homem, para o machista português, é ser essencialmente fraco. É um não-ser-capaz de resistir às tentações; um envergonhado «já sabes como é, filha» que serve para legitimar todos os privilégios de que goza (aos quais chama «deslizes»). À mulher não se admitem estes abusos — os copos, as entradas às tantas da manhã, os romances — porque o homem português considera a mulher um ser superior. Como é superior — mais forte, mais séria, mais responsável, mais ajuizada — não tem, muito simplesmente, direito a nada. 

O homem trata-a como se trata um deus. Julga que ela sabe tudoe, mesmo quando ele lhe mente, sabe que ela não se convence. Pensa também que ele pode tudo e é daqui que vem o medo enorme que lhe tem. E, tal como se faz com um deus, ele peca e pede perdão, mas sem perdoar em troca — porque um deus, por definição, não pode pecar. Se acaso uma mulher não corresponde a este comportamento divino, é logo considerada uma desgraçada, uma meretriz, uma sem-vergonha. Em suma: no fundo, uma criatura tão baixa e desprezível como um homem. 

Logo, é a inferioridade do homem — infinitamente confessada, declarada e propagandeada — que lhe impõe o direito de pecar e ser perdoado, e a superioridade da mulher que lhe confere a obrigação de perdoar. O homem, no machismo português, é pouco mais que uma pilha imponente e irresistível de vulnerabilidades. As outras mulheres atraem-no sempre contra vontade, e ele, coitado, não se consegue defender e vai-se instantaneamente abaixo. Como cantava o Carlos Ramos «Tu sabes bem que eu vou para outra mulher, que eu só faço o que ela quer...». A mulher, cheia de uma compreensão indistinguível da santidade, vê-o da janela, coração a sofrer de amor e de piedade, e apenas lhe pede («com carinho») que não venha tarde, «sabendo que ele vem sempre mais tarde». É este o machismo estritamente português, a meio-caminho entre o «Desculpem qualquer coisinha» e o «Era uma vez um rapaz». Nunca diz, à castelhana, «Quero e posso!»; nem disfarça, à italiana, dizendo «Posso mas não quero». Não. Diz, muito à portuguesa «Não quero, mas o que é que tu queres?, é o que posso...». O homem português nunca tem culpa. Arrepende-se sempre, mas não tem culpa porque não consegue deixar de fazer (por muito que não tente) as coisas que lhe apetece imenso fazer. A mulher, em contrapartida, tem quase sempre culpa. Tem, por exemplo, a culpa de atrair o homem, não porque o queira atrair (o querer ou não é irrelevante), mas, simplesmente, porque é mulher, e ele é homem, e não há absolutamente nada a fazer... 

O machismo português não é afirmativo e orgulhoso frente à mulher. É um machismo conjuntivo — «Eu bem gostaria de ser fiel, mas...», ou «Eu bem gostaria de passar mais tempo em casa, mas...», ou ainda «Eu bem gostaria de não ser como sou, mas...». É esse «mas» que torna o machismo português diferente — não é tanto de macho como de «mas», não é tanto um autêntico machismo como um masismo. Ele não é senhor do seu destino, como ela é do dela (e do dele). As coisas acontecem-lhe, ele bem tentou; foi uma coisa que lhe deu, ele nem sequer deu por ela, e, pronto, «o que é que tu queres, filha?»,aconteceu... 

A relação entre o homem português e a mulher é vista (pelo homem), como a relação que tem cada um com a sua consciência. E, ao passo que cada um pode andar na boa vai-ela (e depois penitenciar-se), o mesmo não se imagina (nem consente!) à consciência. E, o mais engraçado de tudo, é que a mulher que «sabe tudo», até isto sabe. Ou seja: sabe perfeitamente que esta do «Tu sabes bem...» é pouco mais que uma excelente treta que os homens propagam para poderem pensar que se divertem mais do que as mulheres. O que torna a mulher portuguesa ainda mais superior. Claro. 

Tudo isto para regressar, sem dor, à questão dos palitos. A tese central, criação única do machismo português, é esta: É muito fácil pôr os palitos a um homem (basta a mulher olhar para outro), mas é quase impossível pôr os palitos a uma mulher(porque nunca se consegue enganar a consciência). Um homem pode ser, por dá-cá-aquela-palha, um «corno manso», o que é muito pior que ser um corno selvagem ou só semicivilizado. Mas não existe, na língua, correspondência para o sexo feminino. Os palitos são uma coisa terrível que as mulheres podem pôr aos homens mesmo sem chegar a pô-los; mas que os homens nunca podem pôr às mulheres, por muito que lhos ponham. Nesta vantajosa lógica, bastante mais complexa e respeitosa do que aquela que anima outros machismos menos atlânticos, se encontra a alegria e a tristeza do autêntico macho português — aquele que vem sempre mais tarde, mas cada vez mais cabisbaixo. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'A Causa das Coisas'


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Terça-feira, 1 de Dezembro de 2015

Miguel Esteves Cardoso - O Engraxanço e o Culambismo Português

Miguel Esteves Cardoso

 

O Engraxanço e o Culambismo PortuguêsNoto com desagrado que se tem desenvolvido muito em Portugal uma modalidade desportiva que julgara ter caído em desuso depois da revolução de Abril. Situa-se na área da ginástica corporal e envolve complexos exercícios contorcionistas em que cada jogador procura, por todos os meios ao seu alcance, correr e prostrar-se de forma a lamber o cu de um jogador mais poderoso do que ele. 


Este cu pode ser o cu de um superior hierárquico, de um ministro, de um agente da polícia ou de um artista. O objectivo do jogo é identificá-los, lambê-los e recolher os respectivos prémios. Os prémios podem ser em dinheiro, em promoção profissional ou em permuta. À medida que vai lambendo os cus, vai ascendendo ou descendendo na hierarquia. 


Antes do 25 de Abril esta modalidade era mais rudimentar. Era praticada por amadores, muitos em idade escolar, e conhecida prosaicamente como «engraxanço». Os chefes de repartição engraxavam os chefes de serviço, os alunos engraxavam os professores,os jornalistas engraxavam os ministros, as donas de casa engraxavam os médicos da caixa, etc... Mesmo assim, eram raros os portugueses com feitio para passar graxa. Havia poucos engraxadores. Diga-se porém, em abono da verdade, que os poucos que havia engraxavam imenso. 


Nesse tempo, «engraxar» era uma actividade socialmente menosprezada. O menino que engraxasse a professora tinha de enfrentar depois o escárnio da turma. O colunista que tecesse um grande elogio ao Presidente do Conselho era ostracizado pelos colegas.Ninguém gostava de um engraxador. 

Hoje tudo isso mudou. O engraxanço evoluiu ao ponto de tornar-se irreconhecível. Foi-se subindo na escala de subserviência, dos sapatos até ao cu. O engraxador foi promovido a lambe-botas e o lambe-botas a lambe-cu. Não é preciso realçar a diferença, em termos de subordinação hierárquica e flexibilidade de movimentos, entre engraxar uns sapatos e lamber um cu. Para fazer face à crescente popularidade do desporto, importaram-se dos Estados Unidos, campeão do mundo na modalidade, as regras e os estatutos da American Federation of Ass-licking and Brown-nosing.Os praticantes portugueses puderam assim esquecer os tempos amadores do engraxanço e aperfeiçoarem-se no desenvolvimento profissional do Culambismo. 

(...) Tudo isto teria graça se os culambistas portugueses fossem tão mal tratados e sucedidos como os engraxadores de outrora. O pior é que a nossa sociedade não só aceita o culambismo como forma prática de subir na vida, como começa a exigi-lo como habilitação profissional. O culambismo compensa. Sobreviver sem um mínimo de conhecimentos de culambismo é hoje tão difícil como vencer na vida sem saber falar inglês. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'Último Volume'


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