Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2016

Alexandra Lucas Coelho - parte do discurso de agradecimento pelo prémio APE

Alexandra Lucas Coelho

Imagem do Público

 

"Eu gostava de dizer ao actual Presidente da República, aqui representado hoje, que este país não é seu, nem do governo do seu partido. É do arquitecto Álvaro Siza, do cientista Sobrinho Simões, do ensaísta Eugénio Lisboa, de todas as vozes que me foram chegando, ao longo destes anos no Brasil, dando conta do pesadelo que o governo de Portugal se tornou: Siza dizendo que há a sensação de viver de novo em ditadura, Sobrinho Simões dizendo que este governo rebentou com tudo o que fora construído na investigação, Eugénio Lisboa, aos 82 anos, falando da “total anestesia das antenas sociais ou simplesmente humanas, que caracterizam aqueles grandes políticos e estadistas que a História não confina a míseras notas de pé de página”.

 

Este país é dos bolseiros da FCT que viram tudo interrompido; dos milhões de desempregados ou trabalhadores precários; dos novos emigrantes que vi chegarem ao Brasil, a mais bem formada geração de sempre, para darem tudo a outro país; dos muitos leitores que me foram escrevendo nestes três anos e meio de Brasil a perguntar que conselhos podia eu dar ao filho, à filha, ao amigo, que pensavam emigrar.

 

Eu estava no Brasil, para onde ninguém me tinha mandado, quando um membro do seu governo disse aquela coisa escandalosa, pois que os professores emigrassem. Ir para o mundo por nossa vontade é tão essencial como não ir para o mundo porque não temos alternativa.

 

Este país é de todos esses, os que partem porque querem, os que partem porque aqui se sentem a morrer, e levam um país melhor com eles, forte, bonito, inventivo. Conheci-os, estão lá no Rio de Janeiro, a fazerem mais pela imagem de Portugal, mais pela relação Portugal-Brasil, do que qualquer discurso oco dos políticos que neste momento nos governam. Contra o cliché do português, o português do inho e do ito, o Portugal do apoucamento. Estão lá, revirando a história do avesso, contra todo o mal que ela deixou, desde a colonização, da escravatura.

 

Este país é do Changuito, que em 2008 fundou uma livraria de poesia em Lisboa, e depois a levou para o Rio de Janeiro sem qualquer ajuda pública, e acartou 7000 livros, uma tonelada, para um 11º andar, que era o que dava para pagar de aluguer, e depois os acartou de volta para casa, por tudo ter ficado demasiado caro. Este país é dele, que nunca se sentaria na mesma sala que o actual presidente da República.

 

E é de quem faz arte apesar do mercado, de quem luta para que haja cinema, de quem não cruzou os braços quando o governo no poder estava a acabar com o cinema em Portugal. Eu ouvi realizadores e produtores portugueses numa conferência de imprensa no Festival do Rio de Janeiro contarem aos jornalistas presentes como 2012 ia ser o ano sem cinema em Portugal. Eu fui vendo, à distância, autores, escritores, artistas sem dinheiro para pagarem dividas à segurança social, luz, água, renda de casa. E tanta gente esquecida. E ainda assim, de cada vez que eu chegava, Lisboa parecia-me pujante, as pessoas juntavam-se, inventavam, aos altos e baixos.

 

Não devo nada ao governo português no poder. Mas devo muito aos poetas, aos agricultores, ao Rui Horta que levou o mundo para Montemor-o-Novo, à Bárbara Bulhosa que fez a editora em que todos nós, seus autores, queremos estar, em cumplicidade e entrega, num mercado cada vez mais hostil, com margens canibais.

 

Os actuais governantes podem achar que o trabalho deles não é ouvir isto, mas o trabalho deles não é outro se não ouvir isto. Foi para ouvir isto, o que as pessoas têm a dizer, que foram eleitos, embora não por mim. Cargo público não é prémio, é compromisso.

 

Portugal talvez não viva 100 anos, talvez o planeta não viva 100 anos, tudo corre para acabar, sabemos, Mas enquanto isso estamos vivos, não somos sobreviventes."

 

Alexandra Lucas Coelho

publicado por olhar para o mundo às 09:13
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Sábado, 13 de Junho de 2015

Carta aberta ao presidente da República

4 de Julho de 2013.

 

Exmo. Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva

Presidente da República de Portugal

 

Estas últimas 48h deixaram Portugal num verdadeiro estado de emergência nacional. Foram 48h de movimentações políticas e partidárias, provocadas por altos dirigentes que foram democraticamente mandatados pelo povo português para defenderem os superiores interesses nacionais, mas que revelaram uma irresponsabilidade difícil de compreender e aceitar por qualquer cidadão. Foram 48h em que a credibilidade internacional do nosso país foi trucidada e atirada ao chão. Os mercados financeiros internacionais voltaram a duvidar de que somos capazes de arrumar a nossa própria casa e assim caminhamos vertiginosamente para a necessidade de um segundo resgate financeiro. O povo português vê agora que os esforços que acumulou ao longo destes 2 anos (aliás… bem mais do que isso), e que levaram muitos portugueses para o desemprego e para níveis de pobreza desumanos numa sociedade desenvolvida como a nossa, não têm valor nem retorno. Em democracia é usual ouvir-se que a liberdade de um termina quando toca a liberdade do próximo. Acções políticas desta índole são efectivamente criminosas para a nossa liberdade, seja pela perda do poder de compra, pela impossibilidade de seguir uma carreira profissional, ou pelo carimbo com que cada um de nós fica cada vez que sai do país. Há um sentimento muito grande de tristeza, frustração e angústia quando vejo o meu país neste caminho. É tempo de dizer basta, romper com o que é a tradição política em Portugal e agir.

 

Sua Excelência, Presidente da República, este governo… com estas pessoas, falhou. A crise política criada por divergências internas de quem demonstrou não ser capaz de gerar consensos na sua própria equipa é demonstrativo da falta de legitimidade que sobra para governar. Pensar que Portugal vai conseguir combater os desafios sociais, políticos e económicos que se avizinham com uma coligação de remendos que não traz confiança nem ao país nem aos parceiros globais é um erro crasso. Infelizmente a incapacidade de gerar confiança e movimentar "as tropas" para um objectivo comum é algo transversal aos nossos líderes políticos actuais e Portugal não precisa e não vai aceitar uma mudança de pessoas para a mesma política. 

 

Não sou contra a política e reconheço a política como instrumento fundamental em democracia para defender o interesse dos povos. Mas é imperativo percebermos que só vamos conseguir vencer os problemas sociais e económicos que enfrentamos com os melhores. A classe política portuguesa já demonstrou estar minada com uma mediocridade partidária onde os deputados do poder apoiam tudo o que o governo faz e os deputados da oposição são contra tudo o que o governo propõe… e sempre sem um critério objectivo, sem se perceber o que são efectivamente as boas e as más propostas. Isto são comportamentos que só se interpretam percebendo que o que se passa na Assembleia da República não é um serviço ao país, mas sim um debate e um jogo pelo poder. Estamos imersos numa ditadura partidária, disfarçada de democracia, e onde a política e os centros de decisão são controlados por partidos que por sua vez estão infiltrados por pessoas de competência duvidosa, dos chamados profissionais da política, que nunca são chamados a responder pelos seus actos ao país e às pessoas que os mandataram. É isto que é imperativo mudar em Portugal. É claro que uma mudança desta magnitude exige uma credibilidade na política, que ela actualmente não tem, para que possa atrair os melhores e os que têm espírito de missão. Precisamos de uma democracia conjugada com uma meritocracia. É por isso que apelo a Vossa Excelência que, no estado de emergência em que Portugal se encontra actualmente, tenha a autoridade, lucidez e sentido de estado essenciais à principal figura da nação para chamar a si as pessoas de relevo nacional com autoridade e competência para traçar um plano político que nos leve a um caminho de prosperidade. Precisamos de uma política sóbria e que não seja extremista nem na austeridade nem nos gastos do erário público. Precisamos de uma política a que eu chamaria de "política pela positiva" onde cada lei e cada medida governamental tenha as pessoas e a sociedade como referência. Não se pode pedir um sacrifício ao povo sem que este seja informado de forma clara sobre a razão e o objectivo que se pretende alcançar com esse sacrifício. Da mesma forma, não se pode dar um incentivo e apoiar uma determinada classe na sociedade, seja a banca, os carpinteiros, as grandes empresas, os professores, …, sem existir uma explicação clara sobre a razão desse apoio e em que medida é que isso leva a um benefício global da sociedade. Só assim poderemos tornar a política transparente e levá-la novamente às pessoas. Convidar a sociedade a participar no debate político e ter um Estado aberto às orientações e sugestões do seu povo é um golpe incalculável no acesso à corrupção, aos lobbies e ao abuso de poder que tanto prejudicaram Portugal ao longo de décadas e que nos deixam hoje na cauda da Europa apesar de todos os dias conhecermos novos casos de portugueses capazes de enormes feitos em todas as áreas, das ciências às artes, do desporto à economia.

 

Sendo esta uma carta aberta, queria também dar uma palavra a todos os portugueses. Não virem as costas à política, pois é a política que todos temos que usar como instrumento de acção para definirmos e conseguirmos os nossos objectivos. Só se valorizarmos a política podemos aliar a competência e genialidade de muitos portugueses com o espírito de serviço que precisamos nos nossos líderes. É a nossa casa que temos que arrumar e essa tarefa cabe a cada um de nós. Virem-se sim contra a incompetência e a promiscuidade da política. Isso é que não pode passar em claro e desafio aqui todos os portugueses a protestarem sem fim, caso as soluções que saírem desta crise política não forem ao encontro das nossas necessidades.

 

Sua Excelência, Presidente da República de Portugal, a classe política portuguesa bateu esta semana no fundo, ultrapassando o impensável para todos os portugueses. Está nas suas mãos dar inicio a esta mudança de mentalidades, de pessoas e de definição do que queremos que Portugal seja no mundo. Eu e certamente todos os portugueses estamos cá… estaremos cá e não vergamos facilmente às dificuldades. Mas basta de incompetência, basta de abusos de poder, basta de uma justiça de interesses, basta…

 

Com os melhores cumprimentos e votos sinceros de sucesso nas decisões que se avizinham,

 

Doutor Luís Oliveira

 

Português, 31 anos. Licenciado e Doutorado em Bioquímica pela Universidade de Lisboa. Residente na Alemanha.

publicado por olhar para o mundo às 08:13
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Domingo, 18 de Janeiro de 2015

A política no Facebook - cada país é a imagem dos seus governantes

 

cada país é a imagem dos seus governantes

 

publicado por olhar para o mundo às 23:59
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