Sábado, 25 de Junho de 2016

Ricardo Araújo Pereira - A obra perdida de Samuel Beckett

Ricardo Araújo Pereira

 

(Sobe o pano. Dois vagabundos estão enterrados num monte de areia. Só lhes vemos as cabeças, de modo a que pareçam ter o mesmo corpo, sob a areia. O facto de ambos se chamarem António reforça essa ideia.)

 

- Boa noite.

 

- Isso fica-te mal, António.

 

- Foi só uma saudação.

 

- É a saudação típica dos doutores de Lisboa. No país real, as pessoas cumprimentam-se de outra forma. Devias ter dito: "Está bom, ti Manel?"

 

- Tu chamas-te António.

 

- Não interessa.

 

- Bom, vamos ao essencial: eu sou mais fotogénico do que tu, António. ?E tenho a voz mais grossa.

 

- Isso fica-te mal, António. O que tu estás a fazer ao PS não se faz. O meu vídeo demonstra isso muito bem.

 

- Aquele vídeo é da tua campanha? Pensei que fosse da minha.

 

- Não, vê-se bem que é da minha. Estou lá eu, a colocar terra num balde, simbolizando o terreno que preparei...

 

- Pensei que isso simbolizava o tempo que passaste a enterrar o PS.

 

- Isso fica-te mal, António. Depois começo a regar...

 

- Aquilo é regar? Eu achei que simbolizava o balde de água fria que foram os resultados das europeias.

 

- ... e depois tu apareces e colhes o cravo que eu fiz crescer.

 

- Bom, mas nesse caso o vídeo é muito ofensivo para mim.

 

- Não te admito, António. A rábula do ofendido é minha. Escolhe outra estratégia. Porque é que o vídeo te ofende?

 

- Porque eu apareço a colher o cravo. Tu sabes que eu sou de origem goesa. É uma referência muito rasteira ao facto de os indianos andarem sempre com flores.

 

- Que disparate. Estou ofendido com o facto de te sentires ofendido, António.

 

- Estas ofensas pessoais são consequência da tua falta de ideias. Só tens seis propostas e meia.

 

- Sempre são seis propostas e meia a mais do que tu tens.

 

- É falso. Sei exactamente o que é necessário fazer. O País precisa de fisioterapia. E eu preciso de metáforas melhores.

 

- O que tu estás a fazer é uma grande deslealdade, António. Eu ando a esgravatar desde o tempo da JS. Ali, caladinho, a trabalhar o partido para finalmente tomar o poder. E agora apareces tu, de repente, para receber os louros.

 

- Por falar em aparecer de repente: como é que tu conseguiste ser o primeiro a aparecer na entrada do Altis quando o Sócrates perdeu as eleições? Foste pelo elevador de serviço?

 

- Não compares. A tua deslealdade é maior que a minha, António. Eu passei os últimos três anos a percorrer o País, em almoços com militantes. Eu já não posso ver carne assada, António. E agora tu, que nem tens posição acerca do défice e da dívida, queres apropriar-te do meu trabalho.

 

- Eu tenho coisas maravilhosas para dizer sobre o défice e a dívida, mas este não é o momento indicado. Há demasiadas variáveis. Temos de esperar até as variáveis pararem de variar. Enquanto o mundo não parar quieto, não vale a pena falar sobre o défice e a dívida.

 

- Isso fica-te mal, António.

 

- Eu nem percebo porque é que tu fazes tanto finca-pé em disputares as legislativas se já prometeste que te vais demitir quando fores primeiro-ministro.

 

- Só me demito se tiver de aumentar os impostos.

 

- Nos últimos 40 anos, conheces algum primeiro-ministro que não tenha aumentado os impostos?

 

- Isso é verdade. Mas fica-te mal, António.

 

- O que é que achas do vestido de lantejoulas que eu estou a usar hoje?

 

- Fica-te mal, António.

 

(Cai o pano)



Retirado da Visão

publicado por olhar para o mundo às 09:13
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Sexta-feira, 17 de Junho de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Clube dos socialistas mortos

Ricardo Araújo Pereira

 

Exmo. Sr. Presidente da Federação do PS de Braga,

 

Na qualidade de socialista falecido em 2005, venho felicitar a sua federação por possibilitar a participação de mortos no processo eleitoral. Durante demasiado tempo, só pessoas vivas eram chamadas a votar, pelo que se saúda o alargamento do espectro eleitoral a espectros eleitores. A iniciativa de V. Exa. produz efeitos ideológicos que, tenho a certeza, hão-de marcar a história do socialismo. A velha divisa cubana "Socialismo ou morte" terá de merecer actualização, na medida em que a federação socialista de Braga demonstra que socialismo e morte não são conceitos que se excluam. Talvez em Cuba os cidadãos sejam obrigados a escolher "socialismo ou morte", mas em Braga podemos ter "socialismo e morte", tudo ao mesmo tempo. É, literalmente, o melhor de dois mundos: este e o outro.

 

Note que não falo em nome dos mortos-vivos, mas sim dos muito mais prosaicos mortos. Os mortos-vivos, pese embora a fama de que vêm gozando, não merecem direito de voto. As criaturas lendárias já estão muito bem representadas na vida política pelos vampiros. Acrescentar os mortos-vivos seria redundante. Os mortos, em contrapartida, nunca obtiveram representação política. O falecimento, ocorrência tantas vezes alheia à vontade do cidadão, retira-lhe o direito de voto, sem que seja apresentada uma justificação válida. A ausência de actividade cerebral não serve de desculpa, uma vez que também se verifica, quer em outros eleitores, quer em boa parte dos eleitos.

 

Como é evidente, coloca-se a questão de saber de que modo pode o morto participar no processo eleitoral, dadas as suas limitações. Neste ponto, permita-me que lhe apresente o meu sobrinho Nelson, que é bruxo em Esposende. É a ele que estou a ditar estas palavras. Por uma verba simbólica, o Nelson está disponível para colaborar com a concelhia do PS, transmitindo aos seus dirigentes a posição política de um vasto leque de defuntos. Todos os dias, o Nelson recebe a visita de inúmeras almas de antigos socialistas, ansiosos por participar na vida partidária. O morto, hoje em dia, já não se satisfaz com as tradicionais aparições fantasmagóricas em casa dos familiares para bater com portas e abrir torneiras. O defunto moderno quer continuar a ter uma palavra a dizer na vida cívica. O meu sobrinho Nelson pode ajudar a concelhia a registar as opiniões de antigos socialistas, por apenas dois euros por alma. No entanto, o Nelson está preparado para lhe oferecer um preço especial por atacado, a saber: 15 euros por cada palete de 10 defuntos.

 

Creia que somos muitos, neste lado, a querer participar. E está aqui um senhor chamado Engels que quer dar uma palavrinha a V. Exa. acerca do que é, na verdade, um partido socialista.

Com os melhores cumprimentos,

 

Fernando Manuel T. Guedes

Defunto



Retirado da Visão

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Sábado, 28 de Fevereiro de 2015

Albert Einstein no Facebook - Loucura é repetir a mesma coisa vezes sem conta e esperar resultados diferentes,

Loucura é repetir o mesmo erro

 

Loucura é repetir a mesma coisa vezes sem conta e esperar resultados diferentes,

Albert Einstein

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