Domingo, 19 de Março de 2017

Fundo preto - Amor Avesso

 

 

 

 

AMOR AVESSO:
Conheci-te à meia-noite, estava de roupão
Passeavas pela rua, meio em turbilhão
E, sem que ninguém notasse, veio um apalpão
Olhaste, piscaste o olho, senti um furacão
Devia ter percebido que isso era um não.
Nós dois somos ao contrário, somos contramão
Somos fogo e gasolina, somos combustão.
Quando ando defendida, ardes de paixão
Se me entrego desarmada, largas a minha mão
Devia ter percebido que isso era um não.
Se me sinto animada, pedes rendição
Quando acalmo, quero mimo, vens cheio de acção
Quando quero que me ames, vais lavar o cão
Quando voltas, eu já durmo, queres atenção
Devia ter percebido que isso era um não.
Peço um amor verdadeiro, dás-me compaixão
Quando finjo que sou Eva, não está lá o Adão
Chegas morto do trabalho, e eu celebração
Quando acho que estou linda, pões-me lá no chão
Devia ter percebido que isso era um não.
Só de olhar à nossa volta, mas que confusão!
Tudo o que é bom para mim, para ti é negação
E o filme quando tu me viste com o João?
Gritaste durante dias e ele é como um irmão
Devia ter percebido que isso era um não.
E até quando a nossa vida corre de feição,
Tu arranjas uma forma e mudas o guião.
Quando penso seriamente, chego à conclusão
Que podias ser um doce, mas preferes ser cabrão.
… tu podias ser um doce, mas preferes ser cabrão.
Devia ter percebido que isso era um não.
© Alex Alvarenga 2016

 

Texto: Alex Alvarenga
Interpretação: Rafaela Covas
Imagem: Miguel Marques
Música Original: António Neves da Silva
Produção: FUNDO PRETO

 

Facebook: facebook.com/FUNDOPRETOOFICIAL
Instagram: instagram.com/fundopretooficial
Twitter: twitter.com/FUNDOPRETOVIDEO
E-mail: info@fundopreto.com

 

publicado por olhar para o mundo às 23:13
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Sexta-feira, 23 de Setembro de 2016

José Luís Nunes Martins - A Razão da Minha Esperança

 

 

A Razão da Minha Esperança

 

Meu bom amigo,

Sei que tens sofrido bastante.

Não posso esquecer que um dia me ensinaste: que leal é quem não abandona; que devemos procurar ser pessoas dignas de confiança, mais do que tentar encontrar alguém assim; e, que a vontade de amar já é, em si mesma, amor.

Permite-me que partilhe contigo, hoje, algumas ideias a respeito dos momentos difíceis...

São muitas as provas que na vida servem para testar quem somos, a força que temos em nós e o nosso valor. Algumas vezes uma pedra gigante vem cair mesmo diante de nós... outras vezes são séries infindáveis de pequenos obstáculos no caminho... longas etapas que nos obrigam a seguir adiante sem descansar, em percursos onde quase nunca se vê o horizonte.


A agitação permanente em que vivemos leva muitos a desistir de encontrar referências mais adiante, mas é preciso que nos afastemos do tempo para assim encontrarmos a posição mais segura, elevando-nos acima dos momentos passageiros para os compreender melhor. No meio da confusão é preciso ver para além do que se pode olhar... estabelecer os alicerces sobre o que é sólido, ainda que seja preciso escavar muito mais fundo do que o normal... confiar sempre que há mais vida para lá desta. Que a nossa existência, tal como a conhecemos, é apenas um pedaço.

Lembra-te que não há tantas verdades quantas pessoas, há uma só verdade... e imensas mentiras, erros e imprecisões. Confia na verdade, ainda que não a possas ver ou compreender.

Não vás onde te levam as emoções. Nem vás para onde vão os outros. Constrói o teu plano com base na verdade que és, constrói-te... e sê feliz. Apesar de tudo.

Não penses nunca que, por te escrever estas coisas, saberei mais ou estarei mais adiantado na viagem... não. Sou teu companheiro de caminho e procuro em ti, e através da tua luta, inspiração para a minha. Escrever é algo fácil e vulgar. Importante e determinante é cumprir um projeto de vida, com gestos concretos, sorrindo sempre apesar da vontade de chorar. Chorando, quando assim tem de ser, mas nunca desistindo de acreditar.

Há uma esperança essencial à vida: a fé. Importa cuidar bem desta certeza. O sentido da nossa existência depende dela.

Não desperdices energia a tentar eliminar o sofrimento. Podemos combatê-lo e limitá-lo através da fé, mas o sofrimento faz parte da vida. Fugir dele é escolher não viver. Lembra-te que Deus não está apenas no topo da alegria, está também no fundo da tristeza. Não estás só. Nunca.

Não deixes que o pedregulho diante de ti te impeça de acreditar no horizonte que há para além dele... lembra-te que os obstáculos que encontramos no caminho tantas vezes nos conduzem para alegrias que doutra forma não iríamos abraçar. Não permitas que os longos tempos cheios de pequenos nadas te afastem da certeza da fé no que é pleno, bom e infinito.

Eis a razão da minha esperança: olho para trás e vejo que na vida sempre me foi dado mais do que eu sonhei, que os meus desejos foram pequenos face às maravilhas que se realizaram diante de mim, para mim e em mim... aprendi com tudo isto a esperar pelo melhor, sem saber sequer o que isso significa... Acredito que contigo não será diferente.

O futuro é um reino bem distinto de todos os que podemos imaginar. A única coisa certa é que estamos num caminho que não tem fim.

Não permitas que nada perturbe a tua lealdade ao amor.

Confio em ti e rezo por ti.

José Luís Nunes Martins, in 'Amor, Silêncios e Tempestades'

Retirado de Citador

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Segunda-feira, 22 de Agosto de 2016

Fiodor Dostoievski - A Liberdade de Escolha

dostoievski-portada.jpg

 

A Liberdade de Escolha

 

Realmente, se um dia de facto se descobrisse uma fórmula para todos os nossos desejos e caprichos - isto é, uma explicação do que é que eles dependem, por que leis se regem, como se desenvolvem, a que é que eles ambicionam num caso e noutro e por aí fora, isto é uma fórmula matemática exacta - então, muito provavelmente, o homem deixaria imediatamente de sentir desejo.


Pois quem aceitaria escolher por regras? Além disso, o ser humano seria imediatamente transformado numa peça de um orgão ou algo do género; o que é um homem sem desejos, sem liberdade de desejo e de escolha, senão uma peça num orgão?

Fiodor Dostoievski, in "Cadernos do Subterrâneo"

publicado por olhar para o mundo às 09:13
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Quarta-feira, 3 de Agosto de 2016

Ricardo Araújo Pereira - No tempo em que os animais sorriam

 

No tempo em que os animais sorriam

 

Há apenas uma diferença entre as fábulas clássicas e as do Presidente da República: as clássicas costumam acabar com uma moral; as de Cavaco, por se debruçarem sobre a nossa economia, terminam quase sempre com uma imoral

 

Quando, cerca de duas semanas antes de as acções do BES passarem a valer zero, o Presidente da República disse que os portugueses podiam confiar no BES, toda a gente ficou mais ou menos convencida de que Cavaco Silva não ganharia o Nobel da Economia deste ano. Confirmou-se: o prémio foi atribuído a um francês que tem optado por fazer declarações relativamente sensatas. Enfim, são estratégias. Neste momento, creio que Cavaco já percebeu que a economia não o merece. E parece-me que começou a preparar a candidatura ao Nobel da Literatura. Está com uma capacidade de efabulação prodigiosa e com um estilo muito fresco. Há, em Cavaco Silva, uma disposição para o maravilhamento, um impulso para observar o mundo, para aquela operação poética a que Alberto Caeiro chamava "ver como um danado". O que é curioso na mundivisão de Cavaco Silva é que somos nós que ficamos danados com aquilo que ele vê.

 

Esta semana, o Presidente quis esclarecer "uma coisa completamente errada": "Os contribuintes não vão suportar os custos do BES." É uma declaração do domínio da fábula, que é o mundo no qual Cavaco costuma viver. Para o Presidente que vê vacas a sorrir e segreda palavras meigas ao ouvido de cagarras, o tempo em que os animais falavam é hoje. Ora, vigorando na nossa economia a lei da selva, que perspectiva pode ser mais acertada que a de La Fontaine? Que modo de observar a realidade pode produzir melhores efeitos que o da narrativa alegórica repleta de imaginação, fantasia e animais com características humanas? Se Cavaco diz que não vamos pagar os custos do BES, eu acredito assim como acreditei em Esopo.

 

A história da cigarra e da formiga mostra-nos que é importante precaver o futuro. A história da tartaruga e da lebre avisa-nos para os perigos da sobranceria. E a história de Cavaco ensina-nos que os contribuintes não vão pagar o BES.

 

Há apenas uma diferença entre as fábulas clássicas e as do Presidente da República: as clássicas costumam acabar com uma moral; as de Cavaco, por se debruçarem sobre a nossa economia, terminam quase sempre com uma imoral. Também ensinam uma lição, mas é uma lição um pouco mais dolorosa.

Retirado de Visão

publicado por olhar para o mundo às 09:13
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