Terça-feira, 24 de Novembro de 2015

ADOPTAR É AMAR - Vera Sacramento

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Raramente consigo tomar o pequeno-almoço descansada. Tenho o terrível hábito de me perder nas conversas das pessoas que frequentam a pastelaria onde vou todas as manhãs, ouvindo atentamente aquilo que dizem, avaliando as suas opiniões e ideias como se fosse uma agente infiltrada, vampirizando as suas histórias. Ontem o dia afigurava-se fraco e desinteressante para vampiros como eu. Preparava-me para sair quando subitamente alguém lança o seguinte comentário nas minhas costas “Espero bem que aquela história dos gays poderem adotar crianças não vá para a frente! É uma anormalidade. Um nojo!”. Tentei controlar o instinto de me virar para trás mas a curiosidade e a indignação levaram a melhor. Virei-me. Na mesa junto à janela estavam duas mulheres na casa dos quarenta e um miúdo que não deveria ter mais de cinco. Enquanto elas conversavam o miúdo rabiscava um livro para colorir, tocando no braço da mãe de quando em vez para pedir a palavra. Irritada, a mulher continuou a dissertar sobre o tema da adopção por casais do mesmo sexo sem ligar a menor importância ao filho, como se procurasse validação para as suas certezas inabaláveis: “Imagina um casal de bichas a adoptar um miúdo da idade do meu! Como é que ficava a cabeça da pobre criança? E o que ia sofrer na escola, a ser gozado por toda a gente? É ridículo!”. “Até pode ser perigoso” – acrescentou a outra, enquanto o rapaz puxava a camisola da mãe, reclamando novamente atenção “dois homens a viverem sozinhos com um miúdo… ainda para mais com o que se ouve por aí da pedofilia! Só um bando de irresponsáveis é que aprova uma coisa dessas”. Naquele momento olhei em volta para tentar perceber se mais alguém se sentia incomodado com aquele chorrilho de alarvidades mas rapidamente constatei que estava sozinha. Os senhores da mesa em frente discutiam as gordas de um jornal desportivo enquanto o casal encostado ao balcão folheava o catálogo de uma imobiliária. Quem na verdade estava incomodado com a conversa era o miúdo, não propriamente pelos disparates que iam sendo ditos, mas porque a mãe se recusara a ouvi-lo. Resignado, dirigiu-se à casa de banho para regressar alguns minutos mais tarde com as calças todas molhadas. Só nessa altura é que a mulher, acérrima defensora da moral e dos bons costumes, olhou para o filho e reagiu: “Mas será possível, Filipe? Só fazes asneiras, caramba! Senta-te aqui quieto antes que eu me passe da cabeça e te dê dois tabefes!“. Naquele momento tive uma enorme vontade de me levantar da cadeira e dar dois tabefes. A ela, naturalmente. Não estivesse eu a atravessar uma fase mindful, ter-lhe-ia corrido mal. Apeteceu-me dizer-lhe que a capacidade de amar e educar uma criança nada tem a ver com a orientação sexual de cada um, e que ela, na verdade, era o melhor exemplo disso. Enquanto pregava em público o desprezo pelos homossexuais, passando-lhes um sumário atestado de incompetência parental, teve o filho ao lado, a pedir-lhe insistentemente um pouco de atenção, sem que parasse um segundo que fosse para o ouvir. Depois de refletir, achei que não valia a pena. Pessoas como aquela mulher estão demasiado presas às suas crenças, às suas representações internas, aos seus medos e ódios obscuros, para ouvirem vozes dissonantes. Para discorrerem sequer com um pouco de razoabilidade. Felizmente o universo encarregou-se de seguir o seu caminho fazendo justiça e, nesse mesmo dia, 20 de Novembro de 2015, após três tentativas falhadas na anterior legislatura, a Assembleia da República aprovou a eliminação dos obstáculos legais à adoção de crianças por casais do mesmo sexo.

Um dia histórico.

Uma valente bofetada… de luva branca.

 

Vera Sacramento

Retirado de Maria Capaz

 


publicado por olhar para o mundo às 09:13
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